Já lá vai o tempo em que os nossos antepassados caçavam e, mais tarde, começaram a cultivar o que comiam. Seguiram-se as primeiras experiências de sedentarismo e troca direta.

Foi preciso esperar muitos séculos até ao aparecimento da moeda. E foi preciso esperar ainda mais para que o trabalho começasse a ser remunerado de forma regular e para todos. Na realidade, o esclavagismo perdurou, infelizmente, até muito recentemente e ainda hoje temos inúmeras situações de dependência extrema que se aproximam assustadoramente da escravidão.

Se pensarmos bem, e mesmo admitindo que o trabalho escravo foi abolido do nosso planeta (tenho fortes dúvidas que assim seja) ainda estamos longe de ter equidade salarial em diversas dimensões.

Vale a pena pois pensar se a trabalho igual corresponde, de facto, salário igual.

Desde logo entre homens e mulheres. Apesar dos progressos a que temos assistido é constrangedor que ainda exista discriminação no século XXI nesta matéria. Alguns poderão pensar que é um problema apenas dos países menos desenvolvidos. Infelizmente, esse fenómeno ainda é comum na União Europeia e nos EUA. Estudos recentes da Mercer demonstram que apesar dos progressos realizados em alguns desses países, a diferença salarial entre homens e mulheres prevalece. Essas diferenças são particularmente visíveis nas funções mais indiferenciadas (funções manuais, rotineiras e administrativas) e no sector primário e secundário. No entanto, os mesmos estudos revelam também discriminações salariais em níveis hierárquicos mais elevados nas empresas, nomeadamente no sector dos serviços.

Mas o fenómeno da falta de equidade salarial não se esgota aqui. É muito mais comum do que se possa imaginar, as empresas remunerarem de forma distinta funções iguais com tudo o que isso significa em termos de injustiça, mas também tensão social e desmotivação por parte dos que pressentem (ou sabem) que estão a ser discriminados face aos colegas. São várias as razões que estão na génese destas diferenças salariais e prendem-se essencialmente com a antiguidade associada a aumentos salariais automáticos, políticas de recrutamento menos estruturadas e estruturas de carreiras e modelos de avaliação menos robustos, entre outras.

A tomada de consciência deste fenómeno tem levado cada vez mais empresas a procurar saber como se comparam com o mercado (análise externa) mas também como estão em termos de equidade interna, sendo que as dimensões mais analisadas neste último caso são: grupo funcional, sexo e idade. E os resultados são muitas vezes surpreendentes.

É pois bom ter presente que no século XXI, ao contrário do que seria desejável, a trabalho igual ainda não corresponde a salário igual. E algum dia corresponderá…?

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Sobre o autor

Diogo Alarcão

Diogo Alarcão é Chairman da Marsh & McLennan Companies Portugal e CEO da Mercer Portugal. Como Chairman tem a responsabilidade de liderar um Comité de Gestão do Grupo MMC em Portugal; promover as soluções do Grupo MMC em Portugal; promover a relação com clientes e outras partes interessadas; promover as sinergias com os líderes de cada empresa do Grupo MMC. O Grupo Marsh & Mclennan Companies é composto por quatro... Ler Mais