Em Moçambique, quando se pergunta a alguém se está tudo bem, a resposta típica é “tudo bem, na medida do possível”.

Ontem, ouvi um dos nomes sonantes do empreendedorismo local (Alfredo Cuanda) a dizer “tudo bem, na medida do impossível”. Achei caricata a expressão, pelo quanto esta revela sobre o cenário atual que se vive no país.

Moçambique viu nos primeiros 10 meses de 2016 a sua moeda a depreciar mais de 42%, descobriu em abril uma dívida no valor de 1,4 mil milhões de dólares, correspondente a 10,7% do seu PIB, o que fragilizou as relações com a comunidade de doadores e obrigou a um novo envolvimento com o FMI. No que trata ao ambiente político, o país encontra-se num clima de tensão que coloca em causa o acordo de paz assinado em 1992.

Mas este ano foi, como disse o Alfredo, “tudo bem, na medida do impossível”. Face a todas as adversidades apresentadas pelo mercado, há um ecossistema cada vez mais vibrante que começa a afirmar-se na arena internacional.

2016 ficou também marcado pelas 3 premiações internacionais de duas start-ups moçambicanas, a UX e a IzyShop.

Fascina-me o facto de Moçambique ter um ecossistema de start-ups com apenas 3 anos que, por si só, não tem dimensão para ser altamente rentável, mas que existam empreendedores dispostos a quebrar estas barreiras e a desenvolverem-se com uma ambição global.

Neste ano, em Acra, no Gana, a UX venceu o Making All Voices Count – Global Innovation Competition com o projeto MOPA focado na monitoria participativa para a recolha de resíduos sólidos na zona periurbana de Maputo, em colaboração com o Município da Cidade. Meses mais tarde, a empresa partilhou também o pódio no African Entrepreneurship Awards em Casablanca, Marrocos, onde concorreu com o seu mais recente projeto biscate. O biscate é um aplicativo que liga trabalhadores informais de uma classe desfavorecida (por ex: eletricistas, carpinteiros, etc.), e sem acesso à internet, a clientes de classe média e média-alta que procuram estes serviços, através de smartphones.

Por fim, a IzyShop, um supermercado online que liga pequenos e médios produtores a consumidores na internet, representou Moçambique no Slush Impact, na Finlândia, onde foi também vencedora.

A história repete-se. No século XVI, Yasuke, que fora servo de um jesuíta italiano, foi, possivelmente, o único samurai africano e, provavelmente, o primeiro herói conhecido do território moçambicano. Anos mais tarde, Yasuke tornou-se intemporal e já foi protagonista de um romance histórico para crianças, fonte de inspiração de uma campanha da Mitsubishi e personagem de um jogo para PlayStation 2.

Serão os empreendedores moçambicanos os seguidores de Yasuke?

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Sobre o autor

Frederico Silva

Frederico Silva é fundador e diretor-geral da UX. Moçambicano determinado e com trabalho já premiado, reuniu experiência antes de criar a sua própria empresa enquanto diretor da LG Electronics Moçambique, consultor da Rio Tinto e gestor de marketing e de vendas da MultiChoice e da SuretelCommunications em Moçambique. É cofundador do portal Emprego Moçambique e Emprego Angola, bem como do Biscate.