As notícias falsas têm sido título de jornal desde as eleições presidenciais norte-americanas, mas não foi aí que começaram. Já tinham sido previamente definidas na Wikipedia como “paródias apresentadas na forma de jornalismo tradicional e chamadas de sátira devido ao seu conteúdo”, mas, com a prevalência das redes sociais, como o Facebook, e a democratização da palavra, as notícias falsas assumiram um teor mais perverso.

Notícias falsas podem aparecer como tentativa de fraude, propaganda e desinformação, com vista a aumentar tráfego web para a página, vindo das redes sociais. É diferente da sátira noticiosa, porque quem o faz pretende enganar e lucrar com os leitores que acreditam que a história é verídica ou influenciar leitores mais suscetíveis.

Este último motivo foi considerado como tendo tido uma grande influência nos votantes americanos, tendo as notícias falsas sobre Hilary Clinton sido consideradas por algumas fontes como tendo origem em nações externas (nomeadamente a Rússia).

O Facebook e outros sites semelhantes defenderam-se com o argumento de que não são responsáveis pelos comentários públicos nos seus sites e não devem ser responsáveis por censurar conteúdo de qualquer espécie, mas o CEO Mark Zuckerberg foi forçado a admitir que o Facebook “tem trabalhado na questão da informação falsa desde há muito tempo”, salientando que este problema é complexo, quer tecnicamente, quer filosoficamente.

As telecomunicações têm tido o mesmo desafio ao longo dos anos, ao tentarem distinguir quem, nas suas redes, pretende cometer fraudes, de quem simplesmente teve um padrão de chamadas invulgar. Quem comete fraude, tradicionalmente, concentra-se em produtos de alto valor, como chamadas internacionais e números de valor acrescentado, usando várias técnicas, muitas das quais podem ser reconhecidas desde cedo por técnicas modernas de gestão de fraude.

Quem visa enganar as telecoms no futuro já não se vai preocupar com chamadas internacionais, uma vez que estas foram substituídas por aplicações de chamadas grátis, como o Messenger, WhatsApp e Skype. Os números de valor acrescentado foram largamente substituídos por aplicações e acesso a websites, via navegadores online em smartphone. Mas mesmo o melhor sistema de deteção, não importa o quão sofisticado, deteta as fraudes através da comparação com padrões de fraudes passadas e comportamento anormal, sendo os novos métodos de atuação o seu calcanhar de Aquiles.

Em muitos casos, tal como com as notícias falsas, a intervenção e juízo humano são necessários para avaliar a situação. E tal como nas notícias falsas, em breve teremos sistemas que combinam experiência anterior (machine learning) com habilidades e juízos cognitivos (inteligência artificial).

As máquinas vão, eventualmente, começar a pensar como os autores de fraude e talvez até simular os próximos métodos de fraude, antes deles acontecerem. Temos equipas que já tentam determinar os sentimentos das pessoas e a sua disposição, através da análise das suas atividades nas redes sociais. Se estes sentimentos e disposições estão ligados às atividades dessas pessoas fora das redes sociais, deveremos conseguir construir uma biblioteca de padrões que permitam identificar pessoas prestes a cometer fraudes, antes delas agirem. Parece assustador?

Sim, mas isto pode ser a única maneira de conseguirmos proteger os nossos negócios de ataques no futuro, porque quem comete fraudes também vai evoluir e passar a usar máquinas, para pensar nas próximas maneiras de vencer o sistema. É muito provável que fraude instigada por máquinas, já visível nas botnets e hacking de cartões de crédito e outros dados pessoais, se torne mais comum e fácil de fazer.

As máquinas podem vir a transferir fundos para si mesmas, ao mesmo tempo que outras máquinas as irão policiar – cada vez mais assustador, certo? Logo, se as máquinas irão ser suficientemente inteligentes para prever fraudes, também serão suficientemente inteligentes para as cometer. E esta é a razão pela qual, provavelmente, terá de haver intervenção humana algures, tal como no desafio de detetar as notícias falsas.

Esperam-nos tempos interessantes.

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Sobre o autor

Rui Paiva

Rui Paiva é Presidente Executivo da WeDo Technologies e COO da SSI - Software and Technology. É membro da Comissão Executiva da BizDirect, Saphety, SSI Sonae Serviços Partilhados e, mais recentemente, da empresa S21Sec, com sede em Espanha. Antes de fundar a WeDo Technologies em 2001, Rui Paiva desempenhou funções como Diretor de Sistemas de Informação e Adjunto da Comissão Executiva da Optimus Comunicações. Anteriormente, passou pela HP Portugal, como... Ler Mais