Numa altura em que a igualdade de género no universo tecnológico está  na ordem do dia, cinco fundadoras europeias partilham a sua experiência como líderes e criadoras de start-ups.

A redução das desigualdades laborais está cada vez mais na agenda política e sucedem-se as iniciativas europeias –  como o 2018 report on equality between women and men in the EU – sobre a igualdade entre homens e mulheres na União Europeia, com medidas concretas a adoptar pelos Estados-membros.

A realidade é que a contribuição das mulheres nos negócios torna-se cada vez mais visível e um novo estudo, da BCG, descobriu que as start-ups fundadas ou cofundadas por mulheres têm um melhor desempenho do que as criadas por homens. O fato é que as mulheres têm conseguido um bom desempenho como empresárias e em condições de auto-emprego. E para as mulheres que preenchem as fileiras de start-ups tecnológicas europeias, essa questão é muito revelante, porque as fundadoras e CEOs não só se sentem, geralmente, mais confiantes para assumir posições de liderança, como revelam ter muitas potencialidades e começam a estar em maior número do que nunca.

Eis os testemunhos de cinco mulheres criadoras de start-ups, identificadas pela EU Startup Magazine, que estão a desafiar o status quo e o mundo tecnológico dominado pelos homens, com um novo conjunto de regras. Partilham a sua experiência, com vitórias e dificuldades, e ainda deixam alguns conselhos.

Bozena Rezab
Bozena Reazb tem 15 anos de experiência em negócios de marketing e tecnologia. Veio de funções em start-ups com muito adrenalina, empresas de media e de tecnologia. Agora é a CEO e cofundadora da principal start-up de gaming – GAMEE – fundada em Praga em 2014. De acordo com esta profissional “esta é uma ótima altura para as mulheres entrarem nesta indústria”. Mas, refere, trabalhar num setor dominado por homens, como é o caso da tecnologia, não é fácil. Contudo, ultimamente, mais e mais mulheres estão a juntar-se à indústria de jogos através de muitas funções, desde designers a fundadores e líderes de empresas.

A sua experiência neste mundo foi tudo menos discriminatória. De facto, frisa, foi exatamente o oposto. “Como muitas empresas estão a promover a diversidade e a dar prioridade a equipas variadas, esta é uma altura boa para as mulheres entrarem nesta área”. Apesar disso, Bozena Reazb reconhece que, inconscientemente, as mulheres ainda se autolimitam muito, mas que devem deixar de o fazer.

Sofia Fenichell
É a CEO e fundadora da Mrs Wordsmith, uma inovadora plataforma de vocabulário que aplica a data science e a criatividade de Hollywood para transformar a forma como as crianças aprendem e melhoram o seu léxico. A Mrs Wordsmith é uma startup edtech que se propõe  criar o programa de vocabulário mais inovador do mundo.

Na opinião de Sofia Fenichell criar oportunidades está diretamente ligado com a força da ideia. Para si, construir uma equipa é a parte mais desafiadora de um negócio quando se é mulher, porque implica “trazer a bordo pessoas predispostas e sem preconceitos. Contratar e administrar como mulher tem seu próprio conjunto de desafios que precisam de ser aprendidos e abordados. Da sua experiência, aconselha as mulheres que querem assumir a liderança, a fazerem-se ouvir pela equipa: “contratem com calma e tentem conhecer as pessoas. Sejam firmes logo de início e se a química não está presente, avance para outra solução”.

Polina Frolova-Montano
Polina é cofundadora e diretora global de PR/Brand Marketing na JOB TODAY , um projeto com sede no Luxemburgo. Trata-se da principal aplicação de contratação móvel da Europa que ajuda as empresas a encontrar profissionais no prazo de 24 horas. Desde que foi lançada, em 2015, atraiu mais de 400K empresas para a plataforma, processou mais de 100 milhões candidaturas de emprego e trouxe a bordo investidores de nível mundial, como Accel, Mangrove, Felix, e Flint.

O seu trabalho consiste em alavancar a tecnologia para mudar a forma como as pessoas procuram empregos, facilitando a contratação ao conectar os empregadores e os candidatos disponíveis em questão de minutos, a partir do conforto de um dispositivo móvel.

Para Polina Frolova-Montano os recursos humanos em tecnologia são diferentes dos restantes setores em termos de género. Explica que  a “HR Tech é uma indústria maravilhosa para se estar, pois oferece o melhor de ambos os mundos: o setor de RH, que é tipicamente dominado por mulheres, e setor de TI onde os homens ainda representam a maioria dos trabalhadores.”

Também Polina revela que nunca se sentiu discriminada por ser mulher. Acredita, inclusive, que as mulheres nasceram para serem empreendedoras. “Temos uma predisposição natural para assumir vários papéis, responsabilidades diferentes. Comunicar, gerir conflitos, organizar, programar… são tarefas que realizamos diariamente na nossa vida privada e podemos, portanto, facilmente aplicar essas habilidades no escritório”.

Quando se trata de dar conselhos a outras mulheres fundadoras de start-ups, de forma a combater a discriminação, as suas palavras são inspiradoras: “como regra geral, qualquer fundador – mulher ou homem – não deve hesitar em pedir ajuda. Nem devemos debruçar-nos sobre o que as pessoas pensam ou esperam de nós. Para ser um empreendedor, tem que se ser um pouco louco e como a construção do seu negócio é um caminho arriscado e imprevisível, não importa se você é do sexo masculino ou feminino. Os únicos limites que impomos a nós mesmos estão nas nossas cabeças.”

Julie Walters
Julie é uma empresária que fundou seu terceiro negócio, Raremark, em Londres em 2015. Raremark ajuda as famílias afetadas por uma doença rara a encontrarem informações úteis e conexões. Julie trabalha no mundo tradicionalmente dominado pela investigação feita por homens. Uma área científica e técnica, com muitos obstáculos regulatórios para ultrapassar. A Biotech é um mundo muito competitivo, embora não necessariamente exclusivo. Julie observa que “poucas mulheres atraem financiamento nesta área, mas eu não posso dizer que alguma vez tenha sido alvo de sexismo”.

No entanto, de acordo com a experiência de Julie, o equilíbrio de género no seu setor ainda está longe de ser alcançado. “Muitas mulheres não assumem os riscos de criar um negócio e atrair talentos e financiamento, porque é um negócio inerentemente arriscado e que sabem que vai ter impacto na família e nas suas finanças. Têm realmente de ser extremamente apaixonadas pela mudança e ter apoios em casa para escalar um negócio”.

O seu conselho passa por construir uma equipa em casa e no trabalho para apoiá-la nesta viagem. E de seguida, aproveitar a oportunidade, superar os desafios que inevitavelmente vai enfrentar, aprender com o todo o processo e estar disposta a ouvir os conselhos dos mais experientes.

Lydia Yarlott
É a cofundadora da Forward Health, uma start-up cujo objetivo é conectar equipas da área da saúde em todo o mundo e capacitar os profissionais do setor para passarem mais tempo com seus pacientes. Fundada em 2016, em Londres, a Forward foi mencionada como a número 2 no “Reino Unido Hottest healthtech Startups” e já somou inúmeros prémios.

Tal como Bozena, Lydia reconhece que a indústria de tecnologia é dominada por homens. No entanto, “isso não quer dizer que não haja algumas mulheres incríveis lá fora, fazendo coisas incríveis. A questão é que essa tecnologia é classicamente mais apelativa para os homens do que para as mulheres. Veja-se o mundo dos jogos, por exemplo”.

Esta empreendedora acrescenta que algo está a mudar na tecnologia e que são procuradas novas skills à medida que o mercado evolui. As mulheres podem ser a resposta certa para preencher essa lacuna.  “Acredito que a predominância de homens sobre as mulheres em tecnologia é suscetível de mudar, enquanto tecnologia com um rosto cada vez mais humano, veja-se a Alexa, por exemplo. Estas tecnologias requerem uma fusão de diferentes formas de intuição e capacidade para ser eficaz, e isso é certamente onde as organizações com um alto nível de diversidade podem ganhar”. Lydia salienta ainda que a solidariedade feminina é fundamental.

Finalmente, mesmo quando as coisas acontecem da forma como deveriam, ela sugere que tente encontrar o lado positivo. Planear a vida e a carreira com a precisão pode ser eficaz, mas nunca irá surpreendê-la verdadeiramente. Seja aberta ao que quer que venha em sua direção. “Eu nunca esperei trabalhar em tecnologia ou ser cofundadora de uma empresa de saúde, mas agora não olho para trás. E se estiver em desvantagem numérica, por idade, religião, etnia, antecedentes ou sexo, lembre-se que pode ter um conjunto de opiniões válidas para os outros aprenderem e que isso pode ser uma vantagem”.

Em conclusão, o quadro geral parece ser positivo. Mais e mais empresários do sexo feminino pertencentes ao ecossistema europeu de tecnologia estão positivamente conscientes de suas capacidades de liderança e não ameaçados por seus homólogos masculinos. No ano que passou, as mulheres na tecnologia ganharam mais dinheiro, criaram empregos e mudaram o mundo como nós o conhecemos.

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