Nos últimos meses foram publicados dois rankings importantes que revelam qual o posicionamento de Portugal relativamente à sua capacidade de atrair, desenvolver e reter talento.

No Global Talent Competitiveness Index, publicado pelo World Economic Forum, Portugal aparece na 28.ª posição mundial, 18.ª na Europa. Já no IMD World Talent ranking aparece em 17.º, com uma subida de sete posições relativamente ao ano anterior.

Em termos globais podemos dizer que são excelentes notícias para Portugal. Mas mais importante do que olhar para a posição no ranking, é importante perceber o que nos permitiu chegar aqui. Um dos aspectos que sai claramente valorizado é a qualidade da Educação, e isso é algo que nos deve deixar a todos muito orgulhosos! Contudo, nem tudo são boas notícias dado que, apesar do ponto de partida ser bom, a formação em contexto laboral não acompanha a qualidade da Educação.

Paralelamente, as chefias continuam a ter dificuldade em delegar e, apesar da participação das mulheres na vida ativa ser um fator valorizado, o facto de não lhes serem dadas oportunidades de liderança é algo que penaliza a posição de Portugal.

Olhando para estes dados podemos concluir que, por cada tendência positiva, estamos perante uma contra-tendência que deve merecer a nossa atenção. E neste contexto gostaria de me focar num aspecto que me parece fulcral para que as organizações possam ter sucesso no futuro. Organizações que não tenham a capacidade de se reinventar, criando espaço para o empreendedorismo, estão condenadas ao fracasso.

Já não basta atrair os melhores. A par da atração é importante criar uma cultura em que as pessoas continuem a desenvolver-se, através da criação de um ecossistema que promova e valorize a aprendizagem e o desenvolvimento do trabalho em rede. Uma cultura em que cada vez se dê mais espaço a equipas que se auto-regulam, promovendo a integração de pessoas diversas, que tragam uma maior variedade de pensamento à discussão.

“We believe that when the right talent meets the right opportunity in a company with
the right philosophy, amazing transformation can happen”. Reid Hoffman

Paralelamente, as empresas têm que entender que a velocidade traz enormes desafios à atualização de conhecimentos, pelo que a agenda de formação não pode ser vista à margem do negócio. A formação tem que ser vista como uma atividade base dentro do negócio, não podendo ser aquela em que se desinveste em anos de retenção de custos. Ainda assim, há a salientar que a aprendizagem contínua vai muito além do conceito de formação tradicional e, a par de um plano de formação da empresa, deverá ser estimulada.

No futuro será expectável que as empresas criem sistemas de trabalho flexíveis que permitam aos seus colaboradores trabalhar em projetos de empreendedorismo, sejam eles projetos para a empresa, sejam projetos próprios. Será também desejável que, dentro do conceito de trabalho, as pessoas tenham períodos de tempo dedicado a self-learning .
Paralelamente, acredito que o conceito de sabática, passe a estar cada vez mais presente nas  organizações. A necessidade de parar para estudar, viajar, dedicar-me a um projecto de voluntariado, vai ser cada vez mais uma realidade. E sim, tudo isso é formação ao longo da vida!

“Formal education will make you a living; self-education will make you a fortune”. Jim Rohn

Vida essa que é que cada vez mais longa, e que forçará as pessoas a serem empreendedores das suas próprias vidas. Consequentemente, o desenvolvimento de competências de empreendorismo deixará de ser uma opção e passará a ser regra.

Quanto ao papel da Educação formal, o sistema terá também ele que se reinventar, se quer continuar a ser relevante. E neste contexto não serão apenas os jovens e as crianças que serão os motores dessa mudança. Seremos todos nós! Porque aquilo que o futuro trará será a necessidade de sermos cada vez mais flexíveis, tendo a capacidade para desaprender e voltar a aprender, por forma a termos várias profissões!

E quanto à nossa posição em rankings de atração, desenvolvimento e retenção de talentos, acredito que só será sustentável se as empresas deixarem de ver o empreendorismo como uma competência externa, fomentando o seu desenvolvimento internamente e sendo parceiros de um sistema mais alargado.

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Sobre o autor

Anabela Possidónio

Anabela Possidónio é Integral Coach, certificada pela ICF. Entre 2013 e 2018 foi diretora executiva do The Lisbon MBA Catolica|Nova, tendo contribuído para o processo de internacionalização do melhor MBA de Portugal, considerado pelo Financial Times o melhor em International... Ler Mais