Os cidadãos e turistas de Lisboa já podem contar com a Netflix dos eventos. A Fever entrou na capital portuguesa este verão e está pronta para inspirar as pessoas através de experiências. Leia a entrevista ao CEO da start-up que já está presente em 13 cidades.

A Fever desenvolveu uma plataforma que dá acesso às últimas experiências em voga nas 13 cidades em que está presente. O negócio, que foge à regra dos modelos tradicionais, é desdobrado em dois: uma plataforma, onde são apresentados os eventos com uma breve descrição e a possibilidade de comprar bilhetes, e um braço editorial, que serve de revista online e onde são analisadas e dissecadas as experiências e locais propostos ao leitor. Ao contrário dos modelos de negócio tradicionais desta área, em vez de aplicar uma taxa sobre os bilhetes vendidos através da sua plataforma, a Fever capitaliza com o que chama de “marketing fees” – ou taxas de marketing. Nesta entrevista, Ignacio Bachiller Ströhlein, CEO do projeto, explica-nos o porquê.

Apesar de não querer divulgar quanto vai investir na capital portuguesa nos próximos anos, é relevante referir que a Fever entrou no mercado português depois de ter fechado uma ronda de investimento de série C de 17,2 milhões de euros, que contou com o apoio da Caixa Capital e da Portugal Ventures. Além destas duas entidades, o projeto norte-americano conta com a ajuda da espanhola Atresmedia, produtora da conhecida série “La Casa de Papel”.

Saliente-se, ainda, que o modelo de negócio da Fever gira em torno de informação recolhida através do website e da app. Isto permite criar eventos de autoria própria – intitulados Fever Originals – com um risco bastante reduzido, uma vez que conseguem antever a procura por um determinado conteúdo, tal como a Netflix.

Como é que descreveria a missão da Fever?
Tudo o que fazemos na Fever e na Secret Media Network tem como objetivo inspirar as pessoas através de experiências. Utilizamos a tecnologia para aconselhar quem está à procura de coisas para fazer na sua cidade. Isto é feito através do nosso algoritmo, que, das centenas de experiências disponíveis, seleciona as mais relevantes para cada utilizador.

Introduziram recentemente o vosso negócio em Lisboa com a Lisboa Secreta e a Fever. Quais foram as razões por trás da expansão para a capital portuguesa?
Para além de termos alguns investidores portugueses fantásticos a apoiarem-nos, como a Portugal Ventures e a Caixa Capital, Lisboa já estava no nosso radar há algum tempo. É uma cidade que mistura a adequação plena dos nossos serviços e do modelo de negócio com a disponibilidade de grande talento, o que, para nós, tornou Lisboa uma escolha lógica de lançamento.

“Este processo de criação de conteúdo conduzido por informação assemelha-se à abordagem da Netflix em utilizar os analytics para perceber melhor a sua audiência e desenvolver e lançar novo conteúdo.”

Como é que atenuam o risco para terem a certeza de que cada experiência que anunciam é rentável?
Para os eventos normais que listamos não estamos a correr qualquer tipo de risco, visto que estamos simplesmente a agir como uma plataforma que está a recomendar as experiências mais relevantes aos utilizadores que procuram inspiração.

Por outro lado, este ano, lançámos os eventos Fever Original em todos os nossos mercados. Estes eventos – que são propriedade nossa – utilizam os insights que obtemos dos nossos utilizadores através da app e do website da Fever e das métricas de engagement da Secret Media Network para identificar experiências que têm procura, mas que não existem.

Este processo de criação de conteúdo conduzido por informação assemelha-se à abordagem da Netflix ao utilizar os analytics para perceber melhor a sua audiência e desenvolver e lançar novo conteúdo. Por esta razão, somos capazes de ter uma compreensão muito boa, a um nível geral, sobre o que as pessoas de um determinado mercado estão a consumir ao nível de entretenimento.

E por a nossa rede global estar a alcançar mais de 25 milhões de pessoas todos os meses, também estamos a ganhar o benefício de fazer testes e medir o nível de interesse mostrado pelas audiências dos diferentes mercados. Através destes métodos, somos capazes de mitigar muito o risco de levar a cabo um [evento]Fever Original, dado que estamos a utilizar a informação para validar as nossas suposições e instintos.

Em relação ao modelo de negócio. Como é que as taxas de marketing são mais confiáveis do que as taxas de reserva?
As taxas de reserva são mais associadas a plataformas de vendas de bilhetes, às quais os utilizadores se “dirigem” quando já tomaram a decisão do que vão fazer.

A Fever foca-se inteiramente na criação de procura. Nós tratamos de todo o marketing e da divulgação do evento ao mostrá-lo às pessoas certas, no tempo certo – dando-lhes ainda a possibilidade de comprar o bilhete em apenas três cliques.

O nosso público são pessoas que não sabiam do evento – caso contrário, teriam ido ao Google à procura de uma plataforma de venda de bilhetes – e a melhor parte é que, com a Fever, os organizadores dos eventos não precisam de fazer um grande investimento de marketing que outros veículos necessitam, visto que trabalhamos com base no sucesso. Portanto, somos capazes de ajudar os organizadores a reduzir o risco e de se focarem no que são realmente bons: organizar grandes eventos.

“O desafio, tal como em grande parte dos modelos digitais, é a digitalização do espaço.”

Quais são as maiores dificuldades com este modelo de negócio?
Felizmente, o business model da Fever é baseado num modelo bem-sucedido e, por isso, não apresenta grandes dificuldades a nível da adoção por parte dos organizadores. O desafio, tal como em grande parte dos modelos digitais, é a digitalização do espaço. No nosso caso em concreto, a área do entretenimento ainda tem muito espaço para se tornar mais mobile, visto que vemos uma oportunidade significativa em mostrar o valor do marketing digital versus o do modelo de marketing tradicional offline utilizado para os eventos, como os outdoors e os folhetos.

A Fever, e o seu ramo editorial – a Secret Media Network – está presente em grandes cidades como Londres e Nova Iorque. Seguem a mesma estratégia para todos os mercados?
Sim, utilizamos a mesma abordagem. Combinamos a criatividade humana com a tecnologia para produzir conteúdo muito cativante com menos recursos do que os órgãos de comunicação tradicionais.

Como é que a Atresmedia vos está a ajudar na missão de encontrar as melhores soluções de comunicação com os clientes?
A Atresmedia traz-nos riqueza na sua especialidade nos meios de comunicação e a monetizar os diferentes formatos e canais, o que é extremamente útil. Há também outras grandes iniciativas que estamos a trabalhar com a Atresmedia e que terão um grande impacto em ambos os nossos negócios.

Como é que descreveria o vosso público-alvo português?
A Fever é uma plataforma para qualquer pessoa que esteja à procura de descobrir e desfrutar de grandes experiências na sua cidade. Isto significa que o nosso target são os cidadãos locais, maioritariamente entre os 18 e os 45 anos, sendo que mais de 30% têm mais de 30 anos. Claro que um produto que é útil para os locais rapidamente se pode tornar útil para os turistas que estão à procura de experienciar a cidade como um local.

Quais são os vossos próximos grandes passos?
Dado que somos uma empresa que está a inovar, vamos continuar a investir significativamente na pesquisa e desenvolvimento para enriquecer o nosso produto – tanto para os consumidores, como para os organizadores.

Vamos também continuar a transformar e a elevar a fasquia na oferta de eventos que temos nas cidades com os Fever Originals, tal como a aumentar o número de cidades em que estamos, de forma a continuarmos a inspirar as pessoas de todo o mundo através de experiências.

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