Em todas as empresas em que trabalhei e estudei, havia sempre pessoas que eram uma doçura no Facebook e no Instagram. A timeline destas pessoas é uma sequência de fotos com amigos, filhos e coelhinhos de peluche daqueles bem fofinhos.

Cada foto é enterrada em comentários que descrevem a pessoa como um dos melhores seres humanos à face da terra: um ser de carinho, amizade e amor. Uma loja de doces, sob a forma de um ser humano dedicado ao bem e aos outros.

O que sempre me espantou é que algumas destas pessoas eram capazes de atos cruéis e cobardes. Algumas destas pessoas tratavam os outros como meras casas decimais de um numerozinho numa folha de Excel. Outras calavam-se perante injustiças gritantes na sala de reuniões, para depois as virem denunciar nos corredores. Baixinho, para não ter que pagar o preço de ser uma pessoa decente lá na empresa.

Depois de ver alguns destes episódios ao vivo, cheguei à conclusão de que, para estas pessoas, o Instagram e o Facebook não são meios de expressão. O Instagram e o Facebook são uma lixívia poderosíssima, para branquear a opinião que estas pessoas têm de si próprias.

O Facebook e o Instagram são meios de expressão, quando uma pessoa que põe fotos fofinhas nestas redes sociais, também faz o bem. Ou que, pelo menos, tem a coragem de denunciar o mal. Eu conheço algumas pessoas assim. Pessoas que, quando estão numa reunião, não têm medo de questionar os seus líderes, nem de expor incompetentes habilidosos.

Mas há pessoas que usam o Facebook e o Instagram de maneira muito diferente. Para estas pessoas, o Facebook e o Instagram são como o duche que o James Bond e a Vesper Lynd tomaram ainda vestidos, depois de matar meia dúzia de pessoas no Casino Royale. O Facebook e o Instagram são uma forma de conseguir que os nossos amiguinhos online digam que somos doces e fofinhos, ao fim de um dia de trabalho em que, por iniciativa ou cobardia, lixamos a vida a meia dúzia de seres humanos que mereciam melhor.

Estas pessoas que são um docinho no Instagram, mas bem azedas na sala de reuniões, chamam a atenção para uma função muito importante dos líderes: humanizar as decisões que se tomam lá na empresa.

Os líderes precisam de pôr nomes e caras nos números, quando se estão a discutir decisões difíceis. O objetivo não é fazer as pessoas sentirem-se culpadas pelas decisões que estão a tomar. O objetivo é dar uma boa razão às pessoas, para encontrarem soluções alternativas.

Assim, talvez a sua empresa deixe de cumprir os números da maneira mais fácil, que é cortar nos custos. Talvez seja possível fazer gestão a sério — daquela que aumenta a faturação, porque cria mais valor.

Até porque não sei se o Instagram e o Facebook têm largura de banda para aguentar ainda mais lavagens de alma com ‘likes’ e coraçõezinhos.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of Management do MIT, e Mestre em Comportamento Organizacional, pelo ISPA. A sua escrita tem um tom irónico e provocador. O objetivo é ajudar os gestores a refletir sobre o que... Ler Mais