Habitat natural para negócios em crescimento. Este é o lema do Lispolis, Pólo Tecnológico de Lisboa que, duas décadas depois da sua fundação, reúne mais de 120 empresas e continua a apresentar-se como um espaço diferenciador no panorama nacional do empreendedorismo. Francisco Nunes Sá, administrador-delegado, revela algumas das iniciativas previstas para este ano.

O Lispolis foi o primeiro pólo tecnológico criado em Portugal, numa altura em que falar de start-ups e empreendedorismo ainda era uma miragem. Hoje, 27 anos depois da sua fundação, integra-se num ecossistema empreendedor onde predomina o dinamismo e a inovação. Mas o Lispolis também não deixa os seus créditos em mãos alheias e este ano assume uma viragem. A começar pela criação, já este mês, de uma aceleradora de e-commerce.

Qual tem sido o vosso contributo para o cenário que se vive hoje no ecossistema empreendedor nacional?
Quando o Lispolis apareceu nem se falava em start-ups nem em empreendedorismo. Falava-se em criação de empresas. Mas o Lispolis deu um contributo assinalável e podemos vê-lo de duas formas. Desde logo porque, desde a sua génese, teve um foco nas empresas de base tecnológica. A ideia era conseguir atrair para aqui, para esta área, as empresas de base tecnológica que também estão elas na base do conceito de start-ups. Por outro lado, o Lispolis foi servindo ao longo dos anos de modelo para a criação de outros parques de ciência e tecnologia em Portugal e para outras incubadoras e que hoje fazem parte do universo da rede de incubadoras que existe em Portugal e que são mais de 150. Finalmente, diria que foi também importante a resiliência do Lispolis enquanto organização. Isto é o Lispolis resistiu duas décadas em cima de um modelo de apoio à incubação e ao desenvolvimento de novas empresas até chegar ao ponto de poder transmitir, com propriedade, a ideia de que este negócio, e este modelo, pode ser sustentável. Porque o Lispolis hoje vive dos seus meios, não tem financiamento de ninguém.Vive do que gera e da sua própria atividade.

Visto de uma outra perspetiva, ao nível dos resultados, a verdade é que ao longo de todos estes anos passaram pelo Lispolis mais de 330 empresas, a esmagadora maioria das quais de base tecnológica. E também é verdade que muitas das quais nas áreas de tecnologias de informação, e muitas delas ainda hoje são bandeiras do ecossistema como a Critical Software, entre outras que nasceram e cresceram aqui e foram-se desenvolvendo. Portanto, todos estes são elementos que acabam por dar corpo àquilo que nós consideramos ter sido um bom contributo para o desenvolvimento do nosso ecossistema até ao ponto que ele chegou hoje.

2018 vai ser um ano absolutamente decisivo em termos de um novo impulso para o Lispolis (…) vamos dar o passo seguinte e avançar com nossa primeira experiência de uma de aceleradora de e-commerce.

Em duas décadas de existência quais foram os momentos mais decisivos na vida da Lispolis?
Desde logo o ato fundador, em 1991, quando o Lispolis foi criado por iniciativa do então Laboratório Nacional de Tecnologia Industrial, que agregou um conjunto de fundadores estratégicos, desde universidades à Câmara Municipal de Lisboa, para lançar este projeto. Para lançar o Pólo Tecnológico de Lisboa mas também uma entidade, a Lispolis que iria encarregar-se da gestão do seu Centro de Incubação e Desenvolvimento (CID). E esse foi o primeiro projeto e a primeira atividade do Lispolis.

Em 1994 fizemos o acolhimento da primeira empresa a instalar-se no CID e também nessa altura começamos a tratar da nossa adesão à IASP, a associação internacional de parques de ciência e tecnologia. Em 1997 entra em funcionamento o Fórum Tecnológico com capacidade para acolher eventos para cerca de 500 pessoas, com algumas salas também para eventos de menor dimensão. Em 2000 é celebrado o primeiro contrato de mandato entre a Lispolis e o INETI e, pela primeira vez, o INETI, que era, no fundo, a entidade detentora de toda esta área, entrega ao Lispolis a gestão de todo o Pólo Tecnológico de Lisboa. Em 2008, vale a pena realçar que o Lispolis passou também a gerir edifícios no chamado Campus do Lumiar. Em 2009 o Lispolis é o primeiro parque de ciência de tecnologia que obtém a certificação de qualidade.
Em 2013 é aprovada a nossa estratégia, a nova ambição, e, pela primeira vez, no Lispolis é definido um caminho, uma abordagem e um posicionamento relativamente àquilo que já começa a ver-se como uma pujança considerável que é o desenvolvimento do tal ecossistema, e em particular de uma coisa emergente, mas com grande relevância, que é o ecossistema empreendedor dentro da cidade de Lisboa.

Comemoramos o nosso 25.º aniversário em 2016 e, em 2017, temos um outro momento importante que é a instalação no Lispolis da universidade Europeia. É importante porque apesar de termos como associados fundadores universidades, não tínhamos nenhuma escola superior instalada no Pólo Tecnológico. A universidade Europeia fez essa aposta, e felizmente para nós, é uma aposta ganha, é para continuar e é para reforçar. Portanto, penso que, brevemente, iremos ter notícias interessantes a esse respeito.

Em 2017 lançamos também uma série de iniciativas nossas – e dentro de programas no âmbito do macro programa de apoio ao empreendedorismo o Startup Portugal – de apoio à fase inicial do ciclo das start-ups. Desde logo o StartupIn, mas também o Startup Voucher (onde acompanhamos nove projetos em todas as fases do processo), ou o Vale de Incubação. Estes foram processos que nós desenvolvemos em 2017.

2018 vai ser um ano absolutamente decisivo em termos de um novo impulso para o Lispolis porque, para além do início do processo de desenvolvimento da instalação de novas empresas, temos também processos de expansão de empresas que cresceram dentro do Lispolis. Depois de termos desenvolvido o nosso programa de incubação, vamos dar o passo seguinte e avançar com nossa primeira experiência de uma de aceleradora de e-commerce. Está em preparação e irá arrancar em julho com as candidaturas de empresas e depois iniciar a sua fase de operação de execução a partir de setembro deste ano.

E estamos também a trabalhar uma outra componente extraordinariamente importante que é uma renovação do nosso Centro de Incubação e Desenvolvimento, através da inclusão de um laboratório de inovação que irá reunir diversas entidades em termos de tecnologias de ponta, quer ao nível da robótica quer das data sciences… é um projeto que estamos convencidos que irá ser fechado e lançado até ao final deste ano. Portanto, temos todas as razões para estarmos satisfeitos.

Temos também outros setores interessantes como a área da robótica e da automação. E temos aqui um mini cluster da saúde muito interessante (…)

Qual é neste momento a capacidade do Pólo ?
Se olharmos para o Pólo Tecnológico de Lisboa e para esta área que é diretamente gerida pelo Lispolis, temos hoje cerca de 120 empresas instaladas que tem volume de negócio global na ordem dos 100 milhões de euros anuais, e onde temos também cerca de 1500 postos de trabalho qualificados. Se a isto juntarmos o Campus do Lumiar,em postos de trabalho qualificados quase que dobra. Do ponto de vista dos principais setores, podemos dizer que cerca de 80 a 85 % das empresas que cá estão são da área das tecnologias de informação e comunicações. Muito desenvolvimento de software, muitas coisas à volta disso. Depois temos também outros setores interessantes como a área da robótica e da automação. E temos aqui um mini cluster da saúde muito interessante, que começou com a fábrica de análises e de investigação do grupo Germano de Sousa, que integra empresas de pequena e media dimensão que desenvolvem produtos e aplicações para a área da saúde, mas que segue para o outro lado do Campus do Lumiar onde temos a também a Bial e a Hovione. E isto irá crescer também numa outra dimensão e admitimos que, no futuro, poderemos vir a ter aqui a instalação de uma escola de saúde e formar aqui um cluster muito interessante. Temos também diversas empresas na área da qualidade e da certificação. Portanto, diria que estes são os principais setores.

Há um outro aspeto que talvez seja interessante explicar que é a componente dimensional, até para se perceber os números que referi. Cerca de 85 % destas empresas que referi são PME, 10% são multinacionais e, portanto, nós conseguimos juntar aqui no Lispolis empresas praticamente de todas as dimensões, desde a Delfi à WT Vision, à SGS, à Critical Software, empresas com algum peso e dimensão, até outras empresas tecnológicas que têm 5 ou 10 colaboradores mas que são extraordinariamente especializadas e com um nível de conhecimento elevadíssimo.

Alguma outra área que seja um nicho de oportunidade e que estejam a pensar juntar a este leque de empresas?
Um dos desafios que temos, e temos noção disso, é a diferenciação ao nível da procura dirigida ao Pólo Tecnológico de Lisboa. Temos de ser capazes de atrair empresas de outros setores. Um setor que temos uma grande preocupação é ao nível das empresas que trabalhem mais hardware e menos software. Temos muitas empresas de software e gostávamos de ter aqui uma componente um bocadinho mais industrializada que, mesmo sendo dentro de Lisboa, pode ser perfeitamente limpa, usando tecnologia de ponta, mas que tenha uma componente mais de hardware do que software. Esse é o nosso desafio.

O que estão a fazer nesse sentido?
E por isso o investimento que estamos a fazer, e que iremos fazer, no projeto ILAC (que é apenas um nome entre parceiros) que exatamente  dar o primeiro passo para a atração desse tipo de empresas, para que possam instalar-se aqui e possam ter nesse laboratório os primeiros meios, os primeiros equipamentos, as primeiras oficinas para desenvolver esse tipo de atividade. Nós temos condições aqui nesta zona de Lisboa e aqui no Pólo que se calhar outras áreas de Lisboa não têm para desenvolver este tipo de atividade.

Que condições são essas?
É o espaço, é a localização. Há espaço para crescer. Qualquer empresa que entra no Lispolis, pode entrar aqui para uma sala de 20 ou 30 metros, por hipótese, ou para um cowork, por exemplo, e à medida que o seu negócio vai evoluindo, pode ir crescendo no Lispolis para a dimensão que é adequada ao seu negócio e partir, por exemplo, para a edificação de um edifício próprio. Nós não temos só edifícios onde instalamos empresas, temos lotes destinados às empresas tecnológicas onde elas podem fazer a construção de um edifício que é adequado à sua atividade.

Disse que já passaram pelo Lispolis cerca de 330 empresas. Desse grupo há alguma empresa que digam que é um “produto” Lispolis?
Há vários exemplos, como a Vision Box, a New Vision, a Science 4 You ou a KPI. Mas não posso deixar de referir como um dos nossos casos, e isto porque é posto em cima da mesa por eles, a própria Critical Software. Não nasceu propriamente aqui, mas é aqui que cresceu e se desenvolve. Começou no nosso centro de incubação e desenvolvimento e hoje já tem um espaço próprio, onde acolhe mais de uma centena de colaboradores e está num processo de expansão muito interessante.

Uma empresa pode entrar no Lispolis com um único recurso para um cowork e passado três, cinco ou dez anos ser uma empresa que tem mil, 3 ou 5 mil metros quadrados de atividade, com 100, 200 ou 500 colaboradores.

No atual cenário de incubadoras e aceleradoras de start-ups, qual é o posicionamento da Lispolis? Como marcam a diferença?
Diria que a Lispolis tem uma componente de produto que é idêntica a outro tipo de entidades desta natureza que existem em Lisboa e no país, mas tem, de facto, elementos diferenciadores. Temos o nosso Centro de Incubação e Desenvolvimento, temos um programa de incubação, vamos entrar na aceleração…. mas o que é verdade é que sendo o Lispolis um pólo generalista tem a preocupação de privilegiar determinado tipo de projeto, forçosamente projetos de empresas de base tecnológica. A diferenciação, para além do acompanhamento que fazemos às empresas, em articulação com os nossos associados, a interação com parceiros quer na perspetiva do financiamento quer da mentoria. Há uma caraterística que o Lispolis tem que muito poucos têm: uma empresa pode entrar no Lispolis com um único recurso para um cowork e passado três, cinco ou dez anos ser uma empresa que tem mil, 3 ou 5 mil metros quadrados de atividade, com 100, 200 ou 500 colaboradores. E pode fazer tudo isto e toda esta evolução dentro do Pólo Tecnológico de Llisboa sem ter de andar à procura de outros espaços. Por outro lado, a própria comunidade Lispolis, com mais de 120 empresas instaladas, e empresas de todas as dimensões, e também internacionalizadas, criam uma comunidade e um ambiente que obviamente enriquece quem procura a Lispolis e se pretende instalar aqui.

Quais os desafios atuais da Lispolis na gestão de todas estas empresas?
Como todas as empresas estamos agora a enfrentar o desafio do crescimento. A atividade dentro do Pólo Tecnológico de Lisboa vai crescer consideravelmente e isso vai-nos trazer novos desafios. Desde logo desafios ao nível da mobilidade. O Pólo Tecnológico uma das coisas que oferece é que é um excelente local para trabalhar, onde as pessoas não tem problemas em pensar onde deixam o carro. A verdade é que, à medida que a atividade dentro do Pólo se vai desenvolvendo, é preciso encontrar soluções de mobilidade para as pessoas através de uma articulação com as entidades gestoras de transportes públicos e, por outro lado, criar condições dentro do Pólo para que se as pessoas entenderem trazer os seus veículos possam ter condições de permanecer aqui dentro. Este é um desafio já de curto prazo, que vamos ter de atacar muito em breve com esta explosão que o Pólo vai ter.

Por outro lado, temos um outro aspeto: sendo os lotes que são cedidos para as empresas se instalarem de natureza pública temos um processo de cedência desses lotes que não é propriamente fácil. Temos estado a trabalhar no sentido de sermos cada vez mais eficientes e rápidos porque o investimento privado não se compadece com processos que demoram meses ou anos para se obter uma mera licença. O que temos de encontrar são soluções para que quando os investidores nos procuram nós possamos entregar valor e eles possam instalar-se o mais rapidamente possível.  Por isso temos tido um trabalho quer junto da Câmara Municipal de Lisboa para agilizar os processos de licenciamento, quer junto das entidades do Governo central para criar condições para que os  processos de atribuição desses lotes possa ter uma rapidez que não estavámos habituados.  E conseguimos, já este ano que alguns projetos que estiveram tremidos possam começar a pensar em instalar-se aqui no Pólo.

Essa instalação estava em risco?
Havia o risco de que as empresas escolhessem outras localizações, inclusive para projetos interessantes do ponto de vista tecnológico. Havia mesmo o risco de escolherem outras localizações fora de Portugal. Agimos, acreditámos, trabalhamos bastante mas conseguimos e hoje temos esse processo bem mais ágil.

Por outro lado, temos de reorientar as nossas opções de investimento, no sentido de ter mais espaços, mas espaços já construídos para oferta à quantidade de empresas que nos procuram. Felizmente, somos procurados por cada vez mais empresas e empresas muito interessantes e, neste momento, temos a nossa oferta praticamente ocupada a 100%. Temos quase de inventar para tentarmos que os melhores projetos possam permanecer aqui. Este é outro desafio: encontrar soluções, quer deste lado do Pólo quer do lado do Campus do Lumiar, para a procura que temos.

Temos por outro lado o desafio do ILab e o desafio de reforçar a dinâmica da nossa comunidade. Temos aqui uma comunidade muito interessante, mas também é verdade que a nossa geografia é ela própria desafiante porque não temos propriamente um edifício onde é mais fácil trabalhar uma comunidade. Temos vários edifícios e portanto temos de procurar novas formas de encontrar articulação e sinergias entre essa comunidade. A maioria das empresas tem condições de encontrar dentro da Lispolis, parceiros para as mais diversas áreas. Há competências e parceiros cá dentro. Agora, têm todos de se conhecer muito melhor, e nós temos essa responsabilidade, de encontrar elementos de contacto entre eles para que isto aconteça. Esse é o nosso desafio mais imediato, reforçar essa componente.

Para determinado tipo de projetos, nós estaremos certamente a jogo e saberemos olhar para as nossas oportunidades, sem atropelar ninguém e agindo no melhor interesse de todos e do próprio ecossistema.

Falou há pouco da elevada procura de empresas. São apenas portuguesas ou também internacionais?
Diria que os dois principais projetos que temos em expansão dentro do Pólo Tecnológico são projetos internacionais. Depois temos outras iniciativas que nós próprios estávamos a desenvolver com parceiros internacionais, nomeadamente brasileiros, quer ao nível da primeira fase com o StartupIn lisboa, quer ao nível da aceleração com o e-commercer Experience de São Paulo, no Brasil. Mas estamos também envolvidos no programa Startup Visa que se propõe exatamente fazer a atração de projetos e empresários de terceiros países, não comunitários, para que possam olhar para Portugal como uma via de entrada na Europa. Aí temos já alguns desafios.

Agora não escondamos as coisas. Lisboa está na moda, e nós de alguma forma beneficiamos disso. Temos pressa, mas não estamos preocupados, porque sabemos também que a Lisboa que está na moda não é propriamente a Lisboa de Telheiras. A questão é que para determinado tipo de projetos, nós estaremos certamente a jogo e saberemos olhar para as nossas oportunidades, sem atropelar ninguém e agindo no melhor interesse de todos e do próprio ecossistema.

Vão ficar atentos a áreas de mercado que se adequem mais aquilo que têm a oferecer é isso?
Sem dúvida. Desde logo empresas tecnológicas, empresas  que possam ter necessidades de crescimento e que encontram aqui o espaço que não encontram noutros lados. Apesar de tudo, Lisboa ainda tem espaços onde é possível desenvolver qualquer tipo de atividade, de serviços, de desenvolvimento, de economia do conhecimento, atividades mais industrializadas, e em particular das novas indústrias de 4.0, e o Lispolis está no centro desse processo. Sabemos que o centro de Lisboa estará mais “in” mas também sabemos que há projetos que não podem ir para o centro de Lisboa e cá estamos nós para ajudar.

O que ambiciona para o Lispolis nos próximos 25 anos?
Não pensamos a 25 anos, ainda não temos essa cultura da reflexão geracional. Mas para uma pergunta ambiciosa, uma resposta ambiciosa: vejo o Lispolis, daqui a 25 anos, não a fazer a gestão de um Pólo Tecnológico mas a gestão de uma rede de Pólos Tecnológicos.

Outra área que temos como estratégica é o trabalho ao nível da atração de investimento e criar condições para que empresas de todas as dimensões se possam instalar neste Pólo Tecnológico.

Algo mais abrangente…
Exatamente. Já temos alguns contactos e alguns desafios nesse sentido. Outras entidades reconhecem as nossas caraterísticas e o nosso know- how em saber como montar, manter e desenvolver este tipo de atividade e somos convidados não só a partilhar essas nossas experiências e a ajudá-los a desenvolver esse modelos, como muitas vezes também a partilhar a própria gestão. E aquilo em que eu acredito é que este espaço vai ser desenvolvido até se esgotar e nessa altura o Lispolis vai ter necessidade de olhar para outros espaços. E aquilo em que eu  acredito é que daqui a 25 anos os nossos colegas mais jovens estarão a gerir uma rede de pólos tecnológicos. Esta é a minha perspectiva falando num espaço com esta dimensão.
Mas temos também uma estratégia e desafios mais imediatos. Desde logo continuar o nosso investimento ao nível das parcerias e das redes em nós participamos. Estamos em redes internacionais como a  IASP, na TECPARQUES, somos Ignition Partners da Portugal Ventures, que é uma das nossas principais sociedades de capital de risco, fazemos parte de do Made off Lisboa e da Lisboa Robotics. Temos as nossas parcerias e redes também articuladas com universidades como a Europeia, IST ou Faculdade de Ciência e Economia e outras, com quem nos relacionamos muito bem e queremos continuar a desenvolver esse processo.
Por outro lado queremos continuar a apostar no empreendedorismo como um “drive” fundamental os processos de inovação e competitividade das nossas empresas, encontrando soluções e produtos que possam ser adequados, tanto quanto possível,  a todos os ciclos de vida do empreendedorismo desde os momentos pré-seed à ideia, até aos momentos um bocado mais avançados.

Outra área que temos como estratégica é o trabalho ao nível da atração de investimento e criar condições para que empresas de todas as dimensões se possam instalar neste Pólo Tecnológico e possam servir de âncoras e motores para o desenvolvimento de outras empresas. E obviamente a internacionalização porque precisamos de duas coisas. Por um lado, de continuar a aprender com os outros, longe de nós, mesmo já na idade adulta, pensarmos que já sabemos tudo. E, por outro lado, dar outra componente do lado das empresas, que é propiciar processos de soflanding , isto é, a empresas que querem vir até Portugal, a Lisboa e fazer aqui experimentação, ter aqui um espaço e alguém que os acolha e os encaminhe no país.

Como vai funcionar a aceleradora de e-commerce?
Vamos ter diversas entidades associadas a este processo, um processo em que temos três grupos de atores: os promotores que é uma entidade que tem uma experiência enorme e um enorme sucesso nesta área, que é a Ecommerce Experience, do Brasil, e nós próprios Lispolis. Depois iremos ter outras entidades, quer públicas quer privadas que já estão a entrar neste processo também como co-promotores. Depois temos um outro grupo de entidades que são as entidades beneficiárias, as empresas que vão trazer a este programa as suas equipas para aprenderem como se desenvolve um projeto de e-commerce. Aí, vamos ter empresas de grande, média e pequena dimensão e serão essas que irão ser selecionadas a partir de julho. Finalmente, temos outro pilar o das empresas que têm soluções que suportam o e-commerce e que serão parceiros de todo este processo. Este é um processo que irá ter início depois da seleção, em princípio em setembro e que irá prolongar-se até fevereiro do próximo ano.

O nosso ecossistema está bem dirigido, bem trabalhado, cresceu em quantidade e qualidade.

Globalmente, como avalia o mercado nacional nas várias vertentes do empreendedorismo?
Quando olhamos para o nosso ecossistema hoje eu diria que ele evoluiu de uma forma em termos de uma progressão geométrica. Foi de facto uma coisa impressionante. Hoje temos no nosso ecossistema praticamente entidades capazes de tratarem todas as vertentes associadas ao empreendedorismo. Por exemplo, as universidades deram um salto absolutamente fantástico, mudaram tudo. Isto é extraordinariamente importante porque é também a forma de mudar mentalidades, de mudar uma cultura, deixarmos de ser tanto um país onde tradicionalmente as pessoas as pessoas viam-se como empregados de outrem para um país onde as pessoas já se veem, especialmente os jovens, como empreendedores, como alguém que agarra o seu destino. Em que falham uma vez e voltam e tentam novamente. E essa é que é a cultura que temos conseguido. Eu diria que desse ponto de vista o nosso ecossistema está bem dirigido, bem trabalhado, cresceu em quantidade e qualidade. Eu diria que está bem.

Se eu tivesse que apontar duas áreas menos conseguidas no nosso ecossistema, apontava no domínio dos instrumentos de apoio na fase inicial destes processos. Eles ainda são escassos. E em especial na componente do financiamento. Hoje temos muita gente a querer financiar muitos projetos em Portugal mas a verdade é que temos muito pouca gente a financiar na fase pré-seed e seed, ou seja, nas suas primeiras fases, e esse é um problema, em especial quando esses projetos precisam de alguma alavancagem financeira para se puderem apresentar no mercado. Essa, do meu ponto de vista, é uma falha.

Outra falha é num momento mais a seguir, depois destas novas empresas, destas start-ups, avançarem com os projetos, e muitos deles até terem algum sucesso inicial, precisam de repente de escalar, de se transformarem nas tais gazelas e unicórnios. Precisam de rondas de financiamento por valores e importâncias que o nosso mercado, nomeadamente de capital de risco, não está preparado para responder. E, portanto, têm sistematicamente que tentar ir lá para fora para obter essa alavancagem que não encontram cá dentro. Eu diria que, ao nível dono nosso ecossistema, estas são as duas partes a precisar de maior intervenção.

O que se deveria fazer para inverter essa situação?
Diria que relativamente aos instrumentos de apoio à primeira fase, quer sejam instrumentos de indução da cultura, quer sejam de apoio ao desenvolvimento da ideia, do projeto e da primeira fase do desenvolvimento da empresa, aí começam a aparecer alguns apoios públicos e esses, do meu ponto de vista, deveriam ser intensificados. Perceber um bocadinho melhor esse fenómeno e tentar apoiar as empresas no seu ciclo inicial, que não é um ciclo de seis meses ou de um ano, mas um ciclo de três a quatro anos. E é preciso nós percebermos isto. Não vale a pena estarmos a desenhar projetos com essa dimensão, devemos focar-nos em projetos com ciclos de três a quatro anos. Esta é uma primeira nota e acho que aí alguma alavancagem pública pode ajudar a resolver esse problema.

O outro problema da dimensão do capital de risco não se resolve assim. Acho que só vai ser possível ser resolvido se as entidades que estão nesse mercado de capital de risco forem capazes de estabelecer elas próprias pontes com outras entidades internacionais quer na Europa, quer nomeadamente nos Estados Unidos, para levar estes projetos a encontrarem essas soluções de financiamento que cá dentro não existem e que não vejo que venham a existir, pelo menos no curto prazo.

Qual o input que podem dar iniciativas como o vosso Startup In?
O Startup In é exatamente um instrumento… Hoje já temos em Portugal muitos concursos de ideias  e a nossa perspetiva foi não vou fazer mais concurso de ideias, mas tentar fazer um concurso de ideias diferente, limitando o número de concorrentes, sermos capazes de perceber a qualidade dos projetos e ajudá-los logo a aí a desenhar e a desenvolver o seu primeiro projeto, a passarem da ideia. E a primeira coisa que o Startup In faz é agarrar nesses projetos que se candidatam e ajudá-los a construir, digamos, o seu primeiro modelo. Isso evoluiu muito isso do programa que fizemos no ano passado para este ano. Viu-se que a qualidade dos projetos subiu consideravelmente e isso foi muito gratificante. É um instrumento que está exatamente nessa fase de pré-seed onde é preciso dar oportunidade a esta gente de se confrontarem com um júri, de fazerem os seus pitches, de apresentarem as suas ideias, de perderam o medo de se chegaram à frente, de refletirem sobre as suas ideias e o seu futuro.

O Startup In começou como uma pequena aposta porque nós não queríamos fazer mais um concurso de ideias, claramente resultou e o desafio que nós  temos, mais um, para o próximo ano é que o Startup In se afirme nesta área pela diferença. Não queremos ter o concurso que tenha o maior número de candidaturas. Queremos é procurar, e em parceria, bons projetos e ajudá-los na primeira fase de formação do projeto para que eles próprios percebam se sua ideia, desde logo aí, tem ou não tem pernas para andar, como é que eles se devem apresentar a um júri, e para isso convidamos um júri qualificadíssimo que fomos buscar aos nossos parceiros do ecossistema. E queremos continuar por esta via. Vamos crescer, mas não queremos crescer em quantidade. Queremos crescer na qualidade e na forma como olhamos e fazemos o folow up desses projetos.

Portanto, a edição deste ano foi muito positiva…
Foi muito positiva em termos da qualidade dos projetos, em termos do interesse das entidades que vieram ver o pitch dos finalistas para ver o que havia ali de interesse. Foi muitíssimo interessante e é esta a linha que nós queremos continuar.

Mais alguma aposta do género em agenda para o próximo ano?
Vamos continuar a investir noutra coisa também na mesma linha e que achamos que é uma boa iniciativa, que é o Startup Voucher, ou seja, um programa que ajuda a partir da ideia. São os tais instrumentos da primeira fase do ciclo do empreendedorismo.

O que os distingue?
O target é basicamente o mesmo, o processo é que e diferente. Enquanto o Startup In  tenta encontrar um conjunto de indivíduos que tenham uma ideia e ajuda-os muito rapidamente, num processo de um mês, a aperfeiçoar a sua ideia e a forma de a apresentar e apresentar-se perante um júri e tentar encontrar um prémio que desenvolva o seu projeto, o Startup Voucher tem uma dimensão diferente. Para já tem uma dimensão quantitativa diferente, mas também qualitativa porque é um processo que normalmente decorre durante um ano, e que atribuiu aos candidatos uma bolsa para que eles durante um ano se possam dedicar à construção da sua ideia e à sucessiva transformação da ideia num projeto empresarial. A ideia final é a constituição efetiva de uma empresa.

Portugal consegue ombrear com qualquer cidade ou região europeia no sentido de ser capaz de atrair os melhores.

No cenário europeu, onde vê Portugal?
Se continuamos a falar de empreendedorismo e do ecossistema empreendedor, Portugal já é, do meu ponto de vista, um país de referência. Ainda lhe falta a tal dimensão financeira que Portugal por si só não tem, mas que existe no contexto da União Europeia e que pode, de alguma forma, suprir algumas das lacunas que o nosso mercado ainda apresenta a esse nível.

Eu acho que o nosso ecossistema tem evoluído de uma forma muito muitíssimo interessante e veja-se que hoje, a todos os níveis, inclusive com iniciativas como o Web Summit e outras, que Portugal consegue ombrear com qualquer cidade ou região europeia no sentido de ser capaz de atrair os melhores.

Comentários