Colega de quarto de Elon Musk, fundador de uma das maiores aceleradoras do mundo e uma das pessoas mais conhecidas a nível mundial no universo das start-ups. Leia a entrevista com Adeo Ressi, fundador do The Founder Institute.

Adeo Ressi esteve em Lisboa durante a semana passada para celebrar a nova parceria entre a The Founder Institute e a Bright Pixel. Aproveitámos a oportunidade para conversar meia hora com Ressi.

Como vê o ecossistema português?
Fez muitos progressos nos últimos três anos, tendo ultrapassado um número de outras cidades semelhantes na região. O ecossistema português e lisboeta ultrapassou um número de outros ecossistemas de start-ups pela Europa, portanto acho que o futuro de Portugal, enquanto hub de start-ups, é bastante promissor.

E o ecossistema europeu, qual é a sua opinião?
Tenho visto muito progresso no ecossistema europeu, um número grande de financiamento e alguns unicórnios a emergir que não estavam presentes anteriormente. O Spotify vai-se tornar público, portanto existem muitas notícias boas na Europa. Mas também está a enfrentar problemas sérios.
A questão do Brexit é um problema sério para o continente porque quando o Reino Unido fazia parte – quer dizer, ainda faz tecnicamente parte da União Europeia -, criou uma boa oportunidade para grande parte das start-ups europeias se incorporarem no Reino Unido. Isto porque o cenário de financiamento lá é bastante forte, o Estado de direito era forte, a integração era relativamente fácil e agora, ao que parece, o Reino Unido vai sair e isso deixa um grande “vácuo” para o melhor ecossistema de start-ups a criar um veículo empresarial para as empresas. E não há um substituto óbvio para o Reino Unido, portanto é algo desnecessariamente demorado, complicado e caro para muitos países da Europa, incluindo Portugal, para conseguirem alavancar uma empresa.

Isto deve-se em grande parte à lei holandesa. E enquanto que os regulamentos da Commonwealth são bastante mais fáceis, a Irlanda poderá ser um bom substituto para o Reino Unido, mas ainda não se chegou à frente e o financiamento ainda não está muito desenvolvido lá. Por isso, acho que este é um dos problemas mais graves que a União Europeia (UE) está a enfrentar. Não há nenhum local óbvio para um start-up assentar e este é o problema número um. O segundo problema é que existe uma cultura de bem-estar direcionada às start-ups [start-up welfare] aqui na Europa que, no todo, está a criar piores resultados do que bons.

É relativamente fácil para uma empresa não qualificada receber dinheiro, direta ou indiretamente, dos fundos da União Europeia porque, por vezes, estes fundos estão a ser direcionados para incubadoras mal geridas ou para firmas de venture capital (VCs), o que se traduz em que as start-ups ingressam em más incubadoras ou recebam dinheiro de fundos de investimento mal geridos e isso tem reduzido significativamente a qualidade média das start-ups da UE. E isto é o que eu chamo de “bem-estar das start-ups”.

Estes são dois problemas sérios que a UE está a enfrentar neste momento e para os quais precisa de arranjar uma solução. Caso contrário vão continuar a cair para uma posição terciária em relação aos outros mercados mundiais. Acredito mesmo que a UE, enquanto um todo, não está presente no top três de mercados a nível mundial.

O cenário em Paris está bastante forte…
Sim, o cenário lá está muito forte…

Diria que depois do Brexit Paris seria um substituto do Reino Unido?
Não, porque a situação corporativa em França está desenhada para excluir os estrangeiros de conseguirem montar facilmente o seu próprio negócio. Vou dar-lhe um exemplo: precisa de ter uma certa documentação do governo e para ter essa documentação precisa de ter uma conta num banco, mas para ter uma conta no banco precisa de ter a documentação do governo. Obviamente que isto não faz qualquer tipo de sentido. Como é que é suposto conseguir a documentação do governo se precisa de ter uma conta bancária e vice-versa? Isto está desenhado para tornar muito complicada a integração de estrangeiros. Os estrangeiros são essencialmente vítimas de preconceito quando se tentam incorporar. Portanto, não, França – pelo menos no estado atual – não tem qualquer tipo de hipótese de substituir o Reino Unido enquanto hub.

Qual diria que é o aspeto mais importante que está a faltar ao ecossistema europeu para conseguir competir com os Estados Unidos e a Ásia?
Juntando aos dois problemas já referidos, há um terceiro problema que não tem solução e que se baseia nas dificuldades da língua. A UE é um mercado muito grande e que está a crescer, mas que precisa de resolver o “bem-estar das start-ups”, criar um hub para tornar o alojamento de start-ups fácil e correto e, por fim, criar um ecossistema de financiamento saudável, vibrante e viável.

Mais uma vez, os fundos da UE deveriam ser usados para isso, mas da maneira como estão a ser utilizados atualmente não vão dar os resultados necessários para ser competitivo. Neste momento [no topo da lista de melhores ecossistemas], temos os Estados Unidos, a China e a Indonésia. Diria que a Europa, como um todo, ainda está à frente da Indonésia, neste momento, mas tal como Portugal fez grandes progressos nos últimos três anos para se tornar num dos ecossistemas líderes a nível europeu, a Indonésia tem feito grandes progressos para se tornar num dos ecossistemas líderes a nível mundial. E o ritmo a que a Indonésia está a progredir vai ultrapassar a Europa dentro dos próximos três a cinco anos. Isto, a não ser que a Europa, enquanto um todo, se una e tente resolver os problemas que já mencionei.

O Founder Institue está presente em perto de 200 cidades. Porquê Lisboa? Porquê agora?
Já temos trabalhado em Lisboa há alguns anos e fomos uma das primeiras aceleradoras em Portugal. Temos visto em primeira mão o progresso fantástico que tanto o país como a cidade têm feito enquanto hub de start-ups. Portanto acho que se Lisboa e Portugal continuarem nesta trajetória vão ser uma das principais cidades na Europa para começar um negócio em apenas três anos.

Comparando talvez com a Alemanha, e certamente com o Reino Unido, Portugal tem um mau ambiente corporativo para start-ups. Uma área que poderia ser melhorada é a facilidade com que as start-ups se conseguem estabelecer. Tornar esta componente mais barata e aumentar a transparência do Estado de direito pode trazer um grande impacto no papel que o ecossistema português tem na Europa.

Portugal tem feito um bom trabalho na criação de fundos e isso é um ponto positivo. Mas ainda não têm a experiência dos fundos alemães, franceses ou britânicos, o que é uma desvantagem para Portugal porque a experiência importa no mundo do financiamento. É uma das poucas áreas do mundo que traz uma grande diferença nos resultados. Portanto, uma das coisas que posso recomendar é que Portugal recrute investidores experientes de Silicon Valley ou do Reino Unido para se juntarem às equipas dos fundos ou que venham em licença sabática para ajudarem a trazer alguma experiência para este mercado, de forma a que possam ultrapassar a fase de aprender da maneira complicada [a errar].

Diria então que Portugal tem o potencial para se tornar numa “mini Silicon Valley”?
Diria que Portugal e Lisboa, em particular, têm grandes oportunidades de se tornar num dos hubs mais fortes dentro da Europa, a par com alguns outros. Vai ser complicado tornar-se mais forte que o Reino Unido porque eles já têm um mercado financeiro tão forte que uma pequena quantia de dinheiro desse mercado seria uma firma de capital privado enorme.

Mas o dinheiro vai para onde existe talento. Portugal já tem um custo de vida baixo, o que é também, por exemplo, um dos principais ativos de Berlim neste momento. Mas Berlim tem uma desvantagem face a Portugal, não é um sítio muito agradável para se viver. É frio, não há beleza natural, mas há muita arte artificial. Em contraste, Lisboa é uma cidade muito bonita que tem muita beleza natural, o que resulta na imigração de talento, que já está a decorrer. Acredito que em três anos, Lisboa pode vir a ser uma das capitais europeias de start-ups.

Desenvolveram um teste preditivo de admissão para empreendedores. Qual é o traço de personalidade mais importante que pode encontrar num empreendedor?
Temos o traço de personalidade mais importante que podemos testar e temos o traço de personalidade mais importante que um empreendedor pode ter. São dois tipos “ligeiramente” diferentes.

Os dois positivos são a fluid intelligence, que é a habilidade de aprender rápido e colocar em prática, e abertura, que é a habilidade de ver o mundo como ele é na realidade. Uma pessoa com abertura pode ver um problema ou uma oportunidade muito rapidamente e uma pessoa com níveis altos de fluid intelligence consegue processar informação muito rapidamente e responder a problemas ou oportunidades com nova informação muito rapidamente.

O que não podemos testar, e o que é provavelmente o mais importante, é o ímpeto (drive). Não conseguimos testar o ímpeto em nenhuma maneira prática, não é? “Se houver uma montanha gigante, passavas-lhe por cima?” E depois há uma montanha, eles têm de a passar e nem sequer tentam. Portanto, a única maneira de testar se a pessoa tem ímpeto é coloca-la numa situação desafiante e ver se está à altura da ocasião.

Vão fazer estes testes em Portugal?
Claro, nós até já temos os testes em português. Operamos em 10 cidades no Brasil e, obviamente, aqui em Lisboa. O português é uma grande língua que apoiamos a nível mundial. É a segunda língua mais falada no nosso programa.

Perguntas de resposta rápida:

No que toca à inteligência artificial: China ou Estados Unidos?
Acho que o mundo precisa imediatamente de colocar restrições no desenvolvimento de inteligência artificial, quanto mais cedo melhor. Espero que tanto a China como os EUA introduzam restrições ou regras para o desenvolvimento daquele que poderá ser um cataclísmico.

Dólar ou bitcoin?
[Risos] O bitcoin é essencialmente uma moeda defeituosa. E eu vou responder dólar. A promessa de uma criptocurrency é muito positiva, mas o desafio do bitcoin é que se o tivessem criado para forçar a inovação no setor energético, teriam feito um bom trabalho porque consome quase a mesma energia do que um pequeno país europeu hoje em dia. E se continuar a crescer vai consumir o mesmo que um grande país europeu.

Portanto, se foi desenhada para criar inovação dentro do setor energético, é uma grande divisa. Se foi criada para ser utilizada como moeda de troca é terrível. Mas eu acho que vai haver uma moeda virtual criada que se vai tornar melhor do que uma moeda física a todos os níveis, mas não nos próximos tempos, visto que as inovações dentro do mercado das moedas virtuais são comparáveis às inovações do HTML em 1994, tentativas muito primitivas de pessoas com 20 e poucos anos de inovar o setor bancário, os governos e a inflação.

Assim que começarem a haver grupos de pessoas muito inteligentes, economistas e pessoas deste campo que trabalhem coletivamente para resolver estes problemas, vão começar a existir soluções que poderão substituir as divisas físicas. Mas ainda não estamos, de todo, perto de atingir isso.

Enquanto homem de negócios: Elon Musk ou Jeff Bezos?
Sem dúvida Elon Musk. Repare, eles são ambos homens de negócios muito bons, certo? Fazer negócios não é complicado, fazer tarefas complicadas no mundo dos negócios é que é complicado. O Bezos está a vender bugigangas a pessoas que gostam de bugigangas, quão complicado é isso? Não muito, certo? O Elon está a tentar que a humanidade financie uma missão a Marte e isso sim, é supercomplicado. Acho que nem existe comparação, o Elon ganha, sem qualquer sombra de dúvida.

O ativo mais importante de uma start-up: a equipa fundadora, a ideia ou o plano de negócios?
A vontade dos fundadores. Ponto final. Uma empresa morre quando os fundadores desistem, portanto, a vontade da equipa é sem dúvida o mais importante.

Para uma start-up em fase embrionária: VCs ou business angels?
Diria que business angels é a forma de seguir. As Vcs estão mortas, logo não aceitaria dinheiro de uma venture capital nos próximos dois a cinco anos até este tipo de firmas resolverem os seus problemas.

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