A ‘Geração Y’ interessa-se cada vez mais pelos fundos que incorporam critérios ambientalistas, sociais e de bom governo. Como investidores, são menos conservadores, mais preparados e mais consciencializados com a sua envolvência.

A crise não só reconfigurou a ordem e as relações económicas, como também deixou espaço para uma nova leva de investidores com uma cultura financeira mais atrevida e exigente. A Geração Y, as pessoas nascidas entre os anos 80 e princípios dos 90, afastaram-se da figura tradicional para converterem-se em clientes com novas e diferentes prioridades. Procuram o lucro, mas não lhes serve qualquer via para o conseguir; querem rentabilidade, mas não a qualquer preço. São millennials, mas socialmente responsáveis.

A sua tomada de posições explica em parte o auge dos fundos de investimento socialmente responsáveis (FISR), isto é, fundos que configuram a sua carteira com empresas que incorporam critérios ambientalistas, sociais e de governança (ASG). Só entre 2014 e 2016, o volume movimentado por estes fundos cresceu 25% a nível mundial e 12% a nível europeu, segundo o Estudo Global do Investimento Sustentável 2016 (GSIA, na sigla em inglês), citado pelo El Mundo.

“Os millennials têm uma visão investidora mais ampla, são mais globais, possuem maior cultura financeira, estão mais preparados e são mais seletivos na hora de tomar decisões”, explica Francisco Isidro, diretor de Programas de Finanças da EAE Business School e coautor do estudo ‘Os Fundos de Investimento Socialmente Responsáveis’ juntamente com Ricardo Zion e Yanna Stefanu.

Há um interesse crescente dos particulares por estes produtos, mas nem sempre foi assim. Com efeito, os investidores institucionais, especialmente os fundos de pensões, continuam a ser os principais mandantes. Eles foram os primeiros a deixar-se seduzir pelos regulamentos que auspiciavam este tipo de produtos financeiros e pouco a pouco essa tendência estendeu-se ao segmento dos particulares, que em 2014 apenas representavam 3,4% do total e em 2016 já eram de 22%.

Os especialistas concordam com o facto de as novas gerações integrarem o mundo das finanças com uma consciência diferente “e de querem investir de maneira coerente com os seus valores”, acrescenta Sophie del Campo, diretora geral do Natixis Global Asset Management na Península Ibérica e América Latina.

Preocupados com o meio-ambiente

Os resultados do ‘Estudo Global de Investimento 2016’ elaborado pela Schroders em 28 países realçam que a Geração Y concede maior importância aos critérios ASG (7,3 pontos em média) do que os investidores maiores de 35 anos (6,6 pontos).

Os critérios ambientais continuam a ser os mais procurados, com 337 fundos e um nível de investimento de quase 32 milhões em 2015, de acordo com os dados recolhidos pela ESE Business School. Seguem-se os fundos que têm por base critérios de dimensão social (188 com 10,7 mil milhões de euros de investimento) e em terceiro lugar encontram-se os que se regem por questões de governança.

A fotografia em Espanha é um pouco diferente. As estruturas e decisões corporativas são as que mais pesam nos investidores, atendendo às conclusões da análise da Schroders. Os espanhóis inquiridos deram uma importância de 7,1 a este aspeto, o que representa várias décimas acima dos restantes critérios e também dos restantes países europeus.

“Ter um bom governo corporativo é fundamental”, assegura Enrique Garrido, responsável do Serviço de Gestão de Carteiras do ISR da Tressis. “É o pilar das restantes decisões que se tomam na empresa e se não é sólido e fiável, repercute-se sem dúvida na imagem e na credibilidade da empresa”, acrescenta.

O impacto da corrupção

Basta recordar exemplos recentes como o dieselgate e os seus efeitos sobre a Volkswagen; a reação dos mais viciados no café quando conheceram as práticas de engenharia fiscal da Starbucks ou a “chicotada” que a espanhola OHL sofreu na Bolsa quando no início de maio foi objeto de uma investigação por parte da Audiencia Nacional.

Os investidores fogem das más práticas, inclusivamente quando parecem suspeitas. “Uma empresa que esteja envolvida em casos de corrupção é o pior que lhe pode acontecer”, comenta Garrido. A crise económica de 2008 destapou numerosos casos deste tipo “e desenvolveu uma maior sensibilidade para o bom governo e para a necessidade de investir em empresas com dirigentes sérios e sólidos”, refere Sophie del Campo.

“84% dos millennials afirma que renunciariam a um posto de trabalho se descobrissem que a sua empresa está mergulhada em práticas corruptas”, ilustra Francisco Isidro.

Este facto não passou despercebido nem para as empresas nem para os gestores. As empresas organizam-se cada vez mais, tendo em consideração estes aspetos e os gestores começam a dar conta de que investir em critérios socialmente responsáveis traz qualidade ao seu trabalho. “Nós estamos em crer que isto tem sentido”, afirma Enrique Garrido, que explica que na Tressis valorizam positivamente que os gestores tenham posturas de ativismo acionário e engagment.

Também os investidores deram conta de que este tipo de fundos melhora a sua eficiência financeira, refere Jaime Silos, presidente da plataforma Spainsif. Na sua opinião, há que realçar porque os fundos ISR cresceram até agora e porque o continuarão a fazer no futuro e enumera dois motivos: millennials e mulheres. “Uns e outros vão tomar o controlo da gestão de patrimónios familiares e particulares e a sua maior sensibilidade para aspetos sociais e ambientais desequilibrará a balança”, explica.

Japão lidera ao nível dos fundos socialmente responsáveis

A Espanha é um dos mercados mais imaturos no que se refere a fundos socialmente responsáveis. A crise submergiu o setor numa letargia da qual pouco a pouco começa a despertar. O maior crescimento nos últimos anos registou-se no Japão, onde os ativos geridos como FISR subiram 680%; seguem-se a Austrália e a Nova Zelândia (258%) e o Canadá (150%). Nos Estados Unidos, o aumento foi de 38%, enquanto que em toda a Europa os FISR são 1.138 e representam 53% do total de fundos geridos.

A Suécia foi pioneira em promover estes veículos financeiros online devido à sua elevada consciência pelos temas sociais, ambientais e éticos. Atualmente tem 43 FISR, um número quase irrisório ao lado dos 395 que se encontram em França ou dos 197 da Bélgica. No leste da Europa, o número é residual e excecionalmente é contabilizado um na Lituânia, Polónia, Eslovénia e Hungria.

Na Espanha há 23 fundos geridos que a colocam no 10º lugar do ranking continental e que movimentam um volume de 2,2 mil milhões de euros. 84% do património está concentrado em somente três fundos e a proporção de investidores minoritários (inferior a 2%) é muito mais baixa do que a média europeia (22%). Há muito para fazer e isto não é necessariamente negativo. “Precisamente por isso, goza de um grande potencial de desenvolvimento”, diz Isidro.

“Agora mesmo está a ocorrer o que vimos anos atrás noutros países vizinhos”, comenta Sophie del Campo, aludindo ao boom que começa a evidenciar-se. A crise, o impulso institucional e regulatório e a maior sensibilidade da população são, na sua opinião, os três detonadores da mudança. “Os clientes estão a começar a conhecê-los e as perspetivas são prometedoras”, afirma.

A explosão da procura provoca automaticamente um crescimento dos produtos e ativos disponíveis no mercado. Existem os de rendimento variável (46%), de rendimento fixo (30%), mistos (24%) e com diferentes rentabilidades.

Esta é, precisamente, uma das maiores reservas que são colocadas a este tipo de fundos. Os seus detratores afirmam que os rendimentos que geram não podem comparar-se com os fundos tradicionais, mas os analistas consultados afastam esta hipótese e falam claramente de “mito”.

O estudo da EAE conclui, depois de observar os 1.372 fundos que se comercializam em Espanha, que nos últimos cinco anos mais de 100 tiveram uma rentabilidade superior a 14% e em mais de 600 ultrapassou os 5%.

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