Políticos, gurus de motivação, ‘coaches’ e bloggers – todos nos mandam sair da nossa zona de conforto. Eu acho isso muito bem.

A nossa zona de conforto é um sítio seguro. Mas não temos muito para contar se nos fecharmos em sítios seguros. E se há alguma coisa de valor que todos nós podemos deixar aos outros é uma boa história. Mas se quisermos sair da nossa zona de conforto, para onde é que vamos e como é que sabemos que lá chegamos?

Para mim, uma boa zona de desconforto tem duas caraterísticas.
A primeira é que na nossa zona de desconforto estamos no limite da nossa competência. O limite da nossa competência é quando somos o suficientemente competentes para aprender e melhorar, mas não suficientemente competentes para fazer as coisas bem.

A segunda é que na nossa zona de desconforto atingimos o pico da nossa motivação. O pico da nossa motivação é quando estamos dispostos a sofrer para fazer uma tarefa.

Eu passo uma grande parte do meu tempo de trabalho e do meu tempo pessoal em duas zonas de desconforto. A minha zona de desconforto profissional é a escrita científica. Muitos dos meus colegas de doutoramento no MIT conseguem publicar com regularidade artigos científicos em revistas de jeito. E são reconhecidos por isso. Eu não. Cada novo artigo é um desafio difícil. Uma nova montanha para escalar, cheia de armadilhas. Consigo publicar nas mesmas revistas que os meus colegas, mas não tantas vezes como eles. Quando escrevo artigos científicos ao mais alto nível estou no limite da minha competência. Consigo chegar lá, mas cada tentativa é uma luta muito dura.

A minha zona de desconforto pessoal é o taekwondo, uma arte marcial coreana que eu prático há seis anos. Todos os colegas que começaram comigo já chegaram ao cinto preto. A mim ainda me faltam pelo menos dois anos. Tenho que treinar horas e horas em casa, para aprender pontapés que os meus colegas aprendem em 20 minutos. Atrapalho-me nos treinos. Às vezes corre mal. As vezes saio triste dos treinos. Os momentos de felicidade e realização acontecem quando consigo fazer um pontapé que demorou muito tempo a aprender.

Nas minhas zonas de desconforto, não sou feliz. O fracasso é demasiado frequente para isso. Mas estou cheio da energia que vem da motivação. E isso para mim é mais importante do que ser feliz.

O tempo que passo na minha zona de desconforto ensinou-me o quão importante é ter uma liderança humana. A zona de conforto é um sítio de aprendizagem e crescimento, mas também um sítio de fracasso recorrente e de dúvida interior. Por isso, liderar pessoas que trabalham na sua zona de desconforto implica elevar os outros e o seu esforço. Senão estamos a contribuir para que a zona de desconforto do outros se torne uma experiência destrutiva.

Onde é a zona de desconforto? É onde sofremos para crescer. É onde somos  líderes virados mais para os outros que para nós mesmos.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais