Sete meses depois de lançar a Planetiers, Sérgio Ribeiro, cofundador e CEO, analisou a caminhada que  o projeto tem feito, falou dos desafios do mercado, do estado do ecossistema nacional de start-ups e das conquistas que espera alcançar em 2018.

Sérgio Ribeiro, conjuntamente com Carlos Carvalho, é o cofundador do projeto português Planetiers, um mercado agregador de produtos sustentáveis para o planeta. Desafiámo-lo a fazer uma retrospetiva dos primeiros meses de atividade, numa análise onde revelou que internacionalizar a plataforma é um objetivo para pôr em prática já este ano.

Que balanço faz destes sete meses da Planetiers?
Foi uma correria constante. Foi como uma maratona em ritmo de sprint. Foi mais ou menos o que aconteceu. Obviamente que o que temos não foi fruto apenas deste período. Antes do nosso lançamento em finais de junho tivemos um trabalho imenso para organizar a plataforma, criar uma rede de parceiros e embaixadores, que incluí um prémio Nobel da Paz [Mohan Munasinghe]. Mas sem dúvida que a partir do momento em que lançámos começaram a aparecer desafios diferentes, muito diferentes, que nos obrigaram a acelerar e a colocar um pouco mais de pressão na resposta. Isto porque a partir do momento em que alguém entra no mercado está exposto e tem de mostrar exatamente aquilo que vale. A nível da plataforma foi fantástico, cinco estrelas. Temos tido novos produtos todas as semanas, uma média de 15. Ou seja, é uma prova de que o mercado sustentável e ecológico existe e está a necessitar de algum sítio para comunicar e se promover, algo que a Planetiers tem de fazer no seu mercado online. De igual forma, do lado da procura também temos tido dezenas de milhares de visitas nestes sete meses, em que as pessoas tiveram, claramente, uma fase de “namoro”, algo que não se traduziu em vendas imediatas. Aliás, tivemos vendas imediatas, mas não um volume grande imediato. Mas temos visto o crescimento e é isso que nos interessa, pelo menos nesta fase.

Em relação às marcas, quantas é que já têm expostas na plataforma?
Agora temos mais de 150.

E quais são os critérios que aplicam às marcas para terem os produtos expostos na Planetiers?
No início, algo a que eu chamo ainda de “modo start-up”, é tudo feito manualmente, algo que estamos agora a alterar. O que nós temos feito até agora é uma seleção pouco automatizada em que a única coisa que temos de garantir é que os produtos são reais para dar certezas de que o que as pessoas compram é credível. Pedimos que os vendedores nos enviem certificados e garantias dos procedimentos que alegam. Há um género de “termos de condições” onde nos comprovam a sustentabilidade dos seus negócios. De certa forma, fazia pouco sentido estar a substituir entidades que já estão a regular ou a certificar. Estamos também a organizar este tipo de certificações já existentes, de maneira a disponibilizarmos os produtos de forma categorizada para as pessoas os encontrarem mais facilmente.
O que nós sabemos é que claramente o pool vai ter de ser internacional e, para isso mesmo, vamos criar algo automatizado com a ajuda do professor Mohan Munasinghe e de algumas faculdades e outras entidades específicas na regulação da sustentabilidade, de forma a criar um certificado nosso. Isto significa criar filtros. Vai existir uma espécie de um formulário que terá os critérios estudados, entre nós e as entidades parceiras, muito incisivos naquilo que é necessário para provar que o produto é sustentável. Este formulário vai ajudar o utilizador a saber o que é que está a comprar.

Quais foram as maiores dificuldades que encontraram nestes meses?
Foi, sem dúvida, chegar e garantir aquilo a que nos comprometemos com os poucos recursos que tínhamos disponíveis. Acho que é um desafio normal para qualquer empresa que se encontra na mesma fase. Não é nada fora do comum, mas a verdade é que fizemos isto sem os recursos financeiros de uma empresa já bem estabelecida. Foi só com capitais próprios e com o apoio de empresas que, por acreditarem neste projeto, patrocinaram e chegaram-se à frente para nos apoiar, como a EDP e a Sociedade Ponto Verde. E a equipa: pessoas que estão a dar o litro e o suor, muitas delas sem receber um salário. Quando lançámos tínhamos quatro pessoas na equipa e acabámos o ano com 13. Foi um crescimento que permitiu acompanhar estes desafios, mas foi sempre em resposta. Nós nunca conseguíamos antecipar a estes problemas. Nesta fase, levamos com os problemas primeiro, levamos primeiro o murro e depois é que aprendemos a desviar-nos dele. Foi esse o maior desafio. Principalmente com a ambição que metemos no projeto.
Nestes primeiros sete meses, os números dos novos produtos que têm entrado, do marketing digital, da comunidade de pessoas que temos a visitar o site, é uma grande quantidade para a quantidade de recursos que temos. A acrescentar a isso, trouxemos um prémio Nobel a Lisboa. Tratar de toda a logística, do protocolo, fazer um evento com ele, com a Câmara, tê-lo como orador…  fomos nós que o trouxemos como orador à Web Summit e sabemos que isso traz um retorno grande para aquilo que queremos representar e isso é raro. Este género de “micro-feitos” que nós fazemos, para uma empresa deste tamanho e tão recente, é raro. Acredito que esse também terá sido um dos grandes desafios, mas, por outro lado, também foi aquilo que nos permitiu chegar tão longe e tão rápido.

E a maior conquista?
Teria que destacar duas: o maior feito foi ter conseguido uma equipa dedicada e forte para nos ajudar a remar para onde queremos porque sem eles era mesmo impossível. Não tenho dúvidas nenhumas de que se tirasse as pessoas que estão connosco não estaríamos onde estamos agora. Claramente que o mais óbvio seria dizer ter conseguido o prémio Nobel da Paz [como embaixador]. Sem dúvida que a nível de impacto e de levantar o ego e a plataforma foi o prémio Nobel da Paz. Mas, em termos práticos, foi a equipa.

Considera que o papel do Estado no ecossistema de start-ups com foco social e sustentável é suficiente para acompanhar o crescimento que o mercado tem registado ou devia ter um papel mais ativo?
Eu não quero cometer o erro ou o excesso de muitas pessoas que dizem que o Estado deve ajudar mais porque passa para o lado a culpa de não ter os recursos disponíveis e há pessoas com menos recursos que chegam longe. Eu acho que sim, o Estado é capaz de orientar melhor este tipo de start-ups para que elas não tenham tantas dificuldades como têm agora, visto que é esse o trabalho do Estado: orientar e dar os recursos que podem faltar em alturas críticas. Mas acho que é comum a todas as start-ups. Eu respondo a isto de duas formas: eu começo a ver que esta área de impacto, ou seja, o empreendedorismo de impacto e o investimento de impacto está a crescer imenso, e aí o Estado tem feito um bom trabalho para incentivar nesse sentido e está a começar a acompanhar a dimensão do investimento geral. No entanto, acho que ainda há uma coisa a colmatar neste empreendedorismo genérico em que nós, por exemplo, sentimos imenso isso, que se trata de haver fundos disponíveis. Há muito dinheiro disponível, principalmente em critérios de sustentabilidade, ecologia, integração social, etc,  no entanto, estão disponíveis numa fase ligeiramente à frente de onde nós estamos. Neste momento já não porque estamos a conseguir dar a volta e sabemos que ainda em 2018 vamos estar disponíveis para este tipo de fundos. Mas neste arranque sentimos que havia um gap de recursos que nós não tínhamos e que noutros países se calhar há angel investors, e outro tipo de pessoas, disponíveis para correrem esse tipo de risco com as empresas. Portugal ainda peca muito nesse sentido.

Então seria mais proveitoso para as start-ups haver fundos disponíveis para as fases mais embrionárias?
Sim, seed, pré-seed. Porque há muitas start-ups que morrem por não haver esta disponibilidade. Agora há os vales de incubação, etc, mas não é o suficiente. Há um gap, ou seja, eles realmente dão os vales para os empreendedores poderem usufruir durante um período, ajudam-nos a pagar a incubadora, mas têm sempre de ter algum dinheiro disponível de lado, sempre. Isto porque ou pagam parcialmente ou porque não cobram os custos da tua vida inteira para te dedicares àquilo. Eu, por exemplo, não tive nenhum desses vales mas senti que muita gente morre porque não tem essa aposta. Em vez de estarem a apostar meio milhão ou um milhão numa empresa, às vezes podiam pegar em 200 mil e dividir por várias pequenas empresas. E não só estava a falar dos angel investors que são quem colmata essa lacuna do Estado, em países como os Estados Unidos, ou dos fundos de investimentos, mas também digo a nível das incubadoras. Na Y Combinator, em São Francisco, disseram, o ano passado, que iam alterar a sua aposta de estar em investir muito dinheiro numa start-up e começar a distribuir pequenos investimentos por mais start-ups, de forma a dar a mesma hipótese inicial para o arranque da maratona e para todos os empreendedores estarem no mesmo patamar.

Com isto, é fácil ser-se empreendedor em Portugal?
Eu acho que não é fácil ser-se empreendedor em lado nenhum. Das pessoas com que tenho falado é comum as lutas por que passamos. Até porque damos muito daquilo que nós somos e do que é mais valioso para nós, que é o tempo. As nossas gerações começam a perceber que querem fazer algo que lhes traga alguma realização pessoal e acho que é por isso que o empreendedorismo tem crescido muito. Ao não se reverem no que o mercado está a oferecer, as pessoas acreditam que elas próprias podem fazer essa diferença e é isso que nos permite continuar, para além de todos os desafios que nos colocam à frente. Agora, se me perguntarem se “é fácil? Vais para o empreendedorismo porque é fácil?” A resposta é “não vás”. De todo. Vai para o empreendedorismo porque acreditas que é realmente aquilo que te vai realizar pessoalmente e que, mais à frente, te vai fazer olhar para trás e pensar “é nisto que eu acreditava e não tenho arrependimentos nenhuns nas decisões que tomei”.

E que sugestões pode dar aos potenciais empreendedores do futuro?
Duas: se queres começar, começa agora. Há desculpa para adiar tudo na vida, não é só no empreendedorismo. E esta área é boa porque podemos passar um pouco as lições pessoais que temos no nosso dia-a-dia e na nossa vida pessoal para o empreendedorismo. As pessoas tendem a adiar muito as coisas que querem fazer, mas quanto mais adiamos só estamos a criar uma barreira mental que realmente vamos conseguir chegar lá. Quanto mais rápido começarem mais rapidamente vão chegar lá. Posso dar um exemplo muito prático. Eu quando comecei, há cinco anos enquanto estava a estudar, queria criar valor e as ideias que tinha baseavam-se muito nas áreas de sustentabilidade e ecologia, mas os projetos em si eram totalmente diferentes. Só quando comecei a apostar é que comecei a perceber o que é que o mercado precisava. Eu digo várias vezes que o mercado é um bicho mimado, ou seja, temos de lhe dar aquilo que ele quer, à hora que quer, quando ele quer e temos de lá estar no momento certo. A melhor forma que existe para ser bem-sucedido é ouvir o mercado. Se não ouvirmos aquilo que ele está a pedir, se nos fecharmos em casa com medo que roubem a ideia ou com medo de que não vai funcionar, não se chega a lado nenhum. Foi no momento em que eu comecei a apostar tudo e a divulgar que comecei a avançar. E a segunda coisa que posso dizer é para arriscarem tudo e para aguentarem porque vão haver muitos obstáculos e é preciso ultrapassá-los.

O que se espera para a Planetiers em 2018?
Será um ano em que, com os resultados que tivemos nestes primeiros sete meses, que foram excelentes, já nos permite ter uma espécie de portfólio para mostrar o trabalho que temos vindo a fazer. Neste momento, injetando também os recursos necessários, e com o financiamento certo, é possível alcançarmos valores muito maiores e promissores. Se me perguntassem no lançamento se achávamos que estaríamos onde estamos agora, diria que seria muito difícil. Portanto, tendo estes resultados em sete meses, se eu puser 12 meses em cima, mas agora com mais resultados, mais apoios e com uma capacidade de injetar financiamento e investimento, com que estamos a contar para este ano, acho que o céu é o limite. É um pouco aí que estamos a pensar. O céu e também o mundo porque o nosso objetivo é também sair de Portugal já este ano. E está a ser tudo feito para isso mesmo, começar a internacionalizar a plataforma.

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