Para além de ser diretor dos assuntos corporativos, externos e legais da Microsoft, Pedro Duarte acumula agora o cargo de presidente do novo órgão de apoio à economia digital da Confederação Empresarial de Portugal (CIP). Nesta entrevista, abordamos, entre outros temas, as funções deste novo órgão e o papel que a tecnologia vai ter no futuro do trabalho.

O que esteve na origem da criação do Conselho Estratégico para a Economia Digital?
Perante os desafios que a atual disrupção tecnológica está a trazer às estruturas económicas e sociais, a direção da CIP entendeu – em boa hora – criar uma plataforma de ideias e de propostas. O objetivo é que essa reflexão possa contribuir para preparar melhor a economia nacional para as imensas oportunidades que temos pela frente. A digitalização da economia é uma oportunidade sem precedentes para Portugal. E a CIP mostra ter uma visão estratégica e construtiva para os seus associados e para a economia em geral.

Nestes três/quatro meses de atuação, o Governo tem sido um veículo facilitador ou apresenta barreiras para as medidas que o Conselho quer implementar?
É prematuro fazer qualquer avaliação nessa linha. O que posso dizer é que temos sentido ter canais de diálogo abertos e que há uma crescente sensibilidade dos decisores políticos para o impacto tremendo que estas mudanças vão significar.

O que é que, na sua opinião, as entidades governamentais deviam fazer no sentido de apoiar e dinamizar esta área da economia? Que falhas aponta às políticas governativas?
Não quero apontar falhas. Esta é uma nova realidade e todos estamos a adaptar-nos a ela. O que podemos incentivar é que haja um maior sentido de urgência na criação de um efetivo ecossistema amigo da inovação e da transformação digital. Isso passa por uma visão e uma abordagem holística da função do Estado, removendo barreiras burocráticas e apostando nos incentivos adequados. Portugal deveria assumir este processo de transformação digital como um verdadeiro desígnio nacional, com o objetivo de colocar o nosso país no grupo dos países mais preparados em termos globais. Ao contrário do que se passou noutros momentos históricos, desta vez, Portugal tem inúmeras vantagens comparativas. Na posição geográfica, na atratividade natural (segurança, clima, etc.), na estabilidade política e social, nas infraestruturas e, principalmente, no talento humano. Pela formação e pela base cultural. Não deixa de ser curioso que aquelas caraterísticas mais associadas ao povo português e que eram, tradicionalmente, apontadas como defeitos, são hoje altamente valorizadas. Falo da nossa grande flexibilidade e capacidade de adaptação a cenários imprevistos e a responder a problemas inesperados, por exemplo.

No campo da digitalização das empresas, já diagnosticaram os principais setores que precisam de sofrer uma mudança mais profunda?
O grande desafio é ultrapassar a barreira psicológica e cultural que impede as lideranças e as organizações de abraçarem com audácia este desafio. O nosso país tem inúmeros casos de sucesso para apresentar nesta área. Casos de empresas com caraterísticas muito diferentes – desde empresas familiares e pequenas start-ups – que potenciaram esta era de digitalização. O problema é que não podemos ter um país a duas velocidades, em que uma parte são verdadeiros campeões deste novo tempo, mas em que a outra parte fica para trás, a definhar até desaparecer. Diria que a generalização das oportunidades deve ser a grande prioridade.

“Não tenho dúvidas em afirmar que as empresas, que ainda não têm uma componente digital na sua cadeia de valor, estão a caminhar para o abismo”.

Ainda faz sentido falarmos de digitalização de empresas em 2018? Tendo em conta as preferências dos consumidores, esta mudança já não devia ser um dado adquirido?
É uma pergunta pertinente. Não tenho dúvidas em afirmar que as empresas, que ainda não têm uma componente digital na sua cadeia de valor, estão a caminhar para o abismo. Não digo que as empresas serão todas “tecnológicas”, não é isso. Mas mesmo nos setores mais tradicionais é hoje fundamental integrar as potencialidades do digital. Seja no design, na relação com clientes ou fornecedores, na logística, nos processos, etc. Em algum destes momentos – ou em todos – os ganhos de eficiência são brutais. Mesmo que, em muitos setores, faça sentido conciliar esta digitalização com a preservação da originalidade mais analógica ou tradicional.

Visto que a CIP já tem um Conselho Estratégico para a área da saúde e agora para o setor da economia digital, quais são os objetivos desta entidade ao segmentar a sua atividade em conselhos diferentes?
Interpreto esta opção como uma forma de tentar atrair personalidades que, pelo seu mérito e pelo seu percurso, possam acrescentar valor às estruturas dirigentes da CIP. Creio que é um sinal de abertura e de inovação da CIP que, preservando os seus pilares fundacionais, se encontra num interessente processo de modernização e adequação aos novos tempos.

Que conselhos pode dar às empresas que não têm acesso a meios – por terem orçamentos reduzidos – para que potenciem a digitalização do seu projeto?
Uma das grandes vantagens da presente evolução tecnológica é precisamente a sua capacidade de massificação. Tal decorre essencialmente das características desta vaga tecnológica – cloud computing e mobilidade associada – que são a redução brutal de custos e a enorme acessibilidade. Ora, isto esbate as dificuldades tradicionais de empresas que, por falta de escala e capacidade de investimento, se viam excluídas das opções mais avançadas. Este novo mundo é diferente, mitigando essas adversidades. Com pouco investimento, pode ter-se acesso a um imenso conjunto de novas oportunidades. Essa talvez seja a grande mudança de paradigma! Ou seja, mesmo que não se tornem em empresas de vanguarda, digitalizando toda a cadeia de valor, há novos recursos que podem e devem ser integrados nos processos. Falemos no design, na produção ou tão só no marketing ou comercialização, por exemplo.

Que objetivos pretendem atingir até ao final de 2020?
Estamos numa fase de consolidação do nosso plano de atividades. Mas há uma ideia geral que deve ser enaltecida: queremos humildemente contribuir para tornar a economia portuguesa mais competitiva. E acreditamos convictamente que tal pode acontecer através das novas oportunidades geradas pela revolução digital que estamos a começar a viver. Se Portugal (empresas, trabalhadores, decisores políticos, academia) agarrar esta oportunidade, podemos colocar-nos entre os países mais avançados e com mais desenvolvimento à escala global.

Visto que é um dos diretores da tecnológica Microsoft, diria que há razões para os trabalhadores temerem perder os seus empregos com o desenvolvimento exponencial da tecnologia?
A História mostra-nos que, sempre que ocorreram saltos tecnológicos desta natureza, o número de novos empregos, criados pelas novas dinâmicas económicas, excedeu largamente o número de empregos que desapareceram. Para além de trazerem desenvolvimento e mais bem-estar para as pessoas. Nada nos leva a pensar que agora será diferente.

Mas não tenhamos ilusões. Haverá uma mudança radical no modelo e natureza dos empregos. Acho que todos devemos esperar que muitas das tarefas que hoje desempenhamos serão alteradas. Mas isso não significa que perderemos os nossos empregos. Desde que tenhamos vontade e espírito de iniciativa para acompanharmos as mudanças e não cristalizarmos num imobilismo cego, haverá muito trabalho humano previsivelmente com mais qualidade do que hoje. Isto vale para as pessoas e para as organizações.

Considera este desenvolvimento tecnológico algo positivo para o bem-estar da Humanidade?
Tal como a mensagem que Stephen Hawking nos deixou no último Web Summit estamos num momento em que as novas tecnologias, muito por força da inteligência artificial, podem ser a melhor ou a pior coisa que aconteceu à Humanidade. Tudo depende de nós. Há riscos evidentes. Mas, se soubermos conformar adequadamente este progresso, poderemos ter sociedades mais justas, mais inclusivas e com patamares de qualidade de vida inimagináveis. Vale a pena lutar por isso, por uma sociedade mais justa e com mais qualidade. Devemos todos sentirmo-nos comprometidos na construção deste futuro que – eu acredito – será radiante.

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