David Noble mostrou que a última vaga de automação industrial não foi uma vitória da tecnologia. Foi uma vitória de quem mandava nas empresas e que estava cada vez mais incomodado com o aumento do poder dos colaboradores.

David Noble mostrou que a tecnologia escolhida para automatizar os processos de produção, foi escolhida não porque era a mais eficaz, mas porque era a que tirava mais poder aos trabalhadores.

Acho que vai acontecer exatamente a mesma coisa com os robôs e com os computadores.

Há muitos anos, trabalhei numa dessas cadeias mundiais de fast-food, para ganhar dinheiro para tirar a carta de condução. Normalmente, trabalhava na máquina de fritar frangos, mas houve uma semana em que fui para a montagem das sanduíches. Num dia dessa semana, alguns dos sacos de alface pré-cortada vinham cheios como um balão e tinham um aspeto muito pouco apetitoso. Então, eu e os meus colegas, ‘acidentalmente’, deixámos cair a alface desses sacos ao chão e o nosso chefe teve que ir comprar alface decente ao supermercado.

Se eu fosse um robôzinho, a alface tinha ido para a sanduíche, sem ninguém saber. Mais, eu podia ter contado a minha história num blogue ou até ter ido falar com a imprensa. Mas se, em vez de empregados de carne e osso, estiverem lá robôs, não se saberia nada.

Os robôs estão caladinhos. Os robôs não têm blogues.

Para mim, esse é o principal perigo da automação. Deixamos de ter ‘leaks’ e ‘whitleblowers’, porque não há ninguém para ver as malandrices que alguns gestores fazem e que continuariam a fazer, se não tivessem medo de que alguém contasse.

Com os robôs, já não há ninguém para contar. Ou temos a sorte de ter uma nova geração de líderes impecavelmente éticos, ou então vamos comer muita alface estragada.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais