Quando ouvimos falar de responsabilidade social pensamos em primeiro lugar nas abelhinhas e nos pinheirinhos. As abelhinhas e os pinheirinhos são importantes, especialmente as abelhinhas. Mas há um problema social muito grande que nem sequer está no radar das empresas, quando pensam em responsabilidade social: a automação.

Todos os dias aparece um novo emprego que pode ser feito por um robô ou por um algoritmo qualquer. Daqui a pouco, não vamos precisar de pessoas nas empresas, porque os computadores conseguem fazer tudo. Daí que o rendimento básico universal seja um dos temas políticos do momento. Se os computadores substituem as pessoas, então vai haver tanta gente desempregada, que é preciso pensar a sério sobre como é que essas pessoas vão viver, numa economia de mercado.

Qual é a responsabilidade social dos líderes, face à automação? A mim parece-me simples. Há funções que os robôs e os computadores fazem melhor do que as pessoas. Algumas destas tarefas incluem detetar doenças e detetar padrões em quantidades massivas de dados. Nestas tarefas, é perfeitamente razoável substituir pessoas por computadores.

Mas, depois, há muitas funções que as pessoas são tão capazes de fazer como um computador ou um robô, só que um computador e um robô são mais baratos. Nestas tarefas, é socialmente irresponsável substituir pessoas por computadores. Também é mais barato ter condições de trabalho sub-humanas e devastar o ambiente para fazer chocolates. Então qual é a diferença? Porque é que esperamos que os líderes poupem os pinheirinhos e as abelhinhas, mas não esperamos que mantenham as pessoas a trabalhar, só porque são mais caras que um computador? Parece que há computadores a cair do céu para as cadeiras onde agora trabalham pessoas. São computadores tão pesados que ninguém os consegue tirar do lugar.

Não é assim, pois não?

A automatização é uma decisão com consequências sociais graves e, por isso, não pode ser considerada inevitável, para que os acionistas ganhem mais uns tostões.

O pior disto tudo é que parece que não aprendemos nada nos últimos 50 anos. A perspetiva da automação é que as pessoas são mão-de-obra. Mesmo quando usam o cérebro para trabalhar, o cérebro é apenas uma máquina para processar algoritmos. Não é verdade. Eu sei que há computadores que conseguem fazer música, outros sabem fazer ténis e outros são capazes de conversar. Mas será que é só isso que as pessoas são? Um computador caro? Claro que não. Quem vive todos os dias nas empresas, sabe que não. As pessoas podem fazer coisas extraordinárias, se tiverem um líder digno desse nome a apoiá-las.

Os restantes líderes não são precisos para nada. Até um computador consegue decidir automatizar o trabalho, quando as pessoas são vistas como fatores de produção.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of Management do MIT, e Mestre em Comportamento Organizacional, pelo ISPA. A sua escrita tem um tom irónico e provocador. O objetivo é ajudar os gestores a refletir sobre o que... Ler Mais