No dia 6 de julho apresentei um livro sobre como dizer ‘não’. Quero aproveitar para falar dos ‘nãos’ que ouvimos, que são tão importantes como os nãos que dizemos.

Como escritor, ouço não muitas vezes. Lembro-me de um que me assustou e que me deixou muito triste. Foi um artigo que foi rejeitado depois de estar três anos numa revista excelente, daquelas que constroem ou destroem carreiras. Quando se manda um artigo para uma revista científica, há uma troca de cartas (mais ou menos de seis em seis meses) entre o autor e a revista para se melhorar o artigo até estar em condições para ser publicado. Mas o artigo pode ser rejeitado a qualquer altura. Foi o que me aconteceu depois de trocar cartas durante três anos com uma revista fantástica, sempre a tentar mudar o artigo para melhor.
Já tive textos rejeitados muitas mais vezes, mas este foi o que doeu mais. Mas continuei, e quero partilhar consigo o que é que aprendi:

1. Estabelecer um ritual
Eu não conheço ninguém que goste de receber feedback negativo. Um ‘não’ é um feedback muito negativo e por isso muito difícil de ouvir. Mas os ‘nãos’ são uma oportunidade única para aprender. Por isso, a primeira coisa que se deve fazer é retirar a carga negativa do ‘não’ para o poder usar para aprender. Eu pessoalmente gosto de imprimir os emails que me dizem ‘não’ e fazer uma grande bola de papel e esmagá-la aos murros. Depois corto tudo aos bocadinhos e depois faço uma fogueirinha.
Depois imprimo outra vez e leio com calma.

Tenho um colega que imprime os emails a dizer não e rasga-as aos pedacinhos. Faz isso três vezes e depois imprime outra vez para ler e aprender.
Crie o seu próprio ritual para retirar a carga negativa do não. Só depois é que dá para aprender alguma coisa.

2. Aprender sobre contexto com os ‘nãos’ dos outros.
A melhor maneira de conhecer as regras de um grupo de pessoas, de uma empresa ou de um país é quebrando-as. Todos os ‘nãos’ que você ouve têm pelo menos alguma informação sobre o contexto em que você trabalha. Para os escritores, a informação é que as rejeições fazem parte do processo. Mas para quem trabalha numa empresa, as rejeições dão muito mais informação. Um ‘não’ mostra qual é a sua posição nas relações de poder e influência. Um ’não’ mostra algumas das regras que definem a cultura da empresa. Acima de tudo, um ‘não’ mostra os caminhos que estão fechados à partida para si lá na empresa. Claro que não dá para aprender isto tudo de um ‘não’ isolado. Você precisa de muitos ‘nãos’ e por isso se não quer correr o risco de ir para a rua tem que aprender com os ‘nãos’ dos outros. Usar os nãos dos outros para aprender sobre a empresa ajuda-o a descobrir como conseguir ouvir ‘sim’ mais vezes no futuro.

3. Decidir o que fazer a seguir
O mais importante para fazer com um ‘não’ é decidir o que fazer a seguir. E isso é muito difícil. Por um lado, há que evitar cair na tentação dos custos afundados: já que se esforçou por levar uma ideia avante, não vai desistir até as consequências do seu fracasso serem grandes demais para continuar. Por outro lado há que evitar matar ideias que merecem que você lute por elas. A resposta não é simples. Eu pessoalmente nunca desisti de nenhum dos meus artigos, mas trabalho em vários de cada vez na esperança que alguns ouçam ‘sim’ mais facilmente. Até agora tem funcionado (mais ou menos).

Um ’não’ não é o fim. É o princpío da luta por todas as ideias que valem a pena.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of Management do MIT, e Mestre em Comportamento Organizacional, pelo ISPA. A sua escrita tem um tom irónico e provocador. O objetivo é ajudar os gestores a refletir sobre o que... Ler Mais