Antigamente, mais do que hoje, era fácil ver no café da aldeia (e da cidade!) um grupo de amigos que, encontrando-se todos os dias para uns minutos (ou horas) de bom convívio, comentavam tudo, todos e mais alguma coisa: se homens, o futebol, a política – os escândalos… as miúdas.

Nesses grupos, havia muitas vezes um “Maior da Aldeia” (“o Maior”), o tipo que toma a liderança da conversa, lança os temas, faz as afirmações mais contundentes e muitas vezes fecha o assunto, passando de um para outro sem grande sequência, mas com toda uma lógica. Para gáudio de todos, “o Maior”, temendo que ninguém perceba que o é (como se fosse possível!), vangloria-se das suas competências, capacidades de sedução e virilidade. Ele é “o Maior” “na empresa onde nada acontece sem que faça ou mande fazer”, é-o quando “engata as melhores”, é-o porque “agarrem-me senão vou-me a ele”…, pois com ele toda a gente se diverte mas “ninguém brinca”.

Sociologicamente (salvo seja!) é muito divertido analisar estes comportamentos de grupo, até porque ao lado de “o Maior” se encontram muitas vezes outros dignos representantes da espécie, entre os quais os não menos interessantes “Lambe-botas”, que se babam com tudo o que “o Maior” diz, certificando perante os restantes as suas competências e capacidades. O “Lambe-botas” é-o por frustração, por irrelevância, ou porque acredita que assim ganhará o respeito (o que nunca acontece) ou que “o Maior” um dia partilhará com ele algumas das suas conquistas… ou migalhas!

Por vezes “o Maior”, talvez por compaixão para com os comuns mortais, não se revela diretamente, afirmando-o, mas de formas, julga ele, mais subtis ou subliminares, tipo: “o Joaquim, na empresa, coitado, nada conseguia fazer e lá tinha eu de ajudá-lo”, ou “aquela giraça da Maria, ou seria a Joana, não me largava”, ou “nunca fui de lutas, mas quando tinha de ser…”.

Se tudo isto é divertido no café, é-o muito mais “na net”, nos atuais locais de sociabilização humana, sejam eles o Facebook, o LinkedIn ou outras redes e fóruns sociais, onde habita o novo “Maior da Aldeia Digital”, o MAD, que todos os dias coloca um post a glorificar algo ou alguém, mas sempre com o objetivo de se glorificar a si próprio. Junto ao “assunto” está a sua foto e/ou o seu nome. Ele é “hoje, sensibilizou-me a força destes jovens…” e lá está ele sorridente, destacado na foto, ou “hoje reunimos com esta empresa de sucesso, sem a qual o país não se desenvolvia”… e lá está ele, compenetrado, ou “hoje, neste evento TOP partilhamos conhecimento”… e lá está a sua foto ou o seu nome numa placa, ou “hoje, a empresa que tenho a honra de liderar lançou uma iniciativa de grande valor”… e lá está ele no centro das atenções.

Porque é hoje muito mais fácil postar do que era no passado tomar um café com os amigos e o alcance muito superior, o MAD todos os santos dias nos brinda com a sua presença digital, quase sempre “humilde e desinteressada”, seja numa “cidade estrangeira”, num “evento de superior qualidade”, numa “iniciativa benemérita” ou num “almoço com pessoas importantes”. O MAD, como quem não quer a coisa, tudo faz para que nunca nos esqueçamos de quão bom, bem viajado, bem relacionado, amigo de poderosos ou mesmo poderoso ele é.

Pessoalmente, considero “o Maior” bem mais interessante do que o MAD – que querem, esquisitices! – porque “o Maior” sempre me divertia com o seu sotaque, trejeitos ou manias…, além de que só tinha como motivação convencer os seus amigos, e não o mundo, da sua importância. Era mais inofensivo e bem menos “pain in the ass”!

Se “o Maior” sempre existiu, o MAD por cá anda e, dado o poder multiplicador e propagador das redes sociais, por cá andar cada vez mais e em maior número, e com maior capacidade para nos “entreter”.

Aos jovens, se me permitem, aconselho que se divirtam com os MAD, mas que não se transformem num. Para “figurinhas”, já bastam os da minha geração. Os jovens, se forem inteligentes, dedicam-se a viver a vida e a partilhar as suas vivências de forma saudável com os seus amigos, seja no café ou nas redes sociais, sem se preocuparem com o que deles possam pensar, nem pretenderem que pensem deles seja o que for.

Os que assim fizerem não serão MAD, mas serão, provavelmente, gente bem mais genuína, livre e feliz.

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Sobre o autor

Ricardo Luz

Ricardo Luz é empresário, sócio da Gestluz Consultores. É assessor da Administração da JADE Groupe, Vogal do Conselho Fiscal da 321 Crédito, Instituição Financeira de Crédito e Director do Porto Canal. É ainda Presidente Emérito da Invicta Angels, a Associação... Ler Mais