Guilhem Bertholet, empreendedor francês e CEO na agência de Content Marketing invox.fr, ajuda-nos a perceber o que pode falhar quando constituímos uma sociedade e como deve ser feita a distribuição das participações.

Acabou de constituir uma sociedade. Os membros encontram-se com facilidade e já estão a trabalhar a toda a velocidade. A equipa será realmente muito forte a partir de agora! Parabéns! Os problemas vão começar. A vida em conjunto é, na verdade, muito mais difícil. E muitas vezes, o problema começa com a distribuição das participações no capital.

Quando encontro uma equipa de empresários pela primeira vez, é muito raro que não faça a pergunta fatídica que, aliás, qualquer business angel, banqueiro, investidor, etc. irá colocar-lhe um dia: quem toma as decisões?”, afirma Guilhem Bertholet no seu blog sobre empreendedorismo.

Atrás desta questão, esconde-se, de maneira pérfida, a repartição do capital, que os empreendedores tentam arrastar o mais possível, de forma errada. Na verdade, esta é uma discussão fundamental para a equipa e primordial para o projeto. Tal como a divisão das tarefas e as grandes regras para o trabalho conjunto, a distribuição das participações é uma etapa importante e estruturante.

Todos os cenários são possíveis …

Uma vez todos sentados à volta da mesa, há que repartir o bolo entre os parceiros. E não existe mais (nem menos) do que 100% para dividir, independentemente do seu número. O empreendedor francês admite que equacionou todas as possibilidades e partilha as que considera ser as principais:

O igualitário: todos na mesma linha, o que dá 50 – 50%, 33,3333333%, 25*4, etc. Quanto maior for o número de participantes nesta grande aventura, menor será a igualdade real. Tudo se baseará no jogo de alianças, quando tal acontece.

O autoritário suave: a equipa compreendeu que tinha que designar um líder e, portanto, reconhece uma legitimidade adicional a um dos membros do grupo. Geralmente, resulta num 49 – 51%, um 35 – 32,5 – 32,5% ou outro acordo que permita dar um peso extra a um dos parceiros. Novamente, isso não tem verdadeira importância, a não ser no primeiro caso (2 membros) e só para algumas decisões.

O verdadeiro autoritário: vai muito mais longe do que no caso anterior. Por exemplo, 60 – 40%, ou 50 – 25 – 25%. A ideia é dar uma prioridade e uma responsabilidade real ao autor do projeto. Se todos aceitarem este esquema, não haverá, geralmente, grande discussão para as decisões serem aceites (ou pelo menos tomadas).

O árbitro: válido para a associação de dois membros muito empenhados no projeto com uma pessoa exterior, em geral bastante neutra, que deve desempatar em caso de desacordo. Isso produz distribuições como 49,5 – 49,5 – 1%. Existe a variante “basquetebol” onde há dois árbitros, cada um escolhido por um dos dois parceiros principais. Ou a “patinagem de pares”, com um grupo de juízes, imparciais ou não. Ou o “ténis”, com dois sócios, um juiz importante (ou terceiro sócio minoritário) e uma série de pequenos juízes. Não, os apanha-bolas não têm aqui lugar.

Cada sociedade encontra as suas próprias regras

Todos os que colaboram para o site francês “la Brute”, espécie de cooperativa, são iguais, não há uma maioria para a tomada das decisões (são mais de 10, creio eu), e se quiserem vender as suas participações, é pelo valor nominal. “Pode funcionar, mas é muito rara tal configuração”, revela Guilhem Bertholet.

Embora a criatividade seja total para cada caso, há, no entanto, casos mais arriscados do que outros. “Apenas temos de ser capazes de explicar como fizemos a escolha da distribuição das participações e o porquê, sugere o empreendedor, enumerando as várias situações que podem ocorrer:

– Numerosos associados (3 ou mais), todos em igualdade

– Muito numerosos associados (5 ou mais)

– Associados “passivos” desde o início (3 primos, a mãe e o pai, a avó, os amigos, um professor, um ex-patrão…)

– Participação muito reduzida para os membros “ativos”

– Um associado “sozinho”, mas que tenha muitos empregados, ou que precise de competências muito diversificadas

Não se associar a qualquer pessoa

Outro erro no momento da distribuição de participações, especialmente nos primeiros tempos da empresa, é querer dar ações a toda a gente. Muitas vezes, a ideia é esta: Eu não tenho possibilidades de lhe pagar, então, dou-lhe ações. Sobretudo baseado no mal-entendido de que talvez a pessoa se envolva muito mais.

O mais frequente é fazer esta oferta a um programador, porque não temos os meios para pagar os 15 a 50 mil euros que o desenvolvimento que uma aplicação web exige. Aliás, oferecemos uma pequena parte do capital associada à promessa de melhor salário, quando o negócio for lançado. “Na minha opinião, é sempre um erro agir assim”, frisa, apontando como razões:

– O programador não se preocupa com o capital. Não é que não acredite no projeto, apenas não é essa a sua motivação, independentemente do valor (por maior que seja) que lhe dê da sua pequena parte. Ele quer ser pago, criar projetos divertidos e ter um local agradável para trabalhar, superar um desafio técnico e ter equipas para avançar mais depressa.

– O que tem para oferecer, diga lá, 5%? 10%? Que valor lhe dar, uma vez que quer um associado que não tome decisões… e, além disso, que não tenha necessariamente que ser ouvido quando quiser tomar decisões…

– O argumento financeiro de ” a empresa vai valer muito, e tudo isso…” não pega. A liquidez das unidades de participação de uma empresa em formação está longe de ser excelente… e a evolução demasiado imprevisível…

Em suma, não se associem senão com aqueles que têm o estofo e a vontade de se envolver no projeto.

Finalmente,  uma última dica do empreendedor francês: lembre-se de que mesmo 1% do capital é importante. “Não espalhe para a esquerda e para a direita, para agradar ou para pagar às pessoas que são apenas prestadores de serviço… Nunca é bom a longo prazo. Proteja verdadeiramente as suas unidades de participação. São um recurso valioso a que deve prestar a sua melhor atenção!”, conclui.

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