Existe comummente uma perceção que importa alterar a forma como a generalidade das organizações são geridas e os princípios genéricos pelos quais se regem. Discute-se o como e quando. Testa-se, implementa-se, aferindo vantagens e riscos. O processo é contínuo e está-se a intensificar. Forças de diversa natureza assim o requerem.

Os típicos modelos atuais estão fundamentalmente esgotados e emergem novas soluções alicerçadas em valores e propósitos distintos.

Quando refletimos sobre a evolução de modelos organizacionais desde os seus primórdios, constatamos que aquela ocorreu, nos seus elementos essenciais, assente em verdadeiras mudanças de paradigma. Normalmente centradas em novas formas de promover a organização dos seus recursos e enquadradas por aspirações e visões que desafiavam o status quo vigente. Aspetos determinantes como a divisão do trabalho (e responsabilidades decorrentes), as condicionantes ao acesso a determinadas funções (as quais conferiam poder acrescido), o maior ou menor enfoque e dependência no processo instituído em detrimento das capacidades dos seus membros, a forma de remuneração de cada um (e o peso da meritocracia envolvido), o valor da criatividade e investimento a realizar nesse domínio, têm sido fatores diferenciadores no referido processo evolutivo.

Neste contexto, e referindo alterações que podemos considerar de verdadeira rutura, temos como exemplos os de algumas conhecidas empresas que adotam já parcialmente modelos designados como de Holocracia (com génese na HolocracyOne, daí a expressão) com resultados interessantes e que traduzem esta busca de soluções inovadoras, mais adaptadas aos desafios de competitividade e sustentabilidade que enfrentam.

No seu excelente livro “Reinventing organizations – Vers des communautés de travail inspirées”, Frédéric Laloux, de uma forma simples e direta aborda a temática das “Next-stage organizations”, provocando e inspirando um amplo debate, nomeadamente sobre o valor dos propósitos nas organizações, implicações nas suas práticas para os diversos stakeholders, na sua performance e na sua capacidade para reter e atrair investidores. Não só elabora sobre os méritos das novas formas organizacionais nas suas múltiplas dimensões, como alerta para os receios e para os reptos a gerir por quem as pretende criar. O novo paradigma subjacente alia a convicção de que os seus colaboradores não são meras partes de uma engrenagem anónima, mas sim parte integrante de uma comunidade que busca o autoconhecimento, a felicidade e o bem comum. Estas organizações guiam-se pela convicção de que são organismos vivos, compostos de ecossistemas que progridem na sua complexidade, consciência e completude com mecanismos de autoridade distribuída fluida e dependente duma designada Inteligência Coletiva. Consequentemente, abandonando os típicos sistemas centrais de controlo e comando rígidos.

O desenvolvimento pessoal individual enquanto Ser Humano reveste-se de uma centralidade nunca antes assumida, fruto de uma perspetiva de que cada membro tem múltiplas dimensões que em muito excedem a sua faceta profissional e que só a sua ação como Ser “completo” permite uma verdadeira expressão das suas capacidades e potencia o seu integral (e autêntico) contributo ao projeto. Evita-se assim a dissociação apontada como nociva para o próprio membro que, nos correntes modelos organizacionais, vive sob significativa pressão tentando tornar-se no que a instituição pretende que ele seja, formatando-o frequentemente contra a sua essência, levando-o a questionar-se frequentemente sobre as alternativas de uma vida “em medo e na escassez” ou em “confiança e na abundância”. Os referenciais de exigência passam de exteriormente impostos para individualmente auto estabelecidos (estou a agir de forma alinhada com os meus princípios/valores? estou a servir adequadamente a causa comum?). E o desígnio da empresa tende a evoluir de forma natural, adaptando-se a constantemente às circunstâncias, fiel ao seu propósito.

O alerta de que existem dificuldades práticas na sua implementação, riscos com tipologias ainda não integralmente identificadas, aporta um complemento esclarecedor e muito rico, não inibindo todavia que as denominadas “Teal Oganizations” não deixem de se tornar uma inspiração, constituindo uma referência para o início de uma nova Era.

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Sobre o autor

João Lopes Raimundo

João Lopes Raimundo é empresário, envolvido em diversos projetos e em setores de atividades distintos. Interessado em intervenções no domínio das artes plásticas e da economia social, é sócio fundador do Lisbon Art Center & Studios (LACS). Anteriormente foi membro... Ler Mais