Após uma década de recuperação de uma profunda crise, as economias portuguesa e mundial têm, neste momento, perspectivas de evolução positivas. Com novos riscos e novos desafios no horizonte na busca de soluções para um melhor posicionamento das economias nacionais no advento da “Quarta Revolução Industrial”.

As consequências das disrupções de base tecnológica e da bioengenharia são cada vez mais evidentes (mas decerto não todas identificadas) e geram novas dimensões e novas questões aos modelos de desenvolvimento das sociedades atuais. A articulação da iniciativa pública e privada e o exercício ativo dos direitos de cidadania tornam-se ainda mais requeridos num contexto de competição por talentos e investidores globais. A transformação de estruturas, alteração de mentalidades e reconversão de capacidades e competências são incontornáveis quando se analisam os impactos de uma crescente utilização de processos baseados em “machine learning”, IoT ou IA. E revelam potencial relevante de aportar mais equidade e de mitigar conflitos, desde que prevaleça a vontade política e exista engenho para que tal possa ser atingido.

Os graus de incerteza na economia reforçam-se num ambiente de maior dinâmica e volatilidade deste “novo mundo” ainda tão incipiente e desconhecido. A flexibilidade e capacidade de adaptação dos quadros normativos e das instituições são condições incontornáveis de competitividade, desenvolvimento e sustentabilidade e tornam-se assim cruciais. As ambições de bem-estar evoluíram e adquirem novo enfoque que não meramente no crescimento do PIB per capita. Os temas da inovação social, do impacto ambiental e da assimetria na distribuição da riqueza assumem uma relevância e um grau de consciencialização sem precedentes. As responsabilidades inter-geracionais ganham transparência e exigem abordagens inovadoras e marcadamente distintas. O progresso “human-centric” é assim multi-dimensional e constitui factor primordial de preocupação dos diversos decisores privados e públicos, tornando-se central para países como Portugal que carece de progressos expressivos no domínio da produtividade e da competitividade, com lacunas evidentes e graves em domínios fundamentais.

Um conjunto de elementos, uns mais estruturantes e outros mais circunstanciais (nestes incluo, como exemplo, a “Primavera Árabe” e o Websummit), potenciaram, nos últimos anos, um alargar de experiências a cidadãos estrangeiros no seu contacto com Portugal. O qual adquiriu uma nova visibilidade e passou a integrar o conjunto de países/economias de possível destino de investimento e de instalação de famílias oriundas de vários pontos do globo. Com consequências muito diversas (e.g. uma maior multiculturalidade nos centros urbanos, a renovação e reabilitação do parque imobiliário que se encontrava profundamente degradado nas principais cidades, redução dos níveis de desemprego, adoção de novos hábitos de consumo via novas plataformas de raiz tecnológica, incremento das exigências em termos de qualidade na prestação de serviços diversos, acréscimo da riqueza nacional) que estimularam a sociedade portuguesa e que, simultaneamente, expuseram as fragilidades institucionais existentes de uma forma clara.

Esta debilidade institucional, com reflexo sobre a competitividade e sobre o ritmo de crescimento nacional (muito inferior ao do seu potencial), impõe alterações às políticas públicas vigentes, as quais não estão nem a acompanhar nem a ativar o ritmo das necessidades de “refundação” que se exige. E não só quanto ao contido no enquadramento regulamentar e à sua estabilidade, como também quanto à competitividade e produtividade decorrentes da gestão do setor público administrativo e empresarial do Estado. Setores que consomem importantes recursos (humanos e de capital) de forma pouco eficiente e cuja reafectação a outras iniciativas decerto seria mais interessante quando se pretendem alcançar níveis de prosperidade e bem-estar mais elevados a médio e longo prazo.

A metodologia comummente adoptada dos “12 pilares” da competitividade das economias das nações permite-nos refletir estruturadamente sobre as prioridades e iniciativas determinantes para que uma afirmação mais robusta de Portugal enquanto espaço económico de relevo no panorama global. Esta metodologia permite identificar mais facilmente os riscos e desafios subjacentes e, consequentemente, melhor perspectivar os perfis de investimento mais adequados e o respectivo retorno expectável.

Quando se recordam os supra mencionados pilares que integram: o contexto institucional (normativo legal e administrativo vigente), as infra-estruturas – transportes, energia, telecomunicações, estabilidade macroeconómica, a saúde e educação básica, a formação e ensino superior, o nível de eficiência dos mercados de bens e serviços, de trabalho e financeiro, a capacidade de integração de tecnologia tanto pelos cidadãos como pelas empresas e pela administração pública, a dimensão de mercado – o que, no caso de Portugal, os empresários se vejam “forçados” a considerar o mercado europeu como o seu mercado natural, a sofisticação/qualidade de mercado normalmente envolvendo uma potente rede de cooperação entre fornecedores e clientes e, finalmente, um investimento expressivo em investigação e pesquisa (que tipicamente exige uma colaboração estreita entre o mundo empresarial e o universitário), constatamos que muito há por fazer. Fica também patente que, nalgumas dimensões, já se alcançaram patamares que em muito superam os existentes há alguns anos e que o futuro se vislumbra como promissor.

Urge, porém, a adoção mais célere de um conjunto de medidas que promovam a criação de um ambiente mais ágil, menos burocratizado e mais orientado para o agente económico, beneficiando do atual ciclo de taxas de juro extremamente baixas, o qual é particularmente benéfico para uma economia muito endividada como a portuguesa e que, como todos os ciclos, mais cedo ou mais  tarde, se irá inverter.

A Portugal importa ter um maior e “melhor” crescimento, níveis de competitividade e produtividade superiores. Constituir-se como referência em áreas específicas de atividade económicas, e em ecossistemas concretos nos quais tenhamos inegáveis vantagens é uma via cuja exploração importa ser assumida claramente e aprofundada. E para a qual o esforço coordenado dos stakeholders envolvidos é determinante. Formar e atrair talentos, desenvolver e adotar tecnologia que sirva as indústrias-chave da economia portuguesa para que se constitua como referência é um elemento agregador e que contribui para o desenvolvimento da sociedade e da economia nacional. Estabilizar quadros legais, investir nos sistemas de educação, saúde e de justiça que dêem segurança a quem reside e a quem faz negócios em Portugal e ir mais longe na oferta cultural (e adquirir neste domínio uma identidade mais diferenciada), são elementos determinantes no futuro de Portugal e que a responsabilidade das diversas forças políticas é inequívoca.

Importa pois assumir um posicionamento que conduza a um radicar das políticas de desenvolvimento económico no sentido de orientarem, facilitarem e estimularem a atracção de talentos e de investimento (nacionais e estrangeiros) à luz de um prisma que tenha no seu centro os clusters em que Portugal tem vantagens competitivas sustentáveis. Estes potenciarão mais e melhores oportunidades de inovação e de criação de valor, dando uma maior visibilidade ao que subjaz ao conceito de “centro de excelência” e seus benefícios.

E recordar-nos-á, de forma mais marcada no modelo de desenvolvimento sustentável nacional, a perspetiva do Cluster based in Portugal, o qual não constitui novidade (no relatório de Michael Porter de 1994 já eram referidos os 11 clusters que potenciariam o acréscimo da competitividade da economia portuguesa), mas a atual realidade e, consequentemente, o diagnóstico e as medidas a implementar sê-lo-ão decerto. Mantém-se todavia como um contributo determinante para o desiderato enunciado.

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Sobre o autor

João Lopes Raimundo

João Lopes Raimundo é empresário, envolvido em diversos projetos e em setores de atividades distintos. Interessado em intervenções no domínio das artes plásticas e da economia social, é sócio fundador do Lisbon Art Center & Studios (LACS). Anteriormente foi membro... Ler Mais