A tecnologia

Quem é da geração X ainda se lembra do ruído característico do modem de 56 Kbps analógico (para quem não se lembra basta fazer uma pesquisa na web), ao se conectar ao servidor do provedor de acesso à internet. Deve lembrar-se de que não bastava ligar o computador “desktop” para se ter o acesso. Tinha que se discar o acesso – dial up.

O serviço via acesso dial up tinha limitações nos conteúdos e na velocidade, devido às limitações próprias do acesso à banda, bem como limitações próprias do material – um par de fios de cobre.

Hoje, graças à tecnologia, o serviço de acesso aos conteúdos é permanente, isto é, estamos always ON, com acesso permanente e com uma largura de banda inimaginável há duas décadas. Foi necessário um trabalho de base nas infraestruturas, para que se aumentasse o âmbito do serviço prestado. Dito de outra forma, tudo isso porque a tecnologia (software) evoluiu, bem como os materiais e as máquinas (hardware) e, de certa forma, os gestores também. De certa forma? Nem todos…

Tecnologicamente, passamos de um acesso discado, através de um par de fios de cobre, para um acesso permanente, através da fibra ótica; passamos de um assinante por cada par de fios de cobre, para múltiplos acessos; passamos de uma tecnologia onde voz e dados se acotovelavam, para uma nova situação de integração de voz, dados e imagem na mesma plataforma.

O gestor

A tecnologia mudou, o serviço mudou, e o gestor? Que tipos de gestor temos atualmente nas organizações, sejam elas start-up ou incumbentes?

Um chefe tipo dial up seria o gestor com decisões limitadas no âmbito e no tempo, ou seja, a estrutura cognitiva de decisão não lhe permitiria ir muito além, infelizmente. Um chefe dial up tomaria as decisões e as comunicaria gota a gota (não confundir com a tecnologia de rega), enquanto que um líder fibra (always On ou banda larga) não tem problemas em fornecer toda a informação necessária aos seus colaboradores.

Tecnologicamente, a fibra não sofre interferências eletromagnéticas. Assim deve ser também o líder fibra, contrariamente a um chefe “de cobre” que não saberia distinguir as interferências, ou seja, no seu processo de tomada de decisão não conseguiria distinguir o ruído da mensagem. Da mesma forma, o chefe de cobre não conseguiria conviver com o dissenso na mesma plataforma, já o líder fibra aceita o dissenso.

A fibra não transporta energia elétrica, pelo que não há risco de incêndio em ambientes altamente inflamáveis, caso a mesma fibra se rompa, contrariamente ao cobre que pode provocar faísca e, eventualmente, algum incêndio. Um líder fibra está imune a situações de stress e de rutura, contrariamente a um chefe de cobre que explodiria perante uma situação explosiva. Um chefe cobre não saberia lidar com potenciais conflitos, não saberia mediar, entraria em curto circuito rapidamente.

Um líder fibra é capaz de executar a sua tarefa e fazer com que a equipa trabalhe, mesmo no ambiente “explosivo”, isolando a organização dos ruídos e dos perigos. Já um chefe de cobre, por não ter essa imunidade e isolamento e pela sua própria natureza, seria capaz de ele próprio, com as suas reações, destruir a sua própria equipa.

A fibra é muito compacta relativamente ao cobre. Para se ter uma ideia, pode ser 25 vezes mais leve do que o cobre (wikipedia). Um líder fibra é mais eficiente do que um gestor de cobre, capaz de identificar e eliminar as “gorduras” da sua organização. Sabe distinguir o acessório do essencial, o prioritário do urgente, o curto do longo prazo.

Para longas distâncias, a fibra é melhor, porque tem menos perda de sinal. Comparada com o cobre, a fibra não precisa de muitos repetidores ao longo do percurso. O líder fibra always ON, contrariamente ao chefe de cobre Dial Up, não precisa de muitos repetidores para transmitir as suas ideias e instruções aos colaboradores, porque está sempre perto deles e os acompanha e os orienta. O chefe de cobre precisaria de uma cadeia de comando longa, para demonstrar o seu poder, até como escape para se esconder.

Concluindo

Caro leitor, não me venha dizer que já identificou um chefe de cobre… E você, gestor dial up, desculpe-me, mas desconecte, troque o velhinho modem 56 Kbps pelo router de fibra ótica (banda larga e atual 4G) e alargue os seus horizontes. Caso contrário, até você tomar a decisão, a tecnologia 5G (cinco G) pode ficar obsoleta.

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Sobre o autor

Carlos Rocha

Carlos Rocha é administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi Administrador Executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e política monetária em Cabo Verde, pelo Instituto Superior de Economia e Gestão – Lisboa, é mestre em Desenvolvimento Económico e Social em África, com especialização em Política Económica e Desenvolvimento de Negócios,... Ler Mais