Uma das citações do Facebook que me deixa mais triste é a do peixe e da árvore. Há várias versões. A ideia é que, se um peixe for avaliado pela sua capacidade de trepar uma árvore, vai sempre ser um fracasso. Por isso, devemos avaliar o peixe apenas por aquilo que o peixe faz bem: nadar.

Aplicada às pessoas, a ideia é que devemos ser avaliados por aquilo que sabemos fazer bem. Por isso, se eu for bom a dar aulas e não for muito bom a escrever artigos científicos, devia ficar contente com a minha capacidade de ensinar (peixe a nadar) e devia parar de ficar triste com a minha incompetência para a escrita.

Acho esta ideia muito destrutiva. Quando acabei o doutoramento, os meus orientadores disseram que eu nunca iria publicar nada da minha tese em revistas científicas boas. Neste ano, acabei de publicar dois artigos em duas das melhores revistas científicas de gestão. No total já vou em três, sem ajuda de ninguém. Mas ainda me sinto um peixe a trepar a uma árvore. Continuo a ser incompetente para cumprir os meus sonhos. Mas consigo cumpri-los na mesma, porque sou tão persistente (ou teimoso) como um peixe que sonha trepar a uma árvore.

Durante os dez anos que passei a lutar contra as minhas limitações, encontrei uma imagem que acho que é melhor do que a imagem do peixe a trepar a uma árvore: a de viver a vida em modo ‘pesadelo’.

Já explico.

Eu jogo muitos jogos de computador. Nos jogos de computador, dá para escolher o nível de dificuldade: fácil, normal, difícil e ‘pesadelo’. No nível ‘pesadelo,’ está-se sempre a morrer e a ter que voltar a tentar de novo. Às vezes passo várias horas a tentar ultrapassar um desafio. Depois lá consigo. No princípio, comecei a jogar em nível ‘pesadelo’ para o jogo durar mais tempo. Mas depois descobri o sabor de uma vitória esforçada, conseguida para além do meu nível de competência. Gosto de pensar que a minha carreira tem sido assim: uma carreira em modo ‘pesadelo.’

Nos cargos de liderança académica que ocupei nos últimos cinco anos, conheci vários colegas que desistiram de escrever, porque olhavam para si próprios como peixes a trepar a uma árvore e desistiram. Claro que nem todos os professores têm que escrever artigos científicos. Nem todas as pessoas que cada um de nós lidera têm que ser peixes a tentar trepar a árvores. Essa é uma escolha de cada pessoa. Uma escolha de cada um de nós.

O que é que isto significa para os líderes? Acho que a resposta a essa pergunta é pessoal. Alguns líderes podem querer apenas recrutar pessoas competentes que trabalhem no nível ‘fácil’ e, mesmo assim, consigam resultados extraordinários. Eu prefiro liderar no modo ‘pesadelo’: liderar pessoas que têm sonhos que ultrapassam a sua competência. Gosto de pensar que sou um líder capaz de ajudar peixes a trepar a árvores, se esse for o seu sonho.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of Management do MIT, e Mestre em Comportamento Organizacional, pelo ISPA. A sua escrita tem um tom irónico e provocador. O objetivo é ajudar os gestores a refletir sobre o que... Ler Mais