Há alguns dias, as minhas filhas ofereceram-me um livro. Ainda não o li, mas já percebi que tem a ver com a arte de ser seletivo naquilo com que nos preocupamos ou com aquilo em que nos envolvemos.

Ofereceram-mo porque tenho ainda uma enorme dificuldade em não me preocupar… embora já há mais de 20 anos tenha consciência dos círculos de influência e da enorme relevância que podem ter na nossa vida.

Os círculos de influência são as fronteiras entre aquilo em que podemos mudar alguma coisa e aquilo que foge completamente ao nosso controlo. Podem ser graduados, em função da capacidade de fazer acontecer em cada circunstância, mas podem, sobretudo, pôr fronteiras na nossa atuação, todos os dias!

Imaginemos um aeroporto. Greve dos controladores aéreos (franceses, com enorme probabilidade…). Voos cancelados. Voos atrasados. E uma reunião inadiável à nossa espera no destino. Reconhecem…?

A correria entre balcões à procura de alternativas para chegar a horas ao destino. A fúria contra quem não nos dá as respostas que queremos, mas que até já sabemos que não existem. Os telefonemas para quem acreditamos que nos pode ajudar, mesmo não acreditando que valha a pena.  As hesitações sobre o que fazer e como conseguir estar presente na tal reunião, seja de que forma for – procuramos rent-a-car, comboios, o que for…

E, finalmente, o desespero, quando nos apercebemos daquilo que sabíamos desde o início – de facto, nada podemos fazer. Está fora do nosso círculo de influência!

Qual é a alternativa? Acabar com o desperdício. Aceitar o que tem de ser aceite. Avisar quem tem de ser avisado… E procurar uma forma confortável e eventualmente útil de utilizar todo o tempo que ali vamos ter de “perder”.

O aeroporto até pode ter uma sala confortável, um restaurante onde se come bem, formas de ver um bom filme, ou sítio para trabalhar,… Usar a energia que iríamos deitar fora em esforços inúteis, em alguma coisa que sirva para alguma coisa.

Imaginemos agora o nosso dia a dia. E todas as vezes em que não fizemos nada. Quando poderíamos ter feito alguma coisa, mas, por preguiça ou por achar que não nos compete ou que não vale a pena, não fizemos nada.

Todas as vezes em que desperdiçamos os recursos que temos ao nosso alcance para resolver coisas – que podíamos ter resolvido! – porque ficamos à espera que os outros o façam. Sempre que não nos envolvemos, porque o envolvimento tem riscos. Ou nos momentos em que alegamos que nada podemos fazer, porque o problema nos transcende e a nossa capacidade de influenciar “não muda nada”, mas em que sabemos, no fundo, no fundo, que até podíamos fazer alguma coisa, mesmo que pequena (não votar é um dos melhores exemplos desta atitude…). Mais uma vez, desperdício! Desta vez, da energia que devíamos ter usado e que não usamos!

Mas há também as alturas em que acertamos. Sempre que reconhecemos e aceitamos tudo o que podemos (devemos!) fazer, para que a vida – nossa e de quem nos está perto, ou até longe… – seja melhor. Todas as vezes em que não viramos a cara e em que a nossa atuação, dentro do nosso círculo de influência, fez a diferença. E, nessas alturas, sentimos mesmo que valeu a pena e é muito bom!

A noção de que há limites para o que podemos fazer. Saber que temos obrigação de cumprir, dentro do que podemos fazer. Aceitar que há alturas em que temos de parar. É uma ferramenta que pode fazer toda a diferença e ajudar a alinhar a nossa forma de estar.

Eu continuo a não descontrair e a preocupar-me com tudo. Mas todos os dias me lembro dos círculos de influência. E sei que esta noção me tem ajudado a definir prioridades. Um dia vou conseguir despreocupar-me com o que não posso controlar ou influenciar… e sei que, nesse dia, tudo vai ser mais fácil

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Sobre o autor

Maria do Rosário Pinto Correia

Maria do Rosário Pinto Correia é regente da disciplina de Marketing in The New Era (licenciatura em Business Management) na CLSBE. Coordena, ainda, 3 programas de Executive Education - PGV - Programa de Gestão de Vendas, EI - Estratégias de... Ler Mais