Como é que tudo joga no título longo deste escrito? Vou tentar tornar a estória longa, curta!

Desde o 25 de Abril de 1974 que se fala da reforma da Administração Pública (AP). Desde Secretarias de Estado a Unidades de Missão, tem havido de tudo para levar por diante um diagnóstico mais do que feito e … nada!

Um dos argumentos para levar por diante essa reforma é o de se implantar na AP uma gestão por objetivos.

Mas como implantar algo que é contrário ao ADN “Portuga”?

Há cerca de 20 anos, numa conferência em que também fui orador, um colega professor no INSEAD, José Fernando Santos, recordava o que se passou em Saltillo em 1986, durante a fase final do campeonato do mundo de futebol, onde os nossos jogadores ameaçaram fazer greve. Fomos eliminados na fase de grupos, regressamos a casa sem fama nem glória e desenvolveu-se um inquérito para saber quem fora responsável pela greve. Toda a gente foi interrogada, desde jogadores, a treinador, a médico, a roupeiro, a cozinheiro, a selecionador nacional, ao representante da Federação e … qual a conclusão? Não se encontrou O RESPONSÁVEL!

No seu sentido de humor fino, o José Fernando concluía nessa conferência: “Se algo de tão grave aconteceu e não se encontrou O RESPONSÁVEL, então Saltillo nunca existiu!!!

Este triste episódio retrata a realidade da AP portuguesa e a forma típica de atuação dos distintos Governos, onde nunca há responsáveis. Daí podermos concluir que a gestão por objetivos é de implementação impossível na AP portuguesa.

Porque é que se tem mostrado impossível? Peter Drucker, o percursor da gestão por objetivos, definia objetivo como:

  • Uma META a alcançar, quantificada;
  • Num determinado HORIZONTE TEMPORAL;
  • Com MEIOS/RECURSOS afetos pré-determinados;
  • Atribuída a UM RESPONSÁVEL.

Nada disto é possível na AP!!!

É pena. Pois se tal já tivesse acontecido, a receita para lidar com a tragédia de Pedrógão Grande seria:

  1. DE IMEDIATO – Sem esperar pelas conclusões das “n” Comissões de Inquérito que para aí pululam, criar uma Task Force interministerial, com PLENOS PODERES, para fazer um inventário rápido dos estragos, a vários níveis, e aproveitar as verbas da solidariedade nacional e do orçamento do Estado para começar, DE IMEDIATO, a reconstrução;
  2. Aproveitar o momentum para lançar reformas de fundo há muito diagnosticadas e sempre adiadas (desde logo aproveitar o estudo profundo feito pela COTEC sobre a problemática dos incêndios), de implementação rigorosa e fiscalizada por entidades credíveis imunes a interesse instalados de autarcas, indústria, partidos, caciques locais, doa a quem doer;
  3. Atender às zonas do país com características semelhantes às de Pedrogão Grande, logo em risco de que algo de idêntico possa acontecer nesta época estival, e agir preventivamente.

Infelizmente, olhando para o que se está a passar, com jogos de baixa política a acontecer e um Governo mais preocupado com a sua imagem do que a agir e a resolver os problemas, mais uma vez vamos ver a “banda passar” e, como dizem os Cubanos, NO PASA NADA…

Belo país de que tanto gosto, mas triste realidade…

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Sobre o autor

Vítor Sevilhano

Vitor Sevilhano é acionista e CEO da Escola Europeia de Coaching, tendo sido acionista maioritário e CEO do Laboratório da Formação, dedicado ao desenvolvimento de competências de gestão e consultoria. Foi diretor de RH e desenvolvimento organizacional da Portugal Telecom... Ler Mais