Transformar a cortiça em peças únicas é a especialidade de Mónica Gonçalves, uma jovem empreendedora que concebeu o fio de cortiça e a marca Casa Grigi que agrega as suas criações de design. Ao Link to Leaders, a responsável explicou como tudo começou.

Designer de moda, Mónica Gonçalves descobriu como fazer fio de cortiça quando tinha apenas 21 anos. Registou a patente internacional e nunca mais parou de aumentar a sua coleção de peças de vestuário e acessórios, quer na versão mais concetual quer mais jovem.

Concebeu Casa Grigi que agrega todas as suas inovadoras criações feitas com o fio de cortiça e ganhou prémios, como um “Design Awards” (na categoria de inovação de tecidos e design de moda). Familiarizada desde pequena com as artes da costura –  a mãe era modista –, Mónica fez o curso de design de moda da MODATEX e foi ali que apresentou o seu primeiro protótipo: um blazer com fio de cortiça.

Em 2012 começou a vender uma coleção exclusiva numa loja no Chiado, em Lisboa, e ganhou o concurso EcoFriendly do Portugal Fashion, onde apresentou a malha de cortiça. Em 2013, surgiu a ideia da marca Grigi, abriu a primeira loja de venda ao público e começou a vender para o Luxemburgo, Austrália e Dubai. Saias, vestidos, casacos, tops e acessórios com fio de cortiça são algumas das peças que integram o portefólio da Grigi, marca que captou a atenção de investidores como Isabel Neves, presidente do Clube de Business Angels de Lisboa.

Como surgiu a ideia de criar a Casa Grigi?
A ideia surgiu após ter ganho o concurso de ECOfriendly do “Portugal Fashion” e ter sido contactada por potenciais clientes. A Casa Grigi é uma marca que desenvolve produtos de vestuário, home e acessórios com fio de cortiça. O fio de cortiça é patenteado a nível nacional e internacional e produzido também por nós.

Como se apercebeu da potencialidade do fio de cortiça?
No dia em que me surgiu a ideia, não tive nenhuma dúvida do potencial… foi um sentimento muito forte! Tão forte que acordei os meus pais às 4h da manhã para contar o que tinha conseguido….

Como tem sido a aceitação?
A aceitação tem sido positiva. Somos procurados pelas mais diversas áreas: calçado, decoração, moda, arquitectura… enfim, é um desafio diário que me obriga estar sempre a estudar novas técnicas e possibilidades.

Para os portugueses a cortiça é uma coisa  “kitch”. Infelizmente o grande interesse vem sempre fora de portas.

Acha que os portugueses já se começaram a aperceber que a cortiça também se pode vestir?
Não, de todo! Os portugueses ainda não valorizam a cortiça. Para os portugueses a cortiça é uma coisa  “kitch”. Infelizmente o grande interesse vem sempre fora de portas. No entanto, é importante dizer que cada vez que as pessoas se deparam com o fio e percebem que existem peças de vestuário feitas do mesmo, a recetividade é excelente, mas ainda tenho um trabalho grande pela frente.

Como carateriza as suas coleções e qual a peça que tem tido mais aceitação?
São coleções muito focadas na valorização do fio e na aplicação do mesmo. Temos peças mais concetuais e outras mais comerciais. As concetuais permitem desenvolver novas aplicações para o fio, as comerciais são peças também de design, mas mais focadas no utilizador. A peça mais vendida é um vestido de malha de cortiça.

Qual os preços das peças?
Podem ir dos 20 aos 500 euros. Depende sempre da complexidade da construção da peça.

Quais os clientes que a Casa Grigi tem neste momento?
São das mais diversas áreas. O importante é a relação de fidelização que criamos, pois os clientes sabem que somos multidisciplinares e que qualquer desafio é aceite na Grigi.

Onde podemos encontrar as suas peças?
Podem encontrar no Facebook: “CASA GRIGI”, no Instagram  e no nosso site. Trabalhamos por encomenda.

Portugal é o único mercado de aposta?
Não é o único mercado de aposta, mas só agora começamos a trabalhar o mercado internacional, pois foi necessário aguardar pela patente internacional para começarmos a desenvolver o mercado externo.

Quais têm sido os grandes desafios que tem encontrado pelo caminho?
São muitos. Desenvolver um produto inovador e ter de o transformar em negócio é um grande desafio, mas faz parte do percurso de qualquer empreendedor.

Participou na segunda temporada do Shark Tank. O que é que a participação neste programa televisivo  lhe trouxe?
A participação no “Shark Tank” permitiu-me a primeira máquina industrial para produzir o fio de cortiça e ganhar mais autonomia financeira para alavancar o projeto.

Negociar com investidores é um desafio, mas sem dúvida que cada empreendedor tem obrigação de conhecer o seu negócio de A a Z (…)

Contou com investimento pessoal, mas também de investidores, entre eles Isabel Neves. Quanto já investiu na marca e como é negociar com investidores?
Prefiro não falar de números. É uma coisa muito reservada para cada empresa. Negociar com investidores é um desafio, mas sem dúvida que cada empreendedor tem obrigação de conhecer o seu negócio de A a Z e saber que a base de cada parceria é a sinceridade e entrega total entre ambas as partes.

Depois do fio de cortiça, está neste momento a trabalhar no reaproveitamento da casca de banana. Pode falar-nos mais deste projeto?
Neste momento é informação confidencial.

Qual o material que gostava de trabalhar e ainda não teve oportunidade?
Bem, faria uma lista enorme. Eu sou uma curiosa por defeito, olho sempre com outros olhos para aquilo que chamamos “lixo”. Sou fã de materiais orgânicos e de estudar as capacidades e aplicações dos mesmos.

É tudo difícil, falam de empreendedorismo como “fosse uma moda”, mas as ajudas são mínimas e as dificuldades imensas…

É fácil ser-se empreendedora em Portugal?
Não, não é de todo! É tudo difícil, falam de empreendedorismo como “fosse uma moda”, mas as ajudas são mínimas e as dificuldades imensas…mas temos de ser resilientes e muito lutadores para alcançarmos os objetivos…sem isso nem vale a pena tentar ser empreendedor.

Se pudesse, o que teria feito de diferente?
Não me arrependo de nada, cada erro ou queda foi uma aprendizagem e olho para o meu percurso com muito orgulho. Comecei com 21 anos e nunca desisti!!! Acho espectacular ter conseguido desenvolver um material e ter transformado o mesmo em produto. Sendo que o mesmo conquistou um grupo de investidores que acreditou, como eu, no potencial do fio de cortiça. Só por isto já valeu a pena.

Que outros projetos tem em carteira?
Irei divulgar a seu tempo.

Respostas rápidas:
O maior risco:  No dia que abri a empresa e abdiquei (uma vida de jovem…e todas as coisas que estão relacionadas com isso) de tudo pelo projeto.
O maior erro: Ter criado a marca sem industrializar o fio primeiro.
A melhor ideia: Fio de cortiça
A maior lição: Aprender a ser paciente e a não agir de cabeça quente
A maior conquista: A patente  internacional

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