Na era da economia digital, não há negócio que não seja impactado pela tecnologia, nem indústria que fique imune aos seus efeitos.

Das comunicações eletrónicas (sector que, num certo sentido, já nasceu digital) à agricultura (um dos últimos sectores que se podia, até há alguns anos, reclamar como “analógico”, mas que se encontra num profundo processo de transformação digital), não parece sobrar sector, empresa ou organização que possa ignorar os efeitos indeléveis e irreversíveis da evolução tecnológica e do “domínio do digital”.

Até aqui, aparentemente, tudo bem – o mundo há muito que é digital e as empresas que estão determinadas em sobreviver e em assegurar a sustentabilidade do seu modelo de negócio, já interiorizaram esta realidade. Embora a velocidade estonteante a que a evolução tecnológica se vem registando seja muito exigente, requerendo que as organizações que pretendem acompanhar a mudança se dotem de gestores cada vez mais preparados para enfrentar os diversos desafios (jurídicos, operacionais, de contexto) que crescentemente se colocam, a verdade é que, se são muitas as organizações que já se prepararam para “o impacto da tecnologia”, são porventura poucas as empresas que se encontram verdadeiramente preparadas para um futuro que será dominado pela inteligência artificial.

E isto por muitos motivos. Tantos, que não cabem num texto curto como este.

Mas há um um tópico que merece especial reflexão e que, embora seja de magna importância, tem sido lamentavelmente pouco abordado no mundo corporativo: o dos imensos desafios que a inteligência artificial coloca em termos de ética empresarial.

A inteligência artificial veio para ficar e, independentemente dos receios que cause em cada organização ou a cada um de nós, tentar evitar ou sequer retardar os seus efeitos é tão inútil e gratuito quanto tentar parar o vento com as mãos. Há assim que procurar lidar com ela, extraindo o melhor que tem para nos oferecer e procurando minimizar as (inúmeras?) ameaças que coloca ao mundo empresarial tal como (ainda) o conhecemos.

Independentemente do destino ao qual este novo caminho nos venha a conduzir, há que não perder de vista uma realidade de grande relevo: pelo menos por enquanto, os algoritmos que estão na base da inteligência artificial e dos mecanismos de machine learning que lhe subjazem são “desenhados” por serem humanos. Esta circunstância tem tanto de bom quanto pode ter de mau: se por um lado pode conferir alguma “humanidade” a uma inteligência que é, pela sua própria natureza, “artificial”, pode ao mesmo tempo tornar este novo tipo de “inteligência” vulnerável a todos os (muitos) enviesamentos aos quais o ser humano se encontra inevitavelmente sujeito.

As organizações em geral e as empresas em particular, deverão assim procurar dar resposta a questões que até há pouco tempo não se colocavam sequer:

Que nível de controlo deverão ter sobre os processos de decisão levados a cabo por máquinas que aprendem (machine learning)?
Como assegurar que os sistemas de inteligência artificial adotados pela organização (e os algoritmos que lhes subjazem) funcionam de acordo com os core values da empresa?
Quem responsabilizar se assim não for?

O tema é tão sério, que são já muitas as organizações a dedicar-lhe a atenção que ele merece. Por exemplo, o Institute for Business Ethics (UK) desenvolveu umas linhas de orientação denominadas “Ethical Framework of Artificial Intelligence in Business”, destinadas a guiar as empresas a percorrer caminhos éticos neste novo e ainda muito desconhecido mundo da inteligência artificial.

Consciente dos desafios que as empresas enfrentam, o GRACE decidiu associar-se a este esforço e debater, no próximo dia 8 de junho em Lisboa, no contexto do “Encontro Ibérico” que anualmente organiza com a sua congénere espanhola (a Forética), justamente o tema “Inteligência Artificial e Ética Empresarial”. Com esta iniciativa, pretende o GRACE promover a reflexão, por parte das empresas portuguesas e espanholas, sobre as inúmeras e complexas questões que as organizações empresariais necessariamente terão de endereçar sobre esta matéria num futuro próximo.

*Em representação da Vieira de Almeida & Associados – Sociedade de Advogados

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Sobre o autor

Margarida Couto

Margarida Couto é licenciada em Direito e pós-graduada em Estudos Europeus, pela Faculdade de Direito da Universidade Católica de Lisboa. Integra a Sociedade de Advogados Vieira de Almeida & Associados (VdA) desde 1988, sendo a sócia que lidera a área de prática de Telecomunicações, Media e Tecnologias da Informação e a área de prática do Terceiro Sector e Economia Social. É a sócia responsável pelo Programa de Pro Bono e... Ler Mais