Para quem vive em Lisboa é público e notório que algo se passa: onde antes só havia turistas agora há estrangeiros residentes, investidores, empreendedores, espaços de coworking que trazem novas expressões que se introduzem sorrateiramente no léxico lisboeta, e que já poucas pessoas rejeitam, como start-ups, hubs, unicórnios ou transformação digital.

O cargo que tenho o prazer de ocupar na Beta-i permite, entre outras coisas, uma visibilidade abrangente para várias das iniciativas que mudam a face da nossa cidade, a começar pelo Web Summit. Mas se é verdade que este evento implica uma grande visibilidade para a cidade, ele acaba por ser mais um apontamento dentro da lógica de inovação que atravessa a cidade, aquilo a que em inglês se chama the bigger picture.

Exemplos disso mesmo são, por exemplo, o Lisbon Tourism Summit, um evento organizado pela Beta-i e apoiado pelo Turismo de Portugal e pelo Airbnb, e que teve lugar esta semana na Academia de Ciências de Lisboa. Assumindo-se como um intenso ponto de ligação entre start-ups, investidores de referência nacionais e internacionais, empresários do setor, investigadores e organizações, este encontro, que vai na sua 5.ª edição, começa já a ganhar alguma escala, com dois palcos em paralelo. Totalmente dedicado à indústria do turismo, e aos seus inovadores, desafios e desenvolvimentos, juntou players nacionais e internacionais, bem como vários especialistas, num formato informal e descontraído, permitindo a troca de ideias e estimulando a discussão em torno de temas como o ecossistema nacional de turismo, transformação digital, big data ou turismo sustentável.

Este evento reuniu oradores como Ana Mendes Godinho, Secretária de Estado do Turismo, Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal, Sergio Vinay, Head of Public Policy da Airbnb ou Geerte Udo, do gabinete de Marketing de Amesterdão, que explicou a estratégia daquela cidade para lidar com problemas em tudo semelhantes aos que Lisboa já sente.

Mas a cidade tem também de pensar na forma como se relaciona com os próprios lisboetas, mais do que com os turistas. Em que eixos assenta a visão dos decisores, que medidas podemos tomar para evitar erros que ocorreram em Barcelona, Berlim ou Roma, e que alienam e obrigam os lisboetas a viver em ‘bolsas’ na sua própria cidade? Algumas das respostas podem vir de programas como o Smart Open Lisboa (SOL), que pretende integrar na cidade o universo das start-ups e suas soluções inovadoras, para que possam contribuir para uma Lisboa melhor, mais inteligente e mais eficiente.

Trata-se do programa de referência da cidade de Lisboa para a inovação (aberta), ligando parceiros institucionais e grandes empresas a start-ups, para responderem, em conjunto e em diferentes áreas, a desafios de smart cities. Esta iniciativa, sob a tutela da Câmara Municipal de Lisboa, divide-se em dois verticais, um centrado na mobilidade, e outro no housing.

O programa dedicado à mobilidade chegou ao fim na semana passada. Numa cerimónia que teve lugar no Museu da Carris, em Alcântara, as 12 start-ups finalistas apresentaram os 15 projetos que desenvolveram lado a lado com os parceiros.

Juntando entidades como a Câmara Municipal de Lisboa, Turismo de Portugal, Sharing Cities, Cisco, NOS, Axians, TOMI e Santa Casa da Misericórdia, este projeto, que aposta na inovação para dar resposta a alguns dos maiores desafios que a capital enfrenta neste campo, tem ainda como parceiros associados a este vertical de mobilidade empresas como a Carris, Metro de Lisboa, EMEL, Brisa, Ferrovial e Daimler.

O programa começou em 2015 e tem testado a cidade a responder aos maiores desafios, através das ideias mais inovadoras. A ideia passa por transformar Lisboa num laboratório vivo de inovação, sempre numa ótica centrada em resolver problemas e facilitar a vida aos utentes e cidadãos. Fazer de Lisboa uma cidade que aposta na criatividade e no empreendedorismo, e tirar partido desse investimento para melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Mas este ano evoluiu para um formato mais ambicioso, e para além da mobilidade, também se procuram agora soluções para a cadeia de valor do imobiliário residencial e comercial, o SOL Housing, que arrancou ontem, dia 22 de novembro.

A tudo isto temos de juntar uma segunda lógica, de interligação e integração da cidade com as suas zonas mais periféricas, o que sugere uma articulação mais estreita com concelhos limítrofes, como Cascais, Oeiras, Odivelas, Loures, Almada ou o Seixal. A chamada Grande Lisboa pode lucrar muito com este novo paradigma da inovação, até porque cada um tem as suas valências, sejam eles a proximidade, os preços ainda sensatos de habitação ou escritório, ou a proximidade com o mar e indústrias que com ele se relacionem.

A Lisboa do futuro será o resultado de todos estes esforços e dinâmicas e é um prazer estar envolvido em tantos deles, o que me permite o luxo da visão periférica…

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