As melhores ideias do mundo começam por uma pergunta. Mas, sobretudo, por um confronto. De nada serve puxar os cabelos e arregaçar as mangas em busca de uma ideia, sem uma orientação. Sobretudo, sem uma necessidade. E os problemas originam o foco, porque nos levam exatamente ao ponto por onde começamos: às perguntas.

Há quem seja obcecado por saber todas as respostas certas. Mas é em saber fazer as perguntas certas que reside a mestria. Ir ao fundo. Espreitar a situação de todos os ângulos. Observar em 360º, em vez de, persistentemente, olhar apenas para onde nos querem fazer ver. Ou para onde sempre se olhou. Que não é por mais olhos verem da mesma perspetiva que mais se vê. Basta que alguém questione por um novo prisma. Se assim não fosse, ainda hoje não saberíamos como colocar um ovo em pé ou sequer teríamos post-its para nos ajudar a memória.

Os problemas trazem-nos de presente as soluções, se soubermos enfrentá-los de forma elegante, diplomática e sem receios, mas, sobretudo, sem preconceitos. Acima de tudo, quando olhamos para os nossos problemas. Não os que temos entre mãos. Mas aqueles que sabemos que são nossos, cá de dentro, os que carregamos. Questioná-los só nos dará mais força. Não pela coragem, mas pelo processo de unboxing a que o tempo e a resiliência nos obrigarão.

Certamente já se terá deparado com o fenómeno no Youtube – alguém coloca no título do vídeo “Unboxing… qualquer coisa”. Trata-se de fixar a câmara e iniciar um longo vídeo, onde meticulosamente nos mostra tudo, desde a abertura do celofane da embalagem, depois da caixa, depois da película envolvente do objeto, até que, finalmente, parafuso a parafuso, vai abrindo o produto e revelando, peça a peça, de que este é feito, o que está lá dentro. Qual explorador em selva virgem ou fanático pela anatomia humana.

Da mesma forma, fica aqui o desafio – olhar os problemas não com pressa de encontrar uma resposta que os resolva, mas colocando as questões neste exercício de unboxing minucioso, qual jogo de bonecas russas, para ir conseguindo abrir cada camada e revelar o que se esconde lá dentro, chegando ao ponto de onde tudo surgiu. Finalmente, aí sim, avançar na resolução.

É um exercício de coragem, cauteloso e que carece de alguma dose de disciplina. Ter audácia para deixar de olhar os problemas dos outros e mergulhar nos nossos. Acreditar que descobrir um problema e enfrentá-lo é, sem dúvida, o único caminho para dar o salto. Ainda que seja duro. Passo a passo, com treino, neste exercício de unboxing por camadas, a resolução dos problemas só ficará mais fácil.

Na luta contra os obstáculos, embora a pele perca a sua maciez original, como se sabe, a rudeza do tecido das cicatrizes superará em força e resistência.

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Sobre o autor

Ricardo Tomé

Ricardo Tomé é Diretor-Coordenador da Media Capital Digital, empresa do grupo que gere a estratégia e operação interativa para as várias marcas – TVI, TVI24, IOL, MaisFutebol, AutoPortal, etc. – com foco especial na área mobile (Rising Star, MasterChef, SecretStory)... Ler Mais