Março de 2000: as valorizações completamente irrealistas das chamadas dot.com, alimentadas pela combinação virtuosa de muita liquidez e o “hype” da “nova economia” têm o seu confronto com a realidade.Entre essa data e finais de 2002 um grande número de cotadas faliu e os mercados sofreram um ajuste brutal “back to reality”.

Setembro/ outubro de 2008: o hiper desenvolvimento de produtos financeiros associado ao irrealismo total do valor dos ativos imobiliários de todos as qualidades, sem ter em conta o risco e, mais uma vez alimentado por um elevado excedente de liquidez nos mercados financeiros tem também o seu encontro com a realidade.

Desta vez, com consequências nefastas no coração dos sistemas financeiros internacionais, que ainda hoje vivemos.

Muitas explicações já foram dadas para a causa do último crash dos mercados mas existe, a meu ver, um aspeto que nunca foi muito abordado. A questão é de saber porque, em menos de uma década, assistimos a dois “crashs” devastadores alimentados por razões muito semelhantes: excedentes de liquidez e erros crassos na avaliação dos ativos e na percepção dos riscos?

Para além das explicações associadas à natureza dos mercados, à tipologia de riscos, à ganância, à corrupção e muitas outras que têm sido aduzidas, julgo que existe um fenómeno associado ao processo de rotação dos recursos humanos que explicará, também, em parte, o que aconteceu.

De facto, em todas as áreas, mas com particular destaque nas instituições financeiras de maior dimensão, assistiu-se nas ultimas décadas a um processo incessante de reestruturação de recursos humanos com uma permanente substituição de pessoas experimentadas por “newcomers” recém saídos das universidades.

Esse fenómeno de injeção de sangue novo nas organizações é meritório e muito positivo mas, ao ser muitas vezes combinado com eliminação de recursos com experiência e calejados por crises anteriores, acaba por amputar muitas organizações desse capital único que é a acumulação de conhecimento através de um “mix” balanceado entre juventude e senioridade.

Torna-se, por isso, cada vez mais importante que as organizações saibam tirar proveito dessa combinação única entre experiência e o sangue novo da juventude. Sem a primeira os erros dos passado serão uma reincidência regular e inevitável e também é certo que, sem a renovação, as organizações estiolarão na sua capacidade de crescimento e inovação.

É assim meritória a inciativa recente de um grupo de empresários e gestores de criar um projeto para a existência de uma plataforma que permita o intercâmbio entre gestores e profissionais experientes com capacidade para acrescentar valor às organizações e empresas com necessidades de gente experimentada ainda que eventualmente numa base transitória ou parcial.

Vivemos numa época de transição para novos paradigmas e novas relações societárias e todos temos o desafio de saber encontrar soluções e novos equilíbrios que permitam aproveitar todas as fontes e recursos de conhecimento e experiência que as sociedades vão criando.

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Sobre o autor

Franquelim Alves

Franquelim Alves é Diretor-Geral da 3anglecapital, sociedade especializada em operações de M&A e serviços de “advisory” financeiro. Licenciado em economia, pelo ISEG, detém um MBA em Finanças pela Universidade Católica Portuguesa e o Advanced Management Program da Wharton School of... Ler Mais