Coloquei a seguinte situação durante uma experiência de aprendizagem que conduzi recentemente para um grupo de pessoas de uma organização com quem trabalho:

“Imaginem que entram num espaço de trabalho onde está uma equipa de seis pessoas. É uma equipa como outra qualquer, durante o horário habitual de trabalho. Um dos elementos está a responder a e-mails de forma compenetrada; outra pessoa está numa conversa telefónica, que se percebe ser com um cliente, onde os gestos, o tom de voz e a expressão deixam transparecer entusiasmo e segurança; há um outro membro que prepara materiais em pilhas de forma meticulosa e metódica; outros dois estão numa conversa animada, embora se note algum cuidado para não incomodarem os restantes, em volta de post-its e documentos; o último está sentado, ligeiramente afastado da mesa, e percebe-se que vai alternando o olhar de forma imprevisível e aparentemente ilógica entre um livro aberto e a janela que está à sua frente”.

Ao terminar pedi-lhes que partilhassem comigo e com as restantes pessoas o que aquela descrição lhes tinha suscitado. As respostas que escutei tinham tanto de divertido como de elucidativo, no que respeita aos preconceitos comuns acerca do “trabalho”. Ouvi expressões como: “é o costume, uns a trabalhar e outros a olhar para o tecto”; “o que estava a ler devia ser o chefe”, dizia outra pessoa; “ou o filho de chefe!”, completou um colega, fazendo todo o grupo rir ainda mais.

Numa época em que grande parte do trabalho é considerado “trabalho intelectual”, de forma (aparentemente) paradoxal somos bastante rápidos a considerar que uma pessoa que está a ler não está a trabalhar, a produzir, a fazer coisas. Acredito que precisamos urgentemente de actualizar os preconceitos vigentes em torno do mundo do trabalho, sobretudo numa fase em que tanto se fala de inovação, de criatividade e de equilíbrio entre a “vida profissional” e a “vida pessoal”, provavelmente por se sentirem necessidades associadas. Curioso é que esse exercício de actualização não necessitará de grande teorização. Não é comum a filosofia ou as artes estarem associadas à evolução da “epistemologia do trabalho” mas nesses campos existem já propostas muito interessantes e ricas que nos despertam para a importância de considerar outras perspectivas e de atribuirmos valor a actividades que, hoje em dia, têm pouco ou nenhum. Os “negócios”, têm procurado mais apoio e fundamentação nas ciências e numa dimensão mais quantitativa. Vejam-se os exemplos dos contributos da neurociência ou do big data como base para a tomada de decisões, para a implementação de práticas e de políticas organizacionais ligadas ao desenvolvimento de pessoas e do próprio negócio.

Por outro lado, nota-se já alguma penetração de áreas consideradas alternativas às habituais no mundo do trabalho como a prática da meditação ou o design thinking, com aparentes bons resultados, na óptica dos utilizadores e dos seus empregadores. Contudo tenho sentido e observado que estas práticas se têm adaptado para servir o paradigma vigente sem o intuito de poderem contribuir de forma suficientemente presente para o poderem mudar.

Hanna Arendt, na sua obra “A Condição Humana”, Joseph Pieper no seu ensaio “O lazer como base da cultura”, Robert Louis Stevenson com o seu “Apologia do ócio”, Paul Lafarge em “O direito à preguiça”, são apenas alguns que, em épocas e de formas diferentes, alertam para a importância da contemplação, do tempo passado a reflectir sobre as vivências como base para a criação e para a criatividade, por oposição à obsessão agida com o propósito de se produzir, seja o que for, de forma eficaz e eficiente.

John Cleese, o conhecido membro dos Monty Python, na sua autobiografia simplifica, como fazem os bons humoristas, e diz-nos que os seres humanos funcionam em dois registos básicos: o “modo aberto” e o “modo fechado”. O primeiro é o que nos permite fazer coisas, que nos ocupa com a lista de tarefas que temos para completar, por exemplo; o segundo, num extremo, pode significar entregar-se ao tédio e de forma indulgente a “não fazer nada”. Segundo Cleese, é neste modo que surgem novas ideias; é onde reside o potencial para a criatividade.

No mundo do trabalho moderno e, arrisco dizer, na sociedade de hoje, há que criar espaço e respeitar o tempo para o ócio, com vista ao desenvolvimento do negócio; há que permitir e abraçar o tédio, tornando mais forte o músculo que resiste à tentação de estarmos ocupados ou entretidos de forma permanente; há que recuperar as noções originais de lazer e de contemplação (que com o tempo se foram carregando de sentidos e de significados negativos) como base da aprendizagem e do desenvolvimento humanos.

O grande ponto de desafio está em ver que nada disto é oposto de produtividade, de eficácia ou de eficiência. Contudo, será igualmente necessário rever estes conceitos, modernizá-los e de os adaptar ao já se percebeu que hoje não funciona. Uma mudança de paradigma no mundo do trabalho implicará, suspeito, uma mudança de perspectiva em relação a nós próprios, enquanto mulheres e homens que trabalham. Há que passar para lá da identificação e desenvolvimento de competências (quer sejam “moles” ou “duras”) e olhar, por exemplo, para algo como as virtudes apontadas por Aristóteles: será útil passar da valorização de competências para o desenvolvimento de determinadas qualidades humanas.

Para que, de facto, o trabalho nos possa libertar há que fazer por nos libertarmos de uma noção de trabalho que nos têm aprisionado. É uma versão gasta e desfasada das actuais necessidades humanas.

”A devoção perpétua ao que um homem considera o seu trabalho só pode ser sustentado negligenciando todas as outras coisas.” Robert Louis Stevenson.

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Sobre o autor

João Sevilhano

É licenciado em Psicologia Aplicada, área de Psicologia Clínica. Exerceu funções em instituições de saúde na área da Psicologia Clínica. Trabalhou igualmente como técnico de recursos humanos passando por vários departamentos onde se destacam as atividades de criação e implementação... Ler Mais