Já Charles Darwin o disse muito claramente: “It’s not the strongest of the species that survive, nor the most intelligent that survives. It is the one that is the most adaptable to change”. Todos nós, empreendedores, sabemos que essa mistura entre resiliência e flexibilidade é essencial para a nossa sobrevivência.

No ecossistema empreendedor português, tenho encontrado mais flexibilidade do que resiliência. Os portugueses são excecionais na primeira, enquanto em relação ao “saber não desistir” ainda há um caminho a percorrer.

A capacidade para acreditar que somos nós que determinamos o nosso futuro, é exatamente o que os psicólogos chamam “Internal Locus of Control”, que é um traço da personalidade que, de uma forma simples, explica que as pessoas que o têm, consideram que são elas próprias e não as circunstâncias que as rodeiam, o que afeta os seus resultados e os seus sucessos.

Esta caraterística é claramente um fator determinante para a capacidade de resiliência, muito importante num contexto onde, por detrás do ambiente jovial e inovador, atrativo e em crescimento, o que mais se encontram são dificuldades de concretização em primeiro lugar, de sobrevivência a seguir e, finalmente, de sustentabilidade a médio prazo.

Booker T Washington, o escritor e educador afro-americano escreveu: “I have learned that success is to be measured not so much by the position that one has reached in life as by the obstacles overcome while trying to succeed”. Todos os empreendedores se reveem nestas palavras.

A resiliência é a caraterística que nos permite saber lidar bem com a adversidade e com as fontes de stress, de forma a conseguirmos ultrapassar as barreiras que nos aparecem no caminho. Concordo com a maior parte dos psicólogos que defendem que, embora tenha uma componente genética, a resiliência é uma das caraterísticas que melhor se podem ensinar e apreender desde a infância.

Na minha opinião, que corroboro com o que vejo no ecossistema do empreendedorismo português, em que estou envolvida já há cinco anos, a resiliência tem três ingredientes:

  • Otimismo – uma visão positiva de nós próprios e das nossas capacidades (não confundir com arrogância ou falta de humildade);
  • Determinação – foco total no que se quer fazer e conseguir (tudo gira à volta disso);
  • Disciplina – regras e controlo para criar rotinas, ser eficiente e não perder a saúde.

Vejo estes ingredientes em forma de funil. Há muitíssimos empreendedores otimistas, há também muitos determinados, não há tantos disciplinados. A combinação dos três é ainda mais escassa, mas, quando existe, é reconhecida à distância. Confirmem com os investidores!

Ao longo do caminho do empreendedor, a capacidade de resiliência varia e há claramente um breaking point, que o bom empreendedor conhece e controla.

E ainda bem que há, porque, enquanto a adversidade é para todos nós um desafio, a saúde física e mental para continuar a perseguir o sonho é fundamental.

Se queremos que o ecossistema empreendedor em Portugal seja sustentável e não apenas uma moda, não é suficiente criar infraestruturas para alojar as novas empresas, dar formação sobre como elaborar um business plan ou como fazer um pitch e criar concursos de ideias. Há uma grande componente de soft-skills que têm de ser potenciados e desenvolvidos, em sala de aula sim, mas também com coaching e mentoring, que são fundamentais para preparar os empreendedores na luta contra a adversidade e na gestão do fracasso.

Estou certa disto, tão certa como de que esta capacidade de saber “não desistir” tem de começar a ser ensinada na escola primária. Afinal, esta competência é muito importante para os empreendedores, mas não só!

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Sobre o autor

Belén de Vicente

Belén de Vicente é fundadora e diretora geral da Medical Port, a porta de entrada para cuidados médicos em Portugal, para quem vem de outros países. Foi diretora do MBA Lisbon, contando com mais de 20 anos de experiência em... Ler Mais