A real motivação para escolher um emprego e/ou profissão parece influenciar de forma determinante a vida futura das pessoas, não apenas o desempenho na função, mas também a satisfação com o trabalho, a felicidade com a vida e até a própria saúde.

Assim mostram os estudos pioneiros da professora da Universidade de Yale, Amy ‎Wrzesniewski, entretanto replicados e validados. Com base numa grande amostra de profissionais que trabalhavam nos vários setores de atividade e ocupavam posições na hierarquia desde a base até ao topo, esta investigadora encontrou evidências de que cada pessoa tende a ver o seu trabalho segundo uma de entre três perspetivas distintas.

As pessoas podem percepcionar o seu trabalho como um “emprego”, que realizam diariamente em troca de um salário mensal (de que precisam para viver). Tendem a realizar, apenas, as tarefas pré-estabelecidas, saindo do trabalho assim que o seu horário é cumprido. Estas pessoas encontrando-se sempre desejosas do horário de saída e do fim-de-semana, altura em que “se podem dedicar” ao que realmente lhes dá prazer.
Em alternativa, os profissionais podem encarar o seu trabalho como uma “carreira”, dedicando-se afincadamente para além do horário pré-estabelecido. Fazem sacrifícios, dispondo-se a trabalhar à noite e aos fins-de-semana, na expetativa de verem reconhecidos os seus esforços. Embora gostem do trabalho que fazem, veem a progressão na carreira como um sinal do bom desempenho prestado, o que constitui uma importante fonte de motivação!
Um terceiro tipo de profissionais tende a ver o seu trabalho como um “chamamento” (calling), sentindo-o como uma missão de vida, i.e. que estavam destinados a fazer esta atividade profissional. A sua paixão é tal, que se entregam totalmente ao seu trabalho, buscado novos modus e ferramentas, rumo ao alcance dos melhores resultados [1].

Estas três visões acerca do trabalho apresentam, naturalmente, consequências bem distintas para as empresas/ organizações, bem como para as próprias pessoas. A visão do trabalho como um “emprego”, para além de conduzir a desempenhos meramente satisfatórios, gera desmotivação e stress laboral entre os colaboradores. Já a perspetiva do trabalho como uma “carreira”, embora conduza a bons desempenhos (beneficiando, também, a organização) e progressão na carreira, nem sempre assegura a motivação a longo-prazo dos colaboradores. O “chamamento”, por sua vez, para além de estar na origem dos desempenhos de excelência, alimenta a motivação dos profissionais a longo-prazo, ao mesmo tempo que conduz a uma progressão mais rápida na carreira.

Dado o impacto destes estudos, levanta-se a questão se estes resultados também se estendem ao campo do empreendedorismo: será que entre os empreendedores também encontramos três visões acerca da criação do próprio negócio?

Foi esta questão que norteou um estudo recente que realizei com outros dois colegas e que será publicado em breve no Journal of Engtrepreneurship [2]. Com base numa amostra de empreendedores nascentes, não apenas encontrámos evidências das três visões acerca do próprio trabalho empreendedor, como verificámos impactos diferenciais em termos do esforço e das estratégias para captar os recursos essenciais à criação dos seus negócios. Os empreendedores que estavam mais centrados no retorno financeiro do seu negócio desistiam mais rapidamente quando os financiadores não pareciam compreender a importância do seu negócio. Já os empreendedores que viam o seu negócio como fundamental à sociedade (como uma causa), ampliavam as estratégias de networking, apresentação do negócio e captação dos recursos.

Embora constitua um “primeiro passo”, esta investigação foi realizada com empreendedores nascentes! Vale a pena alargar este estudo a empreendedores que já criaram os seus negócios e procurar compreender se a visão que têm do seu negócio tem influência no seu crescimento a longo prazo!

* Coordenadora da Escola de Liderança e Inovação do ISCSP – Universidade de Lisboa

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[1] Para um maior detalhe, vide Palma, P. J. & Lopes, M.P. (2012). Paixão e Talento no Trabalho. Lisboa: Edições Sílabo.

[2] Palma, P. J.; Lopes, P. & Alves, T. F. (2018). Entrepreneurship as a Calling: A Pilot Study with Aspiring Entrepreneurs. A ser publicado no Journal of entrepreneurship.

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Sobre o autor

Patrícia Jardim da Palma

Patrícia Jardim da Palma é doutorada em Psicologia das Organizações e Empreendedorismo e Professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP- ULisboa). É coordenadora das Pós-graduações “Gestão de Recursos Humanos” e “Empreendedorismo e Inovação”... Ler Mais