Vivemos por estes dias, uma euforia de futuro. A realização da segunda edição da web summit em Lisboa traz até nós uma onda de inovação, de pensamento positivo, de entusiasmo pelos tempos vindouros.

Num cenário de ficção científica e numa cadência de permanente disrupção com as formas clássicas de gerir, comunicar e agir, as ideias que surgem valorizam, sobretudo, uma dimensão virtual e digital das organizações e das relações entre pessoas.

Mas é de pessoas que vos quero falar. Das pessoas que podem vir a ser substituídas pelos robôs, das pessoas que ainda hoje, em Portugal, não sabem o que são robôs, das pessoas que os idealizam e os fazem e das pessoas que os vão utilizar.

Afastando os cenários de diabolização de Arthur C. Clark no 2001 Odisseia no Espaço ou a dimensão ingénua da Guerra das Estrelas, a utilização da tecnologia é irreversível e a sua evolução é rápida e incontrolável.

O seu impacto, todavia, pode ser letal para a nossa qualidade de vida ou, ao invés, um impulso extraordinário para a erradicação da pobreza, para o combate à exclusão e para a democracia.

Se a tecnologia nos tornar supérfluos nas tarefas rotineiras e na perspetiva operacional, concordo com o robô Sofia, tanto melhor, ficaremos com tempo para outras coisas, para a arte, para pensar, para o voluntariado, para sermos.

Devemos então encontrar uma nova forma de redistribuir a riqueza que não esteja exclusivamente dependente do trabalho e que possa ser, por isso, mais equitativa. Um rendimento universal que permita a quem pode, em liberdade, dar corpo à inovação, à criatividade e, a quem não pode, assegure um lugar digno na sociedade.

Se um dia valermos mais por sermos cidadãos do que por sermos trabalhadores, teremos um ganho civilizacional extraordinário. Os que não têm competências, os que estão doentes ou incapazes, os que decidem dedicar-se à família, os que nunca encontraram um posto de trabalho, todos terão um lugar digno na sociedade, porque o trabalho deixou de ser o mote e o objetivo prioritário das nossas vidas.

Então as pessoas são dispensáveis? Não se soubermos garantir que ninguém fica para trás e se entendermos a tecnologia como um instrumento para democratizar o acesso à cultura, à educação e à saúde.

Podemos ser substituídos por robôs e por outros instrumentos tecnológicos em determinadas atividades, mas não acredito que possamos ser substituídos na dimensão emocional, na dimensão dos afetos, na dimensão criativa.

Podemos ver a projeção holográfica do nosso filho que está à distância, falar com ele por Skype todos os dias, mas creio que ainda não conseguiram virtualizar o cheiro, o toque e o calor do abraço.

Afinal, são as pessoas que idealizam todos os avanços técnicos e científicos e mesmo que amanhã a inteligência artificial consiga reproduzir-se e gerir-se a si mesma, só nós temos a capacidade de sonhar e de ser líderes.

Por último, importa falar das pessoas que usam a tecnologia, a todos os níveis. Delas e do seu bom senso depende a manutenção do poder e do domínio do ser humano. Se não se escravizarem à sua utilização, se continuarem a preferir saltar em paraquedas em vez de se limitarem a experimentar em realidade virtual, se continuarem a optar por estar com as pessoas olhos nos olhos, nada afetará a nossa humanidade.

Pelo contrário teremos finalmente o ócio de Agostinho da Silva, para fazermos o que só nós, de acordo com as palavras mágicas de António Damásio podemos fazer, sentir!

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Sobre o autor

Paula Guimarães

Paula Guimarães é Diretora do Gabinete de Responsabilidade Social do Montepio Geral, administradora das Residências Montepio, Membro da Direção da Juniors Achievment e Presidente da Direção do GRACE, em representação da Fundação Montepio e Formadora voluntária. É ainda docente na Universidade de Aveiro e na Universidade Católica. Antes das atuais funções foi animadora da Rede Temática Equal para a capacitação de reclusos e ex-reclusos que conciliou com a coordenação da... Ler Mais