Uma das contradições mais deliciosas que vi nas empresas são as listas de tarefas completas que as pessoas tem na mesa ao fim do dia enquanto estão a jogar ‘solitário’ no computador.

As listas de tarefas são a ferramenta mais utilizada para gerir o tempo no trabalho. As listas de tarefas são um sinal da gestão moderna. São sinal de que as pessoas são responsáveis pelo seu próprio tempo. Que podem fazer as suas tarefas pela ordem que quiserem, desde que o trabalho apareça feito. As listas de tarefas são acima de tudo um sinal de liberdade. A prova de que já não é o chefe que decide o que é que cada um de nós faz e quando é que faz. Quem decide somos nós, porque somos nós que escrevemos as nossas tarefas para o dia e somos nós que organizamos as nossas tarefas da forma que nos apetece.

Mas depois há o solitário. O solitário é um jogo de cartas no computador que as pessoas jogam sozinhas. É o jogo que resiste a firewalls e a autenticações porque vem instalado por defeito no sistema operativo. O solitário é o que as pessoas fazem no trabalho quando não têm nada para fazer. Quando as pessoas estão cansadas ou não têm mais energia, vão à internet, levantam-se para beber um café ou vão lá abaixo fumar um cigarrinho. Estas e outras coisas são todas melhores do que jogar solitário. Jogar solitário é uma seca. Mas às vezes tem que ser. À hora do jantar, porque é a essa hora que o chefe está lá no escritório para ver quem fica depois das 6 da tarde. É com o solitário que se pica o ponto da presença inútil. Que não adianta nada para a empresa, mas que pode adiantar muito para quem fica porque mostra que está mais comprometido, mais motivado. Que é alguém que se esforça, que é alguém com quem se pode contar.

É um teatro, claro. Mas é um teatro que diz muito sobre o que pode ser liderar. Especialmente quando ao lado do teclado está uma lista de tarefas cheia de cruzes e traços, cheia das cicatrizes do dia de trabalho.

O contraste entre a lista de tarefas e o jogo de solitário no ecrã do computador mostra que afinal o tempo não é das pessoas. O tempo é de quem manda. Claro que cada um pode fazer o máximo para despachar tudo o mais cedo possível. Mas depois não adianta. Depois é preciso ficar para se mostrar.

O contraste entre a lista de tarefas e o jogo de solitário mostram que quem manda é que tem poder sobre o tempo das pessoas. Pode não decidir que tarefas é que as pessoas fazem. Mas é quem decide quando é que o dia acaba e por isso também é quem decide quanto tempo pessoal é que cada pessoa paga para se manter no jogo do poder. O problema é que não são só as pessoas que pagam. Também é a empresa. A tensão entre trabalho e família gasta muita energia que as pessoas podiam usar para trabalhar. E quando as pessoas chegam a casa essa tensão continua. A noite não chega para restaurar a energia que as pessoas precisam para trabalhar no dia seguinte. Mas não faz mal. Porque se as pessoas estiverem cansadas podem sempre ir à internet, ir tomar um café com o colega ou ir fumar um cigarro lá em baixo. Não faz mal. No pior dos casos é menos 20 minutos de solitário ao fim do dia.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais