“A estratégia de mascarar as próprias emoções e de manipular as emoções dos outros para atingir os próprios objetivos são comportamentos que não são evidentes apenas no palco de Shakespeare, mas também nos escritórios e corredores onde são negociados o poder e a influência.”

Em 1995, quando Daniel Goleman publicou o seu primeiro livro sobre a inteligência emocional eram poucas as pessoas que conheciam o termo. No meio académico o conceito já tinha sido introduzido por dois psicólogos: John D. Mayer e Peter Salovey.

Num avanço rápido para os dias de hoje podemos encontrar o termo distribuído por todo o lado. E a verdade é que a maioria das referências ao conceito são positivas: como é um trunfo no mundo dos negócios ou a razão para ser crucial para o sucesso são apenas dois exemplos de artigos sobre o tema escritos pela equipa do Link to Leaders.

O que não encontramos com frequência são artigos a descrever o lado negro da inteligência emocional. Se é verdade que alguns dos momentos positivos mais marcantes da História recente da Humanidade foram conduzidos pela inteligência emocional, como o sonho de Martin Luther King Jr., é igualmente verdade que os negativos tiveram esta característica emocional como veículo de manipulação das massas, como o caso de Adolf Hitler e da onda Nazi.

Está comprovado que a inteligência emocional é crucial para o sucesso, mas convém lembrar que este atributo não passa de uma ferramenta. No seu formato extremo, a inteligência emocional é puro maquiavelismo – a arte de manipular socialmente outras pessoas de forma a atingir objetivos pessoais.

A título de exemplo, da mesma maneira que alguém com habilitações para o mundo do crime se pode tornar num detetive, ou criminoso, brilhante, as pessoas mais dotadas com este tipo de inteligência podem utilizar esta competência para o bem ou para o mal.

Numa revisão sobre o lado negro da inteligência emocional, Martin Kildare, chair da Organizational Behavior da Univeristy College London, escreveu que as pessoas com mais inteligência emocional “formatam intencionalmente as suas emoções para construírem impressões favoráveis sobre elas… A estratégia de mascarar as próprias emoções e de manipular as emoções dos outros para atingir os próprios objetivos são comportamentos que não são evidentes apenas no palco de Shakespeare, mas também nos escritórios e corredores onde são negociados o poder e a influência”.

Estudos que mostram o lado negro da inteligência emocional

1 – Num estudo elaborado por dois psicólogos, foi pedido a um pequeno grupo de alunos universitários que resolvessem um problema: como é que sobreviveriam depois do despenhamento de um avião numa montanha pouco acessível com apenas uma corda, fósforos e um litro de água.

Em cada um dos grupos, houve um ou dois indivíduos que se chegaram à frente para dominar os restantes membros, de forma a direcionar e moderar a discussão e enfatizar algumas das soluções oferecidas.

O interessante deste estudo é que os membros que se mostraram mais dominantes foram também os que apresentavam melhores aptidões para enganar os colegas. Por exemplo, quando lhes foi pedido que provassem um líquido com um sabor desagradável e que mentissem aos restantes membros sobre o sabor, estes alunos dominantes mostraram-se bastante mais eficazes a convencer os colegas.

O estudo foi também levado a cabo por crianças do pré-escolar. Mais uma vez, as crianças dominantes mostraram ser melhores a enganar os colegas.

2 – Noutro estudo, realizado em 2010, um grupo de cientistas descobriu que os indivíduos que demonstravam características narcisistas criavam melhores primeiras impressões de si mesmo nas outras pessoas ao utilizarem o humor e expressões faciais “encantadoras”.

3 – Um estudo de 2011 revelou que os “maquiavélicos” (seguem a doutrina de Machiavelli/ que mostram uma apetência para manipular os outros para vantagem pessoal) que apresentavam um nível mais elevado de inteligência emocional têm mais probabilidades de realizar ações que rebaixam os outros, como embaraçar publicamente alguém no local de trabalho.

4 – Outra análise, desta vez feita em 2013, concluiu que aqueles que têm uma tendência para explorar os outros para benefício pessoal apresentam melhores competências no que toca a ler as emoções dos seus pares, o que se traduz numa maior inteligência emocional.

Como combater este tipo de pessoas

As tentativas de influenciar e manipular as emoções são muito comuns. Desde políticos, que tentam ganhar os votos da população, a empresas que querem levar os consumidores a gastar dinheiro nos produtos que vendem, ou a colegas de trabalho que querem que faça o trabalho deles. Os exemplos estão em todo o lado.

Como se consegue “combater” este tipo de pessoas que estão constantemente a tentar manipular os outros? A resposta mais simples é treinar a sua própria inteligência emocional. Desta forma, conseguirá perceber como e quando é que o estão a tentar manipular.

Isto pode ser concretizado através da prática. O objetivo é tornar-se mais consciente de si e do que o rodeia de maneira a ganhar mais controlo sobre as suas ações e pensamentos. Para iniciar esta tarefa comece, por exemplo, por ler os “cinco exercícios para aumentar a sua inteligência emocional” e os “dez livros a ler para aumentar a inteligência emocional”.

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