Para Miguel Coelho, falhar em grande é uma das melhores coisas que pode acontecer aos empreendedores. O fundador e diretor da FailBIG Summit explica-nos as razões para os falhanços serem os melhores métodos de aprendizagem de todos nós e sobre como há sempre lições positivas a serem retiradas de casos como o da Chic By Choice.

Como é que podemos falhar melhor? Este é um dos temas que vai estar no centro da discussão da FailBIG Summit, uma conferência sobre falhanços que se vai realizar em Lisboa, no próximo dia 22 de maio, no Porto, no dia 15 de junho, e em Macau, a 18 de outubro.

Como surgiu a ideia de criar uma conferência sobre o falhanço empresarial? Um FailBIG Summit?
Este summit é talvez o evento mais delicioso que já organizámos e tem uma ideia base muito particular e que é universal: ninguém gosta de falhar ou de admitir que falha ou que vai falhar, mas qualquer pessoa ou empresário bem-sucedido, ou com vitórias assinaláveis no seu percurso, falhou muito mais do que os demais à sua volta. Curioso, não é?

E quando perguntamos de forma honesta e direta o que levou aquela pessoa em particular a ter sucesso, a mesma ideia está na base de quase todas as respostas: errei muito, falhei muito, tentei muito, fracassei muito. E é por isso que tenho todo este sucesso!

O fracasso e o falhanço têm de ser altamente acarinhados e valorizados. Não há outra forma de colocar o tema… e pareceu-me que falar nisto nesta altura. Com um espírito renovado, com algumas das pessoas mais bem-sucedidas que conheço, poderia ser muito interessante.

Em que é que consiste o evento?
O Failbig Summit é uma oportunidade para levar os participantes e a sociedade e empresas em geral a pensar: já que vou falhar, será que eu sei falhar bem? É possível falhar melhor, com mais ritmo, com mais aprendizagem, com mais valor? Poderia ser possível falhar mais rápido, mais cedo, de forma menos dramática e com maior crescimento de todos? Será que falhar é uma forma inteligente de crescer?

Vamos ter Business Angels, empresários, empreendedores, ex-presidiários, escritores, candidatos a empresários, start-ups, criadores, investidores, especialistas em talento e crescimento empresarial, craques do digital… enfim, um leque genial de pessoas e figuras públicas reconhecidas que já falharam tanto que nos podem dizer alguma coisa sobre o tema.

Vai ser um dia inteiro a falar do conceito de como falhar melhor, falhar mais cedo, falhar a pensar para a frente e não para trás. E no final vamos ter, pela primeira vez, uma Failbig Party para os mais atrevidos poderem assumir e celebrar o facto de que falhar é a coisa mais natural da natureza humana.

Foi fácil reunir um leque de oradores de reconhecida idoneidade?
Muito fácil… a adesão de nomes como a Isabel Neves, do Shark Tank versão portuguesa, do Stephan Morais, ex-diretor da Caixa Capital e presidente do Harvard Club Portugal, do Tim Vieira, que todos conhecem como investidor, e da Sandra Correia, fundadora da marca Pelcor e empresária do ano da União Europeia, foi imediata quando lhes expliquei a ideia e o propósito.

Fiquei particularmente entusiasmado por ver os sorrisos nas caras deles quando falámos sobre este summit… a ideia mais comum nas respostas deles foi: “Finalmente…!” Um bom fracasso nunca se desperdiça.

Que mais-valias espera que este evento traga aos empreendedores nacionais?
Não tenho qualquer pretensão que o evento ensine o que quer que seja a ninguém. Não há lições de moral ou nenhuma moralidade envolvida ou qualquer verdade a tirar, mas acho que há que assumir com humildade, mas com ambição, que o sucesso de qualquer empreendedor e as etapas conquistadas vêm de muita ação, de muitos erros acumulados, de muitas tentativas fracassadas, de toneladas de más decisões…

Tenho a certeza que vai haver mais iniciativa, mais sucesso, mais competência e maior número de empresas a crescer se conseguirmos tirar o medo de falhar da equação. Muitos empreendedores, com start-ups ou dentro de organizações, nunca avançam com força nas suas ideias porque o medo de falhar os paralisa.

Ou avançam tão timidamente que já se preparam para fracassar à primeira curva… ou pior ainda: não fazem nada porque é melhor nem seguir para a frente com o projeto com medo que alguma coisa falhe. A verdade é que há sempre alguma coisa que falha, mas falhas melhor se estiveres preparado para isso… mentalmente e com os processos certos. É isso que vamos todos aprender e construir no Failbig Summit.

Para além de Lisboa, está também prevista a realização do evento no Porto e em Macau. Já há datas definidas? Vai seguir o mesmo modelo da edição de Lisboa?
Sim. Em Lisboa no dia 22 de maio, no Porto a 15 de junho e em Macau no dia 18 de outubro. É possível que haja mais eventos em 2018, em Portugal, mas ainda não é certo. Estamos já a planear por convite eventos do Failbig Summit em Espanha, Brasil, Holanda e Alemanha em 2019 e 2020.

Só queríamos fazer em Lisboa e Porto, mas os convites e desafios começaram a suceder-se e estamos com uma equipa muito empenhada em fazer deste o melhor evento de falhanço e fracasso do planeta! Vamos fazer um evento de cada vez, com muito falhanços à mistura… e se falharmos não há problema porque é mesmo o tema do summit.

O Miguel acredita que “falhar em grande” é das melhores coisas que pode acontecer a cada de um de nós… Porquê?
Se falhares pequeno aprendes pequeno. Se falhares em grande também aprendes em grande!! Apenas isto…

É preferível um falhanço épico e espetacular, com o qual cresces a sério, do que pequeninos e tímidos falhanços que pões debaixo do tapete e que não te levam ao crescimento pessoal e profissional.

Um bom falhanço na altura certa pode ser a melhor coisa que te pode acontecer na vida

Até podemos fugir dele durante algum tempo, mas vai haver um dia onde a vida pessoal e profissional te ensina que aquele falhanço, onde choraste e te lamentaste (e que se calhar continuas a lamentar até hoje…), foi o teu ponto de viragem para um lugar melhor!

Só temos uma vida! Aproveita cada falhanço como se fosse único e precioso… porque é! Um bom falhanço é um tesouro que tens de saber reconhecer e interpretar e depois aprender com ele e pôr em prática o que aprendeste. É isto.

Porque é que os portugueses continuam a olhar para o falhanço como algo negativo, contrariamente ao que acontece na cultura norte-americana, por exemplo?
Um falhanço tem sempre uma carga negativa. Não são os portugueses, são todos os 8 mil milhões de seres humanos no planeta. Há uma carga emocional negativa imediata que produz cortisol no nosso cérebro, proveniente da ansiedade que gera falhar ou pensar que se falhou. Acho que os portugueses são extraordinários no que têm feito historicamente. Temos uma base de cultura dos últimos 80 anos que provocou menos iniciativa e projetos do que deveria ser, mas Portugal e os portugueses são notáveis quando decidem fazer coisas. Os portugueses são do melhor que existe quando estão determinados a conquistar as suas batalhas. Se conseguíssemos modificar a forma como olhamos o falhanço e o fracasso seríamos imbatíveis…

O falhanço faz parte do sucesso. Estarão os empreendedores familiarizados com esta frase que é muito transmitida no mundo dos negócios?

Acho que é uma frase feita que é dita sem peso e sem sentimento. Fica bem dizer de forma leve mas conheço muito poucos – mesmo muito poucos – que sejam capazes de viver essa frase. É preciso coragem, um amor próprio gigante, uma capacidade de superação pessoal e um gosto pela vida particular para saber viver esse lema… e não apenas dizê-lo.

Quem falha mais: as mulheres ou os homens? Há algum padrão nesta dicotomia?
Acho que as mulheres sabem falhar melhor do que os homens! Ponto! São mais corajosas em muitas áreas da vida do que alguma vez os homens serão… também tentam mais, também se esforçam mais, estão melhor equipadas emocionalmente do que os homens. Nasceram com a sorte do lado delas nesse campo. E desafio qualquer homem a provar-me o contrário. Acho que vamos ter um excelente debate precisamente nesse tema entre homens e mulheres de sucesso no Failbig Summit de Lisboa.

Certamente que o Miguel já falhou ao longo da sua carreira? Que aprendizagens retirou dessa experiência?
Falhei muito mais do que alguma vez quis admitir, mas falhei muito. Já fechei empresas e negócios, já fiz péssimas contratações por responsabilidade própria, já frustrei completamente expectativas de clientes e equipas, já fui despedido com estrondo e já fui dispensado com carinho, já fiz investimentos que não correram bem, já dei por mim a passar ao lado da família, já negligenciei o meu equilíbrio, a minha saúde e o meu tempo…

Acho que em todas as vezes que falhei mais foi comigo próprio… quando fazes coisas ou abres negócios ou aceitas funções empresariais que não se alinham com quem tu és ou com o que tu acreditas e podes pôr em prática, quando não tens essa coragem de seguir os teus valores pessoais e os fundamentos da tua marca pessoal já te estás a atirar ao falhanço. Até podes parecer bem-sucedido, mas falhaste no teu propósito interior.

Esse é o maior falhanço possível: passares ao lado da vida que podias ter vivido em pleno e em total profundidade com as tuas convicções e valores.

Tens de falhar o mais cedo possível, e para isso é preciso fazer coisas o mais cedo possível, tens de falhar rápido, tens de falhar a pensar no futuro. Escreve isto na tua agenda: Fail Fast, Fail Often, Fail Foward.

Que recomendações dá a quem está a abrir um negócio?
Queres ter uma start-up? Prepara-te bem para falhar! Vais mesmo falhar, quer queiras quer não. Melhor conselho: desenvolve um bom kit de falhanço. Não traz pensos rápidos e ligaduras e pomadas milagrosas, mas vais curar mais rapidamente as tuas feridas expostas pelo facto de seres empreendedor ou empresário.

Investe bem nisso. Tenho emprestado o meu kit do falhanço a muitas pessoas à minha volta e tem sido muito útil

Estarão os empreendedores portugueses preparados para enfrentar fracasso?
Muito melhor hoje do que há dez anos. Somos, hoje em dia, um dos melhores povos nesse campo. Mas há que assumir essa parte sem vergonha e sem complexos. Acho que nessa área há muito para fazer. Todos querem o pódio das vitórias, mas ninguém quer assumir o preço de lá chegar. Querem ter uma bela foto no Facebook ou no Instagram a falar das suas micro vitórias e nunca se disponibilizam para partilhar os seus fracassos e como esses fracassos os tornam mais fortes e mais humanos perante todos à sua volta…

O preço do sucesso é estares disponível e preparado para fracassar mais do que as pessoas à tua volta. Só porque tentaste mais…

Será que o [Cristiano] Ronaldo seria quem é hoje senão tivesse preparado para falhar? Todos sabem de cor os golos que marcou, quando marcou, a quem marcou, mas ninguém se lembra de quantos remates falhou, quantos passes não conseguiu, quantas faltas cometeu, quantas vezes levou cartões amarelos ou vermelhos ou quantas vezes passou ao lado do jogo. Todos festejam o Ronaldo, estrela mundial de hoje, mas ainda me lembro quando era contestado por jogar mal, que não tinha personalidade para ser capitão de equipa ou quando era demasiado arrogante e não sabia falar para uma câmara de televisão… só evoluímos quando fazemos.

Adoro quando o Ronaldo joga ainda melhor quando é assobiado! É simplesmente genial. Será que o empresário ou o gestor ou o chefe de equipa sabem trabalhar melhor quando são “assobiados” na empresa??…

Que análise retira do recente caso da falência da Chic By Choice que chegou aos media não como uma aprendizagem, mas como um caso que acabou por trazer ao de cima os aspetos menos positivos de uma empresa?
Não quero comentar o caso, até porque o acompanhei de perto o projeto e tenho amizade com a Lara e com a Filipa, mas há muitos mais fatores para o que foi escrito do que se pode dizer aqui.

Foi um falhanço com impacto, como se viu de tudo o que se disse e escreveu, e há muitas lições e princípios a tirar do caso Chic by Choice. Quem for ao Failbig Summit vai ter oportunidade de analisar connosco toda a envolvência Chic by Choice e como este failure pode ser uma das melhores coisas que aconteceu recentemente no sistema empreendedor português. Por ter sido tão debatida, a oportunidade que nos traz de aprender e crescer é imensa.

Pessoalmente preferia que a Lara e a Filipa estivessem com a empresa hoje de muito boa saúde e a ganhar muitos prémios e reconhecimento e tivessem um resultado de exploração saudável e um business model sólido. Mas acho que muitos dos fundamentals que não estavam lá e que levaram ao falhanço devem ser analisados como algo muito precioso e não como algo que todos querem esquecer e seguir em frente.

E quero muito que a Lara e a Filipa apareçam rapidamente com mais e melhores projetos. Elas merecem ser acarinhadas, tal como todos os fazedores… coragem para avançar e determinação para levar projetos para a frente é um dos bens mais escassos e temos que o incentivar. Fracassar faz parte do caminho do sucesso.

Desconfio que ainda vamos ouvir falar muito delas.

Tem algum caso de falhanço, nacional ou internacional, que o tenha inspirado e que queira partilhar?
A Porsche e a YDreams do António Câmara.

A Porsche porque esteve para fechar nos anos 80 porque não conseguia ter encomendas para se manter aberta, e foi um gestor alemão que conseguiu fazer um turnaroud [recuperação] memorável a uma das marcas mais reconhecidas a nível mundial. Um near failure [quase falhanço]foi a oportunidade de mudar toda uma cultura e uma forma de operar.

Na YDreams, admiro a tenacidade do António Câmara. Foi uma empresa que impulsionou muitas ambições digitais em Portugal, apesar de não ter corrido bem. O António, apesar de todos o acusarem de ter falhado em grande, está a preparar-se para regressar com algo ainda mais ambicioso. Quando vi a entrevista do António Câmara a dizer o que aprendeu com o que falhou na YDreams e de como isso o preparou para todas as etapas seguintes deixa-me esperançoso que todos possam ver cada falhanço e cada fracasso como conquistas importantes que temos de saber aproveitar.

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