O primeiro texto que escrevemos para o Link to Leaders, era principalmente dirigido aos jovens empreendedores que estão a iniciar os seus negócios e a criar as suas start-ups. Hoje, iremos olhar para a posição dos investidores que decidem apostar nessas start-ups.

É um facto que o investimento privado em start-ups tem vindo a aumentar ao longo dos últimos anos. Isso acontece, entre outros fatores, porque algumas formas de investimento mais tradicionais estão em declínio (a título de exemplo, podemos mencionar as aplicações financeiras que, atualmente, além da menor rentabilidade, também apresentam riscos decorrentes da crise no setor bancário) e porque começam a aparecer apoios à atividade típica de Business Angels (veja-se a Linha de Financiamento a Entidades Veículo de Business Angels, cuja segunda fase de candidaturas está agora a decorrer).

Cada vez mais, encontro empresários que, depois de terem tido sucesso nos setores de atividade onde trabalham, decidem aventurar-se para fora da sua comfort zone e investir em start-ups, na esperança de encontrar o próximo unicórnio ou, para os menos sonhadores, com o intuito de obterem uma rentabilidade superior à que conseguiriam, caso aplicassem o seu dinheiro de forma mais conservadora.

Contudo, para os que estão a dar os primeiros passos neste mundo, é importante observar algumas regras básicas, de modo a evitar erros que podem sair muito caros:

1) Desde logo, o investidor deve definir o perfil dos negócios ou start-ups em que pretende investir. Procura algo que tenha um âmbito regional/nacional ou que seja escalável para todo o mundo? Procura uma empresa que opera na área de prestação de serviços ou na venda de produto? Um start-up da área tecnológica ou algo mais tradicional, nos setores primário ou secundário da economia?

Quanto a este ponto, diria que é importante que se concentre em áreas de negócio, sobre as quais tenha algum conhecimento. Caso contrário, pode achar que está perante uma boa oportunidade, quando, na verdade, não é o caso. Sempre que o investidor não possua expertise para avaliar determinada oportunidade de negócio, deve fazer-se assessorar por quem possua o know-how necessário para o fazer, de modo a não acabar a “comprar gato por lebre”.

2) Se encontrar, dentro do perfil de investimento anteriormente traçado, uma boa oportunidade, deve fazer uma Due Diligence jurídica e financeira à start-up. Só assim conseguirá conhecer realmente a empresa em que está a investir, e avaliar se a valorização que lhe é apresentada pelo promotor do projeto, é ou não razoável.

3) O investidor deve ser, desde o início, muito claro acerca das condições em que está disposto a investir e daquilo que espera em troca de tal investimento. Só assim se evitarão mal-entendidos que, em última instância, podem comprometer o relacionamento entre os futuros sócios ou parceiros de negócio.

É de extrema importância definir contratualmente (i) o calendário e natureza do investimento (se o dinheiro vai entrar na start-up como capital social, suprimentos, suprimentos convertíveis em capital, etc.), (ii) a percentagem de capital social que vai ser atribuída ao investidor e os direitos do mesmo em aumentos de capital que possam ocorrer em futuras rondas de investimento, (iii) outros direitos que o investidor possa ter, nomeadamente ao nível da gerência ou administração da sociedade (iv) e, também, o nível de compromisso e dedicação ao projeto que se pretende do promotor.

Não nos podemos esquecer que, muitas vezes, mais do que dinheiro, as start-ups precisam de outro tipo de apoios por parte do investidor, que poderá ser um elemento essencial para criação de oportunidades de negócio (estabelecendo parcerias com fornecedores, abrindo novos mercados, abrindo portas junto de potenciais clientes, etc.). Este tipo de contribuição também pode e deve ser valorizado, quando se discutem as condições para a entrada do investidor no capital da start-up.

4) Quando decide investir em determinada start-up, o investidor já deve ter delineado uma estratégia para o crescimento daquela empresa que, normalmente, compreende também uma estratégia de exit ou saída da mesma (dado que o objetivo último do investidor será sempre – ou quase sempre – obter o retorno do investimento com determinada valorização). Essa estratégia deve, obviamente, ser concertada com o promotor e, na medida do possível, contratualizada.

5) O investidor deve “manter os pés assentes na terra”, de modo a não criar expetativas demasiado elevadas. Salvo raras exceções, o investimento em start-ups tem sempre um grande risco associado e, mesmo nas situações de sucesso, o retorno do investimento só é conseguido vários anos depois. É costume dizer-se que só uma em cada dez start-ups têm sucesso…. resta esperar que o sucesso dessa compense as perdas nas outras nove.

Estes são apenas alguns princípios básicos a ter em consideração por quem se inicia no mundo do investimento em start-ups, por forma a minimizar os erros que possam vir (e que que certamente virão) a cometer enquanto Business Angels.

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Sobre o autor

Hugo Mendonça

Hugo Batista Mendonça é fundador da Legal Team (www.legalteam.pt). Licenciado em Direito pela Universidade Lusíada de Lisboa, em 2001, integrou no mesmo ano a PLMJ, no Departamento de Direito Imobiliário, Turismo e Construção. Em 2008, transitou para a AAA Advogados e, mais tarde, para a PT Lawyers. Em 2013, assumiu funções de Diretor Jurídico da holding Special Edition, um dos maiores grupos de publicidade, marketing e media de Angola, onde... Ler Mais