A OutSystems trilhou com convicção e persistência o caminho que lhe permite agora ostentar o estatuto de unicórnio. Rui Pereira, cofundador e VP de Digital Transformation, falou ao Link to Leaders do percurso até atingir este patamar e do que ambiciona para a empresa que ajudou a fundar.

No mercado há 17 anos, a portuguesa OutSystems tornou-se, recentemente, no segundo projeto português a atingir o estatuto de unicórnio, ou seja com uma avaliação superior a mil milhões de dólares, ao conseguir uma ronda de investimento da KKR e da Goldman Sachs. A empresa de desenvolvimento de software entrou num novo patamar e prepara-se, com o profissionalismo de sempre, para novos desafios.

O que foi determinante para que a OutSystems seja hoje o segundo unicórnio português. Quais foram as etapas fundamentais para chegarem este patamar?
Bem, para já, pela idade. A OutSystems tem 17 anos e foi preciso muita persistência durante muitos anos. Talvez até 2011, 2012 ninguém percebia o valor daquilo que nós fazíamos e, por inúmeras vezes, podíamos ter desistido, tomando a opção de não continuar porque, apesar de sempre termos tido até essa altura crescimentos muito moderados, estávamos a crescer, mas nada de especial.

Mas nós acreditávamos mesmo tínhamos aqui algo de diferente. Sim, demorou uns anos até o mercado olhar para aquilo que estávamos a fazer e dizer “isto faz sentido”. O mercado tem sempre razão, por isso na altura não havia a necessidade e depois houve a necessidade.

Vieram um bocadinho antes do tempo, é isso?
Muito antes do tempo. Se tivéssemos sido criados fora de Portugal, tipicamente Inglaterra ou Estados Unidos, não tínhamos sido tão persistentes ou alguém nessa situação não teria sido tão persistente nem aguentado tantos anos sem aquilo que é a perspetiva de uma start-up de alto crescimento.
E por isso este caminho foi trilhado, numa primeira parte, com persistência e com a convicção de que aquilo que estávamos a fazer tinha sentido, era inevitável. Foi um período de “evangelização”, em que estávamos a educar o mercado para as necessidades e para o benefício da nossa proposta de valor, até que entrámos numa segunda fase, em que o mercado começou a valorizar. Por isso, deixámos de trabalhar no lado da persistência e começámos a trabalhar no lado de acelerar e criar uma empresa cada vez mais escalável, sempre em cima de uma base de clientes muito contente. Porque hoje em dia, e talvez seja um caso de alguma raridade, a nossa base de clientes, e já vamos para cima de mil, é uma base de clientes extremamente feliz com o produto e como o utiliza para tirar partido do seu negócio. Temos uma empresa que está a crescer muito porque tem clientes extremamente felizes, que vão dizendo a outros clientes, aos colaboradores, ao mercado…o software é utilizado de uma maneira boa, de uma maneira que as empresas tirem partido. Se não tirarem partido mudam para o próximo e por isso a persistência em construir uma empresa alicerçada numa cultura incrivelmente diferente em valores.

Quando surgimos havia um contraste grande com os venders tradicionais de software porque éramos muito mais transparentes, muito mais éticos, até do ponto de vista de políticas comerciais, e isso levou a uma base de clientes muito contente e fidelizada e que quer mais da OutSystems.

Acho que outro ingrediente fundamental aqui é a qualidade das pessoas que sempre recrutámos.

Então esses foram os ingredientes que fizeram com que tivessem conseguido chegar a este nível…
Há mais alguns, mas eu diria que estes são o topo. Acho que outro ingrediente fundamental aqui é a qualidade das pessoas que sempre recrutámos. Para nós aceder às melhores pessoas no mundo inteiro, não só Portugal, é uma vantagem competitiva.Todas as pessoas que estão nesta casa passam por processos de recrutamento muito sérios, não só porque tem de se enquadrar na cultura da empresa, mas pela capacidade intelectual e de ação no seu domínio. Procuramos os melhores do mundo.

Por isso, os colaboradores que a OutSystems tem foram todos criados e recrutados dessa maneira e é uma vantagem competitiva incrível para a empresa. A cultura que há nesta casa e que é famosa (enfim, se calhar estou a ser um bocadinho ambicioso), é assente num pequeno livro, muito popular, que a OutSystems tem disponível publicamente e onde constam as regras da cultura desta empresa.

Seguimo-las muito à letra e preservamos esta cultura que ajuda todos os colaboradores e todo o pensamento coletivo da empresa a interagir com clientes, com parceiros, e até internamente. É uma maneira muito diferente das outras e por isso achamos que também é um fator crítico muito competitivo, hoje em dia, no mercado. Traz rigor, qualidade e a capacidade de competir com os melhores fora de Portugal.

Atualmente têm uma equipa de quantas pessoas e de que nacionalidades?
Somos cerca de 800 pessoas. Temos escritórios em vários locais do mundo e nesses escritórios são contratadas pessoas locais, o que não quer dizer que não sejam oriundas de outros países.

Mas há rotação de equipas entre os vários escritórios, por exemplo?
Há portugueses em Singapura, nos Estados Unidos, em Londres, na Holanda, no Dubai…Quando pedem transferência para esses países, e desde que faça sentido, vão.  Agora, cada país tem uma gestão local. Para nós esta mistura é boa, mas não é nossa intenção pôr os portugueses à frente destes países. Isso era antigamente, agora já não. Por isso, queremos contratar pessoas disponíveis nos vários mercados.

Nós continuamos a trilhar o nosso caminho que já, era antes deste investimento, muito obstinado em fazer crescer a empresa fundamentalmente em todas as geografias…

Que responsabilidades acrescidas têm agora com esta chegada ao universo muito seleto dos unicórnios. O que é que isto acarreta?
Acho que é uma oportunidade. Nós continuamos a trilhar o nosso caminho que já era, antes deste investimento, muito obstinado em fazer crescer a empresa fundamentalmente em todas as geografias, mas, por exemplo, nos Estados Unidos, em particular. O que este investimento traz é a oportunidade de acelerar este caminho, este processo. E traz oportunidades, fundamentalmente, em três áreas grandes.

Há uma oportunidade de redireccionar esse investimento para melhorar a vantagem competitiva que hoje temos através do produto, através da nossa plataforma. Por isso, criar mais produto e ampliar a nossa vantagem competitiva ao nível tecnológico passa muito por investimento em inteligência artificial.

A segunda área de investimento tem a haver com o apoio a clientes e parceiros. Os clientes que adotarem a nossa tecnologia têm de ser apoiados para tirar o máximo partido dessa tecnologia, de modo a que essa tecnologia possa realmente trazer benefícios aos negócios dos clientes.

Uma parte deste investimento novo vem criar mais competências e capacidades para nós apoiarmos mais clientes e mais parceiros tecnológicos que, por sua vez, vão ajudar os nossos clientes. É aquilo a que chamamos de customer success. Por isso, uma parte desse investimento irá para fortalecer as competências que a nossa área de customer success tem e isso é muito interessante porque nos permite acelerar o valor que os clientes tiram da nossa tecnologia.

O terceiro é continuar, mas agora ainda mais rápido, o caminho de conquistar mais clientes em todas as geografias. Por isso, este investimento vai para contratar mais vendedores, ter mais competências em marketing, para chegar a mais gente, a mais empresas e, assim, crescermos mais rápido do que agora.

São estas as três áreas nas quais vamos utilizar este último investimento e estes investimentos criam, naturalmente, uma expetativa de maior e mais rápido crescimento e mais abrangência mundial.

É essa a expetativa para criarmos uma empresa realmente muito grande no mundo, mais rapidamente. Este investimento ter muito a ver com acelerarmos o nosso crescimento para que quando chegar a altura, e se estabelecer quem são os grandes players desta área, sermos o #1 convictos.

Os territórios mais importantes para nós são os Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Esses são os prioritários.

No vosso plano de expansão geográfica, qual é a área que está mais no vosso foco? Há algum mercado que seja especialmente apetecível para fazer esse plano de expansão.
Sim, há. Estamos em três geografias, Ásia, Europa e Estados Unidos. E, em cada uma destas grandes geografias, temos vários territórios ou países. Há uns maiores que outros, há uns mais importantes que outros, há uns em que temos escritórios e outros em que não temos. Os territórios mais importantes para nós são os Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Esses são os prioritários. Não quer dizer que os outros não sejam importantíssimos, mas é para aqui que há mais investimento. São simplesmente as regiões mais importantes, neste momento, em termos de software.

Um dos problemas habitualmente apontados aos unicórnios é o facto de realmente terem grandes prejuízos nos resultados que apresentam. Como olha para esta questão, tem razão de ser ou não?
Isso tem razão de ser. A razão é porque há volumes massivos de investimento que ultrapassam largamente as receitas que trazem é precisamente por causa disso, é precisamente porque quando há um espaço novo, e cada um destes unicórnios, normalmente, está atrás de um espaço novo, por isso se torna unicórnio, por que é um espaço onde há suficientes oportunidades para crescer.

É preciso conquistar mais rapidamente quota de mercado nesse espaço e acelerar a expansão, e o crescimento das empresas faz-se através de muito dinheiro, não se faz a contar tostões. Faz-se investindo rapidamente, com o intuito de que mais à frente – e porque essas empresas ficam dominantes daquele espaço – há-de haver um momento em que o retorno começa a vir e vai-se compensando os investidores. Por isso, é natural que aconteça. Agora, há investimentos absolutamente massivos, que as pessoas nem sequer compreendem muito bem porque o fazem, e há investimentos menos massivos. Por isso, para mim faz sentido empresas que realmente conseguem investimentos gigantescos muito acima das suas receitas que pretende-se com isso conquistar rapidamente o seu mercado, bloqueando desta forma o acesso aos mercados pelos concorrentes. Só depois entram os retornos. O caso da OutSystems também tem o seu nível de investimento, no entanto nós somos muito mais racionais.

O nosso desafio é mantermo-nos fiéis e absolutamente focados exclusivamente na empresa e no crescimento e não ficar distraídos com o resto.

Acha que agora vão estar todos de olho na OutSystems, desde que foi anunciado que eram um unicórnio? Porque normalmente é isso que acontece, não é? Isso pode ter alguma implicação, alguma consequência?
Há sempre um barulho, um ruído extra! O nosso desafio é mantermo-nos fiéis e absolutamente focados exclusivamente na empresa e no crescimento e não ficar distraídos com o resto. Eventualmente, poderão haver empresas que possam ficar distraídas e o negócio depois perde. Mas eu acho que a equipa de gestão da OutSystems é muito forte e tem bem os pés assentes na terra a esse respeito. Por isso, não me parece que possamos ficar distraídos com esse estatuto que, na verdade, para o dia-a-dia não é relevante. Há expetativas que vêm com o unicórnio.

E quais são?
É uma expetativa de ser o dominante no espaço onde atua e de não ser o número dois ou três. É uma expetativa de crescer. Por isso, está-se à espera que passado uns anos, neste caso a OutSystems e os unicórnios, sejam maiores do que são agora. E há a expetativa dos investidores de um retorno grande. Não quer dizer que não haja antes de se ser unicórnio, mas pelo menos fica-se sinalizado.

E isso já aconteceu da parte dos investidores? Já houve alguma aproximação?
Não, os investidores também são, regra geral (os nossos pelo menos), de muito bom senso. Por isso, investiram, acreditam na empresa, no espaço, na possibilidade futura que a empresa oferece e não têm intervido para além do que é esperado de um investidor. O trabalho agora está na equipa de gestão, não está nos acionistas. Os acionistas fizeram o trabalho deles que foi investir. Agora têm de esperar.

Em todo este processo, quais foram os grandes desafios que enfrentaram no acordo com os fundos norte-americanos que fecharam estes primeiros meses de 2018?
Não houve assim grandes desafios porque foi um processo normal, que a certa altura foi decidido fazer pelos acionistas atuais. Todos os processos de novos investimentos são muito intensivos do ponto de vista de perceber como está a companhia do ponto de vista financeiro, legal e de compliance. E depois foi tranquilo porque os novos accionistas contactaram os nossos clientes e perceberam que eles estavam muito contentes. Nunca tinham visto nada com esta dimensão. Por isso, foi relativamente fácil a decisão deles em investir numa empresa que cresce muito, que tem clientes felizes e que tem, do ponto de vista de compliance e financeiro, a casa arrumada.

Hoje em dia, a inteligência artificial está presente em todo o lado e, por isso, o que pretendemos é criar toda uma área de research à volta da IA …

Lançaram o Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Outsystems. Quanto representa este centro no orçamento total de Investigação & Desenvolvimento do grupo e quais os objetivos?
Os objetivos do Centro de Inteligência Artificial (IA) prendem-se com a estratégia da Outsystems em avançar e progredir cada vez mais com a sua plataforma. Hoje em dia, a inteligência artificial está presente em todo o lado e, por isso, o que pretendemos é criar toda uma área de research à volta da IA para assistir o desenvolvimento de software e aplicá-lo à plataforma. Por isso, este centro também representa a materialização de um projeto que chamamos de Turing que é precisamente a visão da Outsystems nos próximos anos sobre como é que a IA vai ser introduzida na nossa tecnologia atual e, consequentemente, beneficiar quem através da nossa plataforma cria aplicações.

O investimento na área de IA é importante. Há um investimento enorme do ponto de vista estratégico, porque acreditamos que é realmente uma peça cada vez mais importante e que vai ser central no nosso futuro. Por isso não é um investimento pontual, é um investimento continuado. 20% do investimento em Research & Development vai ser gradualmente dedicado a esta área de conta de artificial intelligence. Mais uma vez, IA no sentido de facilitar, simplificar e assistir os programadores que criam aplicações em OutSystems.

Há pouco falou no projecto Turing, lançado em fevereiro. Qual é o balanço que faz? 
É relativamente recente porque com esse projecto Turing demos o pontapé de saída neste tema. Hoje, temos a equipa praticamente fechada, acima de tudo temos o líder que comanda esta área. E o projecto Turing é precisamente isso, é uma visão de como é que a IA pode intercetar com a plataforma e fornecer algo que nós não temos hoje, do ponto de vista de assistência aos nossos programadores, aos colaboradores que utilizam a OutSystems. Há há um espaço ainda, um período de research, de tentar perceber qual é a melhor forma de utilizar a IA com resultados já de relativo curto prazo, mas isto é um projecto que contamos apresentar no NextStep de Boston e de Amesterdão, em Outubro.
Já há uns primeiros esboços, do ponto de vista de protótipos e de proof of concepts de como é que  a IA poderá funcionar com a tecnologia OutSystems. A partir daí, toda a iniciativa Turing vai evoluindo e contamos que em 2019 possamos incorporar, de forma nativa, dentro da nossa tecnologia já todas estas capacidades que vão facilitar a vida aos programadores.

O negócio de low code está a disparar um bocadinho por todo o mundo. Quais os grandes desafios da transformação digital e da inteligência artificial?
Para já, de facto, nota-se com evidências claras nas três geografias – nas Américas, nos Estados Unidos principalmente, na Europa e na Ásia (na Ásia Pacífico) –  uma procura gradualmente cada vez maior de empresas a quererem olhar para o low code enquanto uma componente da sua estratégia de transformação digital e essas transformações digitais passam tipicamente por dois temas. O primeiro tema é o repensar e o redesenhar aquilo que se costuma chamar de Customer Journey. Todos os touch points com os clientes, a forma como estes interagem com as marcas hoje em dia… cada vez mais o caminho passa por criar formas de interacção digitais com os clientes e, ao mesmo tempo, fazer a ponte com o mundo físico que muitos destes negócios têm. O que o low code está a fazer nestas organizações é precisamente, de uma maneira muito rápida, ser capaz de criar todas estas aplicações, todas as interfaces que derivam destas transformações digitais e deste redesenho, desta jornada do cliente.

Por outro lado, há outro elemento fundamental que se está a observar nas transformações digitais que é as empresas que querem otimizar os seus processos no backoffice, processos longos, muitos em papel ou com grande intervenção humana. Por isso, o redesenho desses processos e a sua otimização, para que possam fazer par com aquilo que está a acontecer no front office, é outra área fundamental. E nós, também nesta área, o que estamos a fazer é automatizar processos que não estavam automatizados, é ligar estes processos àquilo que tem de acontecer com os clientes nos touch points e depois dar visões analíticas do que se está a passar na organização a quem precisa deste tipo de dados.

Estes são elementos chave que estamos a ver hoje nas soluções digitais e o papel do low code, e da OutSystems em particular, é de criar rapidamente uma colecção grande de novas aplicações junto dos clientes e alguma automação dos processos de back end, de forma muito rápida, para que se possa evoluir à medida que estas coisas vão sendo modificadas. Hoje em dia, acreditamos que não há outra hipótese para fazer este tipo de transformações no curto espaço de tempo do que uma tecnologia como a da Outsystems e o espaço de low code. E por isso é que estamos a assistir a uma procura muito elevada, basicamente nas três geografias

A Outsystem conta com clientes em todo o mundo. Qual o mercado com mais peso na faturação da empresa?
É o mercado europeu. Sendo que o mercado absolutamente chave, crucial, o mercado número um para a Outsystems e que está a crescer a grande velocidade (e achamos que, provavelmente, já no próximo ano terá a liderança em relação às restantes geografias), é o mercado americano. Esse mercado sempre foi uma aposta da Outsystems e agora, com o novo investimento, continuará a ser de forma mais intensiva.

Este prémio é uma espécie de “Óscares” do software. É simplesmente uma validação de que o nosso produto tem de facto uma liderança tecnológica muito significativa…

Ganharam recentemente, e pela terceira vez consecutiva, um prémio da SIIA Codie Awards. Foram considerados a “Melhor Solução para Desenvolvimento Mobile em 2018”. O que representa este prémio para a Outsystems?
Este prémio é uma espécie de “Óscares” do software. É simplesmente uma validação de que o nosso produto tem de facto uma liderança tecnológica muito significativa e, em particular, toda a área que se refere às capacidades de fazer aplicações para telemóveis, para tablets.
Este prémio é importante, mas ainda muito recentemente tivemos um outro evento igualmente importante: o dos Quadrante Mágicos, da Gartner, que é o analista de IT mais importante desta área. Tudo o que a Gartner diz é seguido com bastante atenção pelas grandes empresas do mundo e há algumas semanas lançaram um quadrante mágico que visa colocar os diversos players do mercado no espaço de plataformas que criam aplicações móveis, o chamado quadrante mágico MADP – Mobile Activation Development Platforms.
Nós estamos significativamente destacados. Ficámos em número um de toda uma coleção de concorrentes e no quadrante particular que é a área dos visionários e que, ao mesmo tempo, tem uma capacidade de execução no mercado muito alta. É nesse quadrante que está a Outsystems, claramente destacada e com alguma distância os restantes dois ou três concorrentes. Não é um prémio, mas é verdadeiramente uma validação da nossa capacidade de liderança nesta altura e neste espaço.

Que concessões teve de fazer desde que está na Outsystems?
A Outsystems é uma empresa já muito longa e que hoje já não está na categoria das start-ups. Quem está aqui há 17 anos, como fundador, significa que tem de ter uma capacidade de endurance muito grande. Isto é uma maratona diária.Tivemos um percurso muito difícil, no sentido em que aquilo que estávamos a desenvolver não era compreendido pelo mercado. Por isso, tínhamos uma gestão diária de receber “nãos” dos potenciais clientes e essa resiliência, que nos assistiu durante muitos anos, essa capacidade de resistir e de acreditar que estávamos a fazer algo verdadeiramente diferente, foi muito importante para chegarmos onde chegámos.
Na altura estávamos a ver que todos os projectos de desenvolvimento de software demoravam imenso tempo, as garantias de qualidade e de sucesso desses processos eram baixas e, por isso, nós trazíamos a capacidade de fazer os projectos de software em versão boa, rápida, com uma qualidade absolutamente acima do que era na altura o standard.

Por isso, quando se junta uma proposta de valor com uma qualidade altíssima, com simplicidade de manutenção e que é criada de forma ultra-rápida (estamos a falar de 10 vezes mais do que a alternativa), sabíamos que isto tinha de ser apreciado em algum momento. E assim foi. Este último investimento é uma prova clara de que não só o mercado low code é um espaço útil, interessante, como a própria empresa Outsystems, devido a esse investimento, recebeu a validação de duas empresas absolutamente gigantescas no mercado financeiro que são a Goldman Sachs e a KKR.

As empresas portuguesas já olham para o negócio de low code de outra forma?
Já. Até confesso que foram os primeiros a olhar de outra forma porque foram 17 anos no mercado português e o mercado nacional, do ponto de vista de low code, já está a caminhar para uma fase de maturidade grande. Reconhece o valor do low code e há muitas empresas de grande dimensão em Portugal já completamente suportadas em cima da OutSystems, nas suas aplicações core e críticas para a sua missão. Por isso, em Portugal, acabaram por aceitar muito antes de qualquer outra geografia.

Onde nós queremos estar dentro de, talvez não seja 10 anos, porque isso é um bocadinho distante, mas dentro de 5 anos, é sermos uma empresa gigante no mundo.

Como vê a Outsystems daqui a 10 anos?
Não sei. Temos uma visão positiva. Onde nós queremos estar dentro de, talvez não seja 10 anos, porque isso é um bocadinho distante, mas dentro de 5 anos, é sermos uma empresa gigante no mundo. Uma empresa verdadeiramente grande. Se hoje somos valorizados acima de 1 bilião de dólares, dentro de alguns anos, queremos ser uma empresa que – porque cresceu e satisfez uma necessidade real do mercado das empresas – possa ser avaliada e valorizada pelo mercado, pelos seus acionistas, em alguns biliões. E, por isso, essa valorização não é um objetivo, é uma recompensa do que queremos fazer no mercado em termos de liderança tecnológica. Cada vez mais satisfazer os problemas das empresas que têm de criar os seus sistemas de informação à volta das transformações digitais, fazê-lo de modo diferente, muito mais rápido, mais simples, mais barato e tentar, desta forma, criar um valor tão grande que continue a projetar a OutSystems para uma valorização enquanto recompensa deste crescimento e deste ajustar ao mercado.

Quem acha que será a próxima empresa portuguesa a ostentar o estatuto de unicórnio?
A resposta não é imediata porque há muitos fatores. No entanto, acredito que a Feedzai vai no bom caminho para atingir esse estatuto. É uma empresa que admiramos muito, que também tem como investidor, um dos nossos investidores, a Armilar. E por isso achamos que tem uma liderança muito sólida. Agora se vai atingir… Há muitos fatores para chegar a este estatuto. Acho que não ficarei surpreendido se fosse a Feedzai.

Como estão os números da Outsystems?
Acabámos de publicar os resultados do 2.º trimestre de 2018 e foram extraordinários. Comparado com o ano passado, estamos a crescer 63% em termos de receitas anuais recorrentes, capturámos no trimestre passado 96 novos clientes, o que nos dá um total de aproximadamente mil clientes mundiais.

Quais os de maior peso? Os Estados Unidos?
O mercado dos Estados Unidos correu extraordinariamente bem no trimestre passado. Continuamos a ampliar a rede de parceiros, o que cada vez mais é um indicador de que quem é parceiro da OutSystems está com o seu negócio cada vez melhor, porque o número de negócios que esses parceiros trouxeram cresceu 75%. Portanto, isto cada vez é também um melhor negócio para a nossa rede de parceiros. Acrescentámos 15 mil novos programadores/developers à rede, à comunidade OutSystems, que hoje totaliza aproximadamente 140 mil developers no mundo inteiro que ajudam os clientes e os parceiros a fazer estas aplicações.
Atingimos 800 empregados globais, acrescentámos 100 desses 800 só no segundo trimestre. Por isso, de abril a junho admitimos 100 pessoas e lançámos dois produtos, dois elementos da plataforma, um produto que se chama Outsystems Insights e outro que se chama Outsystems Sentry.

O objetivo do primeiro é poder compreender como se pode otimizar as aplicações do ponto de vista de negócio. Por isso, quando se cria uma aplicação e se lança para uma base de utilizadores muito elevada, o que toda a gente  gostaria de ter era o feedback desses utilizadores e poder melhorar a aplicação. Ora foi precisamente isso que fizemos. Criámos uma maneira de conseguir capturar esse feedback dos utilizadores e poder fornecer à empresa esse feedback de forma estruturada o que lhe permite dirigir os seus investimentos para determinadas aplicações ou determinadas áreas e assim melhorar cada vez mais o produto. O Insights é precisamente essa capacidade analítica de melhorar de forma continuada essas aplicações.

O Sentry é o resultado do nosso investimento na área de segurança, um tema muito importante para nós. O Sentry é uma opção da Outsystems para todos os clientes que querem uma segurança extra tendo em conta as suas necessidades de compliance e de privacidade de data. Não só querem a segurança base que a tecnologia da Outsystems já fornecia, mas estender para outros níveis de segurança que lhes permite gerir o risco e ficar muito mais imunes a ataques. Isto é muito importante e estes dois produtos acabaram por ter uma adoção muito rápida pela base de clientes.

Quanto é que representa em termos de investimento da empresa no lançamento destes dois produtos?
Nós não temos esse break down. Mas assim que lançámos o Outsystems Insights, na fase que chamamos de early adopter programs (EAP), tivemos cerca de 50 candidaturas para instalar e testar o produto, o que foi incrível. Nota-se que os clientes estão desejosos por compreender como podem otimizar todo o parque de aplicações que foi produzido com a Outsystems.

E os valores também foram bons.. estava à espera destes valores?
Estamos a crescer a uma velocidade muito rápida e acho que temos a capacidade de crescer ainda mais rápido porque isto é uma bola de neve. Ou seja, o mercado é cada vez mais maduro, há mais empresas a pedir soluções, nós estamos cada vez mais destacados da concorrência e tivemos agora um evento, que foi a compra de um dos nossos concorrentes pela Siemens, e isso é também uma validação do mercado low code através desta aquisição. E por isso, o mercado cresce, pede este tipo de soluções, e acreditamos que, provavelmente, vamos ser capazes de crescer bem mais rápido do que os 63% que fizemos no segundo trimestre.

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