A popular expressão laissez faire simboliza um “deixar fazer” tradicionalmente associada ao capitalismo económico, a uma menor regulação e maior raio de acção à iniciativa privada, tendo porém sido mais tradicionalmente adoptada no vocabulário corrente para simbolizar um certo desinteresse e apatia perante determinadas situações que determinariam um comportamento distinto.

Transposta para o âmbito empresarial, esta situação assume cada vez mais contornos dramáticos em que a desresponsabilização e desinteresse generalizados conduzem a uma crescente ausência de solidariedade e, acima de tudo, compromisso para com os objectivos e metas de uma determinada instituição.

O problema não é apenas da economia em si mesma. Quantos não verificámos já situações deste género a nível dos serviços públicos, das instituições privadas, das relações familiares, enfim, em bom rigor da maioria das situações relacionais com que nos deparamos na generalidade do nosso dia-a-dia?

Em bom rigor, porquê fazer algo que não é nossa responsabilidade, mesmo quando vemos que quem o deve fazer não faz ou não consegue fazer? Qual o mérito de ajudar quem precisa quando não temos correspondência direta remuneratória ou similar em consequência dessa ajuda? A que título é que nos devemos preocupar quando, quem o deve fazer, claramente não está preocupado com determinada situação?

É muito complicado exigir a alguém este tipo de brio profissional, esta solidariedade intensa que leva a que um “soldado desconhecido” entre no “campo de batalha” em auxílio dos seus colegas. Mas o facto de ser complicado exigir não o faz menos exigível, pelo contrário. Aliás, nem deveria de todo ser complicado exigir aquilo que eticamente seria esperado de todo e qualquer membro de uma estrutura, familiar, empresarial, pública, etc., que tenha um mínimo de consciência que o todo é efetivamente mais que a soma das partes e, amiúde, o sucesso das partes – ou de algumas delas – raramente se traduzirá no sucesso do todo.

Sim, reconheço que isto é um convite a que muitos se “encostem”, sabendo perfeitamente que se não dão o que podem outros virão para salvar o dia. E até se trabalha menos assim, e ganha-se provavelmente o mesmo. Muitos alegarão que o problema está no sistema de recompensa associado ao cumprimento de objectivos, que a remuneração deveria contemplar melhor estas situações, tratando de forma igual o igual e desigual o desigual. Concordo, sem dúvida, mas apenas num plano teórico. Na prática, gratificar extraordinariamente o trabalho bem feito significa reconhecer que o salário “base” é quase como que um pagamento apenas associado à presença física, aos serviços mínimos, sem que do mesmo se possa esperar excelência. E isso não posso nunca aceitar.

Não se mudam mentalidades numa ou duas gerações e, por isso, vamos fazendo como o ditado e deixamos andar…

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Sobre o autor

Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues é atualmente Chairman da Lusitano SAD e da BDJ S.A. Anteriormente, foi Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É... Ler Mais