Há uma pergunta que sempre me preocupou e a que sempre achei muito difícil responder. Qual é a vantagem de ser uma pessoa decente no trabalho?

A minha experiência nas universidades é que quem ganha são os ‘takers’ – pessoas com pouco mérito individual e que aproveitam o trabalho dos outros para subir, ao mesmo tempo que vão eliminando qualquer pessoa que tenha conseguido o milagre de subir uns degrauzitos por mérito próprio.

Na academia é fácil descobrir este tipo de pessoas. São os vampiros intelectuais. São pessoas que publicam com os alunos de doutoramento, para conseguir uma publicação rápida, comprometendo a capacidade dos alunos de dedicar o tempo necessário ao seu trabalho, para publicar melhor. São pessoas que se colam a professores famosos, oferecendo-lhes umas avenças na sua universidade, em troca de pôr o nome num par de artigos. Nas empresas, estas pessoas são as que conseguem sempre aparecer nas fotografias, em vez de quem realmente consegue atingir resultados. São as pessoas que se colam aos chefes com uma gosma feita de elogios falsos e de lealdade vazia.

Estes ‘takers’ sobem mais rapidamente na carreira, ganham mais dinheiro e têm mais sucesso do que as pessoas que fazem o trabalho de que os ‘takers’ se aproveitam.

Então, ser uma pessoa decente lá na empresa parece que só serve para alimentar as carreiras dos ‘takers’. As pessoas decentes são os totós que tornam possível esta estratégia.

Sempre pensei assim. Mas nunca desisti de ser um ‘giver’. Uma pessoa que ajuda os outros, que tenta que sejam os outros a brilhar e que, sempre que pode, os protege de vampiros intelectuais e de outros ‘takers’.

Sempre pensei assim, até ouvir uma pergunta que uma colega me fez um dia ao pequeno almoço, numa conferência em Montreal. Ela perguntou-me como é que eu tinha feito para publicar um artigo na Academy of Management Review (AMR), durante o doutoramento. Fiquei 10 segundos a olhar para ela. Não me lembrava de ter publicado nada na AMR e até gostava muito, porque é a melhor revista científica teórica de gestão. Mas depois lembrei-me de que tinha mesmo um artigo na AMR. Foi um artigo que eu escrevi, mas que depois foi melhorado por uma professora americana com quem eu trabalhava na altura, e claro que depois apareceram um par de ‘takers’ para pôr o nome no artigo.

Eu era novinho e ainda não dava luta. Respondi à minha colega que não via esse artigo como meu. Tinha o artigo no CV, porque ficava bem, mas nunca o sentia como um sucesso meu, porque só escrevi a primeira versão.

Logo a seguir a essa conferência em Montreal, ajudei uma colega a escrever um artigo. Ela tinha dados giros, mas não sabia o que fazer com eles. Dei-lhe a ideia, passei-lhe artigos para ler e desenhei-lhe o modelo do artigo. Mas disse-lhe que o trabalho era dela. Não queria aparecer como coautor. Ela pôs-me nos agradecimentos e, até hoje, tenho muito orgulho nesse artigo, porque foi uma verdadeira oportunidade para ajudar outra pessoa a brilhar.

E foi nessa altura que percebi. Os ‘givers’ não têm o mesmo critério de sucesso dos ‘takers’. Tinha vergonha de mim próprio, se chegasse ao fim da minha carreira e os meus melhores artigos tivessem sido feitos por outras pessoas. Tinha vergonha de mim próprio, se a minha carreira fosse feita de tomar o crédito do trabalho dos outros. Tinha uma crise de meia idade que nem o meu Caterham Seven curava. O meu sucesso é medido pelo trabalho que eu consegui fazer, sim. Mas o que é mais importante para o meu sucesso são os resultados que ajudei os outros a atingir.

É isso. É essa a resposta.

É melhor ser um ‘taker’, se o objetivo da nossa vida for aproveitar-nos do mundo que nos rodeia, para ter a melhor vida possível, com mais coisas e com mais poder.

Mas é muito melhor ser um ‘giver’, se o objetivo da nossa vida for contribuir para o mundo que nos rodeia, mesmo que os ‘takers’ olhem para nós como uns totós, porque não ganhamos nada com isso. Ganhamos sim, mas ganhamos num jogo diferente. E melhor.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of Management do MIT, e Mestre em Comportamento Organizacional, pelo ISPA. A sua escrita tem um tom irónico e provocador. O objetivo é ajudar os gestores a refletir sobre o que... Ler Mais