Metade dos unicórnios não deviam existir. Em causa estão as condições especiais dadas aos investidores que impulsionam as start-ups para as avaliações superiores a mil milhões de dólares.

O estatuto de unicórnio pode ser uma grande mais valia para as start-ups. Uma avaliação acima dos mil milhões de dólares (≈800M€) é uma boa maneira de receber cobertura mediática, de atrair mais talento e clientes para a empresa e de aparentar ser imbatível contra os competidores. Os frutos colhidos por ter este título anexado ao nome da empresa não têm preço.

Os unicórnios são raros, mas a realidade é que deviam ser ainda mais difíceis de encontrar. O princípio é abordado num estudo do norte-americano National Bureau of Economic Research, onde foram analisados 135 projetos com este estatuto.

Conclui o referido estudo que deste universo, 65 não deviam ter o título de unicórnio. A razão para esta disparidade de avaliações vem do facto de as start-ups aceitarem com alguma frequência financiamentos com cláusulas especiais que, na maioria das vezes, são ocultadas do público.

Estas condições especiais vêm dar mais valor aos últimos investidores do que aos funcionários ou às pessoas que financiaram a empresa quando esta ainda estava numa fase inicial. Dentro deste estatuto especial estão direitos que os acionistas mais antigos muitas vezes não têm como: votar contra uma oferta pública inicial (IPO) que desvaloriza a start-up, dar mais ações aos investidores mais recentes numa eventual IPO fracassada e preferências de liquidação.

Neste último ponto, relativo à liquidação de uma start-up, é dado mais valor às ações – até quatro vezes – dos investidores recentes, pagando-lhes primeiro do que a qualquer outro acionista. Isto pode significar que na eventualidade de uma avaliação bastante reduzida e da venda da start-up, os primeiros investidores e os funcionários podem sair de mãos a abanar.

É então notável que as equipas fundadoras de algumas start-ups coloquem em risco o investimento dos seus funcionários e dos primeiros investidores em prol do estatuto de unicórnio.

A diferença apresentada pelo estudo norte-americano levanta então a questão: como é que as start-ups se avaliam a elas mesmas?

Por norma, as avaliações são feitas com base nas últimas rondas de investimento ou do preço das ações da última vez que tiveram uma IPO. No entanto, o estudo argumenta que se alguns acionistas têm menores possibilidades do que outros de receber um cheque quando a empresa for vendida, não deviam as suas ações valer menos e, por consequência, não devia também a start-up valer menos?

William Gornall, um dos coautores do estudo, expõe a situação da seguinte maneira: as start-ups estão a “vender um BMW de luxo e estão a pegar nesse preço e a colocá-lo em todos os carros do stand, porque essa foi a venda mais recente”, o que significa que “estão a dar Kias de nível básico aos seus empregados e estão a assumir que valem o mesmo que o BMW”.

Surpreendentemente, o estudo descobriu que as grandes start-ups, como a Uber, a Airbnb e a WeWork não dão este tipo de condições especiais aos seus investidores, o que significa que as autoavaliações destes unicórnios são relativamente aproximadas da realidade.

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