Consta que perguntaram a Gandhi “ o que destrói um ser humano”, pelo que ele respondeu: “A Política, sem princípios; o Prazer, sem compromisso; a Riqueza, sem trabalho; a Sabedoria, sem caráter; os negócios, sem moral; a Ciência, sem humanidade; a Oração, sem caridade.”

Já se passou o primeiro mês do ano e, a esta altura, as avaliações referentes a 2017 e a definição de novas atividades para 2018 já estão feitas ou em curso.

Geralmente, quem faz a avaliação são as organizações, mas, individualmente, além da avaliação profissional, nós, enquanto líderes e liderados, devíamos fazer esse exercício de auto avaliação, mas de uma forma global ou holística. Qual foi a nossa contribuição para que o mundo, até 2017 fosse melhor, quer como profissional, como cidadão, como líder, como obreiro, como político, como membro de uma família, etc.

Ver e avaliar o resultado da nossa participação seria uma primeira parte. Mas nem tudo vale, pelo menos penso assim, e isso nos levaria para a segunda parte dessa avaliação. Além da eficiência e eficácia (fazendo as coisas certas e utilizando da melhor forma os meios), temos que preocuparmo-nos se, ao atingir os tais resultados, não estamos a violar princípios e normas de qualquer natureza, seja familiar, jurídica ou de convivência social. Ou seja, é bom atingir os resultados, é nosso dever, mas não a todo o custo e nem com a visão somente de curto prazo. As nossas ações e decisões devem ser vistas do ponto de vista da sustentabilidade, da durabilidade.

Assim, enquanto líderes, esses resultados são fruto da qualidade das nossas decisões, um assunto que já tratamos aqui. Também, enquanto liderados, a nossa atuação a fim de conseguir os resultados, carece de princípios e valores. Sendo assim, independente da posição hierárquica, a avaliação deve ser feita também relativamente aos valores e princípios. Mas vamos debruçar-nos sobre a liderança.

Se Gandhi considera que o que destrói um ser humano é a Política sem princípios, o Prazer sem compromisso, a Riqueza sem trabalho, a Sabedoria sem caráter; os negócios sem moral, a Ciência sem humanidade e a Oração sem caridade, podemos fazer a mesma pergunta: o que destrói um líder?

A resposta não seria muito diferente. Não é raro ver pessoas em cargos de liderança a violarem os mais básicos princípios e normas de convivência social, leis e regulamentos.

Um líder é destruído quando não tem nem princípios nem valores na sua atuação. Nesse caso, atua ao sabor das conveniências e das alianças táticas de curto prazo, até ao surgimento da próxima crise em que terá a necessidade de fazer uma nova aliança tática. Mas o curioso disto tudo é que vivemos na época do pós- verdade, em que já não são apenas os princípios e valores que estão em causa, mas a própria verdade.

Um líder é destruído quando não tem compromissos nem com os objectivos de longo prazo, nem com a organização e tampouco com os colaboradores. Se o líder não tem valores nem princípios e não tem compromisso, a sua atuação passa a ser como a de um de barco sem rumo, sem volante, sujeito à direção do vento e das correntes, conforme o caso.

Um líder é também destruído quando não dá o bom exemplo de trabalho, empenho e dedicação aos colaboradores. Que autoridade terá para exigir dos colaboradores se não lhe reconhecem empenho e dedicação? Neste caso deixa de ser líder e passa a ser apenas xefe (sim, chefe com x), podendo fazer cumprir com os objetivos mas pela via da intimidação e do assédio e não pela via da liderança e do coaching.

Um líder é destruído se não tem caráter, por mais competente que possa ser. Segundo a definição, caráter é um conjunto de traços relativos à forma de agir de uma pessoa. Esta pessoa sem ou de mau caráter, geralmente é catalogada de desonesta, pois não apresenta firmeza de princípios ou de moral. Infelizmente, o mundo das organizações tem alguns líderes e seguidores com défice de caráter.

Esta análise é também extensível à falta de moral, à falta de caridade e de humanidade. São tudo princípios que o líder deve desenvolver, naturalmente ao lado da sua competência técnica e qualificação.

Sendo assim, é necessário um sistema de valores e princípios que oriente o trabalho dos líderes e dos colaboradores, e quando falamos desse sistema, não estamos a falar das normas e regulamentos relacionados com a Governance ou com leis. Aliás, leis não faltam. Falamos sim de um sistema de princípios que geralmente se carrega desde o berço, sem necessidade de leis adicionais.

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Sobre o autor

Carlos Rocha

Carlos Rocha é administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi Administrador Executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e política monetária em Cabo Verde, pelo Instituto Superior de Economia e Gestão – Lisboa, é mestre em Desenvolvimento Económico e Social em África, com especialização em Política Económica e Desenvolvimento de Negócios,... Ler Mais