Sempre que se fala de liderança surge desde logo a ideia de projeto, de iniciativa, de uma determinada missão ou ambição existente que, de uma forma endógena ou exógena, carece à partida, seja porque surge de entre o seio de uma equipa, seja porque lhe é imposta, de uma liderança, de um líder.

Peça-se a qualquer pessoa que faça uma associação de ideias e palavras com a questão da liderança e, tenho sérias dúvidas, que alguma das resposta saia deste cliché tão típico de imediatamente associar características pessoais da pessoa, do líder, às ações ou atividades a serem desenvolvidas, à gestão de recursos e equipas, à implementação de visão, capacidades políticas ou diplomáticas, enfim, uma miríade de adjetivos qualificativos que são totalmente indissociáveis do cerne ou preconceito existente, isto é, da idea de fazer ou alcançar algo e de como um determinado líder irá alcançar esse desiderato.

Mas, será mesmo só nesses casos que se verifica uma situação de liderança? Veja-se já vários casos em que a ação a ser tomada é negativa, como seja por exemplo uma retirada estratégica, uma redução de ação. Não há qualquer dúvida que também aí se ligam diretamente noções e opiniões subjetivas de liderança aos acontecimentos em curso. Seja a visão que permitiu retirar e repensar antes de um colapso, o tal “viver para lutar outro dia”, seja a sagacidade que impele à máxima do “um passo atrás para dois adiante”, entre outros exemplos. Também aqui não restam dúvidas que há um líder, alguém que toma as rédeas do redimensionamento de um projeto, que impele à ação no sentido de recuperar e repensar estratégias.

E quando se desiste de algo? Deixa de haver líderes? Será que a liderança cessa no momento em que se reconhece um fracasso e se decide encerrar um projeto?

Será difícil ser tão elogioso para alguém nessas circunstâncias. Não há aqui enormes e amplos objetivos para serem alcançados. Não há aqui um recuo estratégico com vista ao repensar de um modelo. Aqui desiste-se. Um líder – será que o deixa de ser? – percebe que não vale a pena insistir mais numa ideia e simplesmente toma a decisão de a abandonar. Palavras-chave nessa situação são mesmo essas, desistência, fracassso. Aponta-se a falta de liderança como causa do insucesso, a inexistência dessa que conduz ao iminente desastre.

Mas liderar não é só nos bons momentos. É liderar quando se age para construir mas, infelizmente, também é liderar para destruir, salvo seja. É preciso um líder para assumir que algo não correu bem, que ficou além das expetativas, que falhou mesmo. É preciso saber liderar para acabar com um projeto, para lidar com as frustrações, para saber “fechar a porta” com a mesma elevação e dignidade com que se abriu a mesma inicialmente.

Ser um líder passa por tudo isto. Saber ter uma ideia, saber levá-la adiante, saber gerir sucessos e fracassos mas, também, pese embora muito menos valorizado, saber terminar uma iniciativa, reconhecer que a mesma está gasta e, com a mesma elevação e profissionalismo, liderar a desistência. E é preciso, julgo, nunca esquecer isso se queremos ter líderes e não apenas pessoas que só aparecem no “up moments”.

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Sobre o autor

Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues é atualmente Chairman da Lusitano SAD e da BDJ S.A. Anteriormente, foi Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É... Ler Mais