Tirei a foto acima num desfile popular em Lisboa. A mancha castanha-avermelhada onde o homem bate no tambor não é do uso. É sangue no tambor.

É sangue que fica no tambor porque o homem estava a tocar com tanta força que tinha os nós dos dedos em sangue. Mas não é uma mancha recente. É uma mancha antiga que tem o sangue de toda a gente que tocou este tambor.

Deixou-me a pensar, esta mancha no tambor. Nunca tinha reparado. Se vi alguma antes, devo ter pensado que era desgaste na pele. Nunca pensei que era sangue. Mas é. Os nós dos dedos do homem do tambor estavam em sangue.

Fiquei a pensar porque é um bocadinho como o meu trabalho. O que interessa aos outros são os resultados, é o barulho que faz o tambor. Para fazer as pessoas vibrarem com a vibração do tambor, é preciso tocar alto. Para chamar a atenção é preciso tocar alto. E se calhar há uma técnica para tocar alto que o homem da fotografia não sabe. E como não sabe, fica com as mãos em ferida e deixa sangue no tambor. Se calhar o homem da fotografia é como eu. Uma pessoa que teima em fazer uma profissão de uma coisa que não sabe fazer, um salmão que teima trepar uma árvore. Mas, mesmo assim.

Fiquei a pensar porque é um bocadinho como o meu trabalho, que não soa muito alto apesar de eu tentar com tanta força que “deixo sangue no tambor”. Mas descobri uma coisa: o que dá vontade de continuar a tocar não é o barulho que o tambor faz, mas o sangue que lá deixamos e, mais do que isso, o sangue que lá está.

E por isso, se calhar não faz mal eu não tocar muito alto porque quem vai tocar a seguir vai tocar com mais força por causa do sangue seco que fica. Alguns tocarão pior do que eu, mas outros vão tocar melhor. E isso é mais do que suficiente para me dar força para continuar.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais