Os fãs de Dowton Abbey não esquecem uma das frases mais conhecidas de Lady Violet Crawley: “O que é um fim de semana?”. Apesar de eu, ao contrário da personagem encarnada por Maggie Smith, ter começado a trabalhar aos dezoito anos, quando me perguntam atualmente se já gozei as férias, apetece-me parafraseá-la e responder “o que são férias?”.

Quando trabalhava por conta de outrem, conseguia estabelecer uma clara distinção entre dias de trabalho e dias de férias. Ansiava como toda a gente pela chegada dos feriados de junho e marcava quinze dias de férias em julho. Nunca consegui estar um mês inteiro parada e, depois dessa quinzena de praia no Algarve, regressava a casa e trabalhava durante o mês de agosto em Lisboa (a cidade esvaziava sem ser invadida por turistas, como agora). Os dias restantes eram distribuídos ao longo do ano e, sempre que possível, acrescentava algumas “pontes”, para fazer render ainda mais os 21 dias úteis a que tinha direito na altura. Com a vantagem acrescida de receber um subsídio de férias que me permitia financiar uma viagem por ano ao estrangeiro.

Desde que passei a ser patroa de mim própria, o conceito de férias mudou. Tenho agora a possibilidade de viajar até paragens exóticas, com tudo pago por quem me contrata para dar aulas ou fazer conferências no estrangeiro. Receber um convite para ser a keynote speaker de um seminário de um dia no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Pequim e passar dez dias de agosto na China deverá ser considerado trabalho ou umas férias de luxo? Dar um curso de uma semana em Whindhoek, na Namíbia, e ficar mais uns dias para conhecer este país africano são férias ou trabalho? Dar aulas durante o nosso verão na Universidade de Caxias do Sul no Brasil e aproveitar para ficar a conhecer melhor a região, conta como férias ou como turismo? Quando regresso destas viagens, são tantas as boas recordações dos momentos de lazer como dos momentos em que partilhei conhecimentos por esse “mundo vasto e vário”.

A área da formação, para freelancers como eu, é das mais ingratas em termos de previsibilidade. “No pino do verão, em Portugal não há formação”, não sendo um ditado, rima e é verdade. Já no resto do ano, tanto posso estar duas semanas parada, como posso ser solicitada para dar um curso no Porto, outro em Lisboa e ainda ser convidada para orientar um seminário em Aveiro na mesma semana. Não faço planos a longo prazo e na minha agenda é tudo escrito a lápis. Aproveito os tempos livres para gozar a vida com a família e os amigos, fazendo umas escapadelas ao estrangeiro nos períodos de menor atividade.

Quando me perguntam quantas horas trabalho por semana, também não sei responder. Posso, ao fazer o balanço no final do ano, dizer quantos dias trabalhei, seja a dar formação, seja a fazer consultoria presencial para eventos, porque esses dias são faturados. Mas é muito difícil contabilizar os dias em que não sou paga, mas em que estou longas horas ao computador a preparar apresentações em inglês, espanhol ou português. Continuo, por isso, a não conseguir distinguir os períodos de férias dos períodos de descanso forçado.

Aproveito esses períodos em que não estou a dar formação ou a fazer consultoria protocolar a eventos, para assegurar a gestão da minha microempresa, que funciona desde 1997 sem parar. Graças às novas tecnologias disponíveis em todo o mundo, aproveito os tempos mortos para pôr em ordem o arquivo, fazer os pagamentos, cumprir as obrigações fiscais, atualizar a página na internet, preparar apresentações e responder às mensagens recebidas em várias caixas de correio.

Quando se inicia um novo ano e olho para a agenda de trabalho quase vazia, em vez de ficar angustiada, peço a Deus que me dê vida e saúde para poder aceitar todos os desafios e convites que, estou certa, vou continuar a receber para trabalhar no meu país e no estrangeiro.

Não poder marcar férias com antecedência, trabalhar nos feriados e não ter horário de trabalho pode parecer duro para alguns. Mas é bom saber que, tal como acontecia com Lady Violet, os meus fins de semana são dois dias iguais aos outros, em que faço aquilo de que gosto.

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Sobre o autor

Isabel Amaral

Isabel Amaral é Presidente da Associação Portuguesa de Estudos de Protocolo desde 2005 e Investigadora do Instituto do Oriente (ISCSP-Universidade de Lisboa), desde 2013. É oradora internacional, empresária, coach executiva, docente em universidades portuguesas e estrangeiras, palestrante e conferencista, em temas como Imagem, Protocolo e Comunicação Multicultural. Como formadora de protocolo, imagem e comunicação intercultural, assegurou a organização e monitoria de diversos cursos em Portugal, Angola, Cabo Verde, Namíbia. Espanha,... Ler Mais