Tenho-me deparado nos últimos tempos com um tema recorrente nas conversas com os promotores quer de empresas já no nosso portfólio, quer de novos projectos – a importância das métricas na vida das start-ups, principalmente negócios digitais.

Todos sabemos que nas fases iniciais das startups – pre-seed & seed – os recursos das empresas são muito limitados e tipicamente o volume de informação quantitativa disponível tende a ser escasso. Até aqui nada de muito crítico, a limitação está na matéria prima, na escassez de dados para alimentar os modelos, e não faz sentido estar a perder tempo a inventar informação para apresentar resultados.

Este tema agrava-se quando as razões por detrás dessa falta de informação não estão verdadeiramente na sua inexistência, mas antes numa perceção de que o conhecimento empírico é mais relevante, e que construir um modelo de informação sustentado é trabalho para um financeiro que será contratado mais tarde, quando se conseguir investimento.

Promotores mais experientes tenderão a reconhecer a importância de ter um modelo de informação e métricas bem definidas e controladas, logo desde o início do projeto. Mas a verdade é que em Portugal a falta desta perceção é mais comum do que se poderia pensar, e uma (demasiado) importante fatia dos projetos aparecem ainda pouco preparados nesta vertente.

Acresce que o facto de no início dos projetos a informação poder, eventualmente, escassear, deveria funcionar como um factor facilitador do seu tratamento e não o contrário. De facto, existindo pouca informação, mais fácil se torna a criação, desde o início, de uma base de dados e de um modelo de informação estruturado.

Faço ainda notar que para mim, o mais importante não é ter esta informação para “investidor ver”. O que realmente releva é o negócio ser gerido no seu dia-a-dia com base nas análises e conclusões que a equipa retira dos resultados que vão sendo obtidos, dos testes de mercados que vão sendo feitos e dos erros que são sempre cometidos quando se está a começar e principalmente a inovar. Também não é preciso ter a informação sempre estruturada da mesma forma, no formato x ou y, estanque e pouco flexível. Tudo tem de ir ao encontro das necessidades do projeto. A informação tem de estar estruturada sim, mas para ser mais eficiente a produzir, ser mais fácil de analisar (interna e externamente), e ser rapidamente acionável facilitando a tomada de decisão. Se estiver com um design apelativo, melhor – como ex-consultor sei que ajuda, mas não é o fundamental.

Os números não podem estar só na cabeça dos promotores, e mesmo que não existam já dados concretos (porque não se vendeu nada, porque não se investiu em marketing, porque é preciso pagar para aceder aos dados na plataforma, etc…), devemos ter um modelo de informação estruturado e saber exactamente quais as métricas chave que devem ser acompanhadas de muito perto, colocando-as como uma prioridade no crescimento e no caminho crítico do sucesso. E que não o façam contrariados, o esforço não é para nós investidores é para todos os stakeholders da empresa atuais e futuros, e, no final, quem beneficia é o projecto.

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Sobre o autor

Francisco Ferreira Pinto

É sócio e administrador executivo da Busy Angels, um investidor em capital de risco com mais de 20 investimentos em start-ups tecnológicas nas áreas digital, ciências da vida e bens de consumo. Atualmente, é também membro da direção da APBA... Ler Mais