A Méliuz, start-up brasileira de cashback, estabeleceu há anos um plano de sociedade para os funcionários. Saiba como consegue reter talentos.

O que as empresas fazem pelos funcionários – ou o que o funcionário sente que o seu local de trabalho faz por si? Há anos que a Méliuz procura oferecer um benefício diferenciado a quem se juntasse à start-up de Belo Horizonte, no Brasil.

Em 2012, pouco depois de ser criada, o negócio inspirou-se em práticas de algumas start-ups de Silicon Valley e de empresas como o grupo 3G, de Jorge Paulo Lemann, e criou um sistema em que os melhores funcionários receberiam uma participação acionista na empresa de cashback (devolução de parte do dinheiro gasto em compras).

“Não tínhamos dinheiro para atrair talentos através do pagamento de um salário que o mercado propunha. Por isso, adotamos a prática de stock options”, explica Israel Salmen, CEO e cofundador do Méliuz. “É difícil construir algo grande e disruptivo sem dividir esse trabalho com pessoas que pensam como nós e que se destacam por seus resultados. Esta é uma forma de recompensá-los. Eu acredito muito que é dividindo que conseguimos fazer crescer o nosso bolo no todo”, acrescenta.

Hoje, na Méliuz 11% dos seus 150 funcionários são sócios da start-up. Salmen afirma que a start-up não usa mais a participação como forma de atrair talentos, mas sim como forma de os reter. “A necessidade virou estratégia de gestão de pessoas”, frisa.

Como funciona o “stock options”?

A Méliuz incorpora vários processos na seleção desde 2014. A start-up abre inscrições para quem quer se tornar sócio no início de cada ano. Os funcionários interessados devem escrever uma carta para os fundadores – Israel Salmen e Ofli Guimarães –, dando a conhecer o seu passado, o presente e o futuro de suas vidas pessoais e profissionais. Também devem anexar um documento com os resultados que trouxeram à Méliuz.

Com base nas cartas, os fundadores decidem quem será incorporado no quadro de sócios e anunciam a decisão no evento de apresentação dos objetivos anuais da Méliuz. Quem não for selecionado recebe orientações com dicas para progredir. “Eu realmente acredito na meritocracia: quando a pessoa está envolvida, merece e recebe mais”, afirma Salmen.

Na avaliação, os empreendedores consideram quer os critérios mais subjetivos – aderência à cultura da start-up, sentimento de pertença, otimismo e ética acima do lucro –, quer os aspetos práticos, como alcançar as metas trimestrais propostas na sua área de atuação.

Durante o primeiro ano com participação, o funcionário fica num patamar chamado “cliff”. Se sair da empresa ou for demitido, perde o seu direito a “stock options”. Esta é uma forma da empresa se resguardar de situações indesejáveis. Todos os anos, o membro recebe 25% do dinheiro relativo à sua participação (espécie de contrato de investimento conhecido como “vesting”). Em quatro anos, terá o valor total em mãos.

Para definir quanto vale a sua participação, a Méliuz recorre à avaliação definida na sua última ronda de investimento – por enquanto, a que ocorreu em julho de 2017. “Entregamos a stock options seis meses depois, que foram os melhores de nossa história. Ou seja, eles receberam participações que já valem bem mais sobre o que estão a investir”, diz o cofundador.

A participação acionista é um extra, além do salário já recebido pelos funcionários, e costuma ser o equivalente a seis vezes o valor da sua remuneração. O dinheiro investido em participação, no futuro, poderá transformar-se em ações, caso a empresa faça uma oferta pública inicial (ou IPO) na B3.

Quem já se tornou sócio da Méliuz também pode tentar um aumento de participação. Neste caso, o funcionário deve fazer uma nova carta de resultados e enviar para os sócios. Se for aprovado, recebe mais um pacote de “stock options”.

Tais participações não saem diretamente dos cofundadores, mas sim de uma percentagem da empresa conhecida como “pool”. Trata-se de uma reserva criada com as rondas de investimento recebidas pela Méliuz, de valores não divulgados.

Este ano, a Méliuz anunciou oito novos sócios e alcançou o valor 60 milhões de reais (cerca de 14 milhões de euros) devolvidos em cashback. Como meta da sua expansão, a start-up espera ultrapassar os 200 funcionários e continuar a apostar nos seus sócios.

 

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