Só nos Estados Unidos, a indústria da auto-ajuda vende quase 10 billiões de dólares. Vai crescer acima dos 13 biliões de dólares até 2022. O problema é que os livros, os gurus e os “coaches” estão a tomar conta das tarefas de liderança que os gestores se recusam a fazer.

A indústria da auto-ajuda já existe há muitos anos. O que é novo é que esta indústria expandiu-se para fazer muito do trabalho que devia ser feito pelos líderes nas empresas.

Nos anos 80, este sector assentava em livros como os de Norman Vincent People e Lauro Trevisan. Eram livros sobre o poder do pensamento positivo e do otimismo. Também haviam livros sobre carreira e livros sobre networking e persuasão, como o “Como influenciar pessoas e fazer amigos” do Dale Canergie.

Hoje, vários best-sellers de auto-ajuda são sobre como trabalhar melhor. Há livros para ajudar a decidir o que fazer no trabalho, como o “Getting things done”. Mas a maior mudança na indústria da auto-ajuda foi o aparecimento da profissão de “coaching“. Hoje são os coaches e não os líderes que são procurados para ajudar as pessoas a desenvolver a sua carreira e às vezes até melhorar os seus métodos de trabalho.

Em resumo, a indústria da auto-ajuda está a crescer muito porque está a conseguir ficar com muitas das tarefas que fazem parte do trabalho dos líderes. E a culpa disto é dos gestores, que parecem estar satisfeitos por abdicar gradualmente das suas tarefas de liderança. Para mim, o sintoma mais claro de que os gestores estão a desistir de liderar é como se tem falado do tema da inteligência artificial. A ideia é que é só uma questão de tempo até um computador conseguir fazer qualquer tipo de trabalho. Isto só faz sentido se as pessoas forem vistas como mão de obra que só serve para executar tarefas pré-definidas. Mas basta ler qualquer livrinho de gestão desde os anos 80 para saber que não é assim.

Nos anos 80, os livros de gestão sobre as fábricas japonesas mostraram que os colaboradores são capazes de gerar um fluxo de pequenas melhorias que acabam por ter grande impacto na inovação e nos custos das empresas. Os robôs dos armazéns da Amazon não querem saber de mudanças para nada. Não são, e não serão programados para isso. Mas os gestores que acham que não se perde nada em substituir pessoas por máquinas não sabem e não querem saber. E por isso a sua ideia do trabalho de um líder vem de exemplos como Steve Jobs e Elon Musk. Pessoas que são conhecidas por definir estratégias geniais, e não por aproveitar o potencial dos seus colaboradores.

Não é só o potencial de inovação que se perde. Muitos dos livros de auto-ajuda focam-se numa pequena parte do que as pessoas precisam de fazer para contribuírem para os resultados da empresa. Por exemplo, há muito pouco sobre o trabalho em equipa. O foco é o trabalho e o sucesso individual. E depois, há vários bestsellers de auto-ajuda que não tem qualquer base científica. Isto já para não falar na proliferação de “coaches“, que nos Estados Unidos já facturam em conjunto um bilião de dólares. Há livros e “coaches” excelentes, mas há outros que só servem para espalhar más práticas de trabalho e relacionamento.

Mas mesmo que todos os livros de auto-ajuda e todos os coaches forem super competentes, os gestores que abdicam da liderança tem um problema sério. Cada um dos seus colaboradores usa princípios e ferramentas completamente diferentes para trabalhar e isso gera problemas enormes de coordenação e integração.

Está na altura de os gestores voltarem de novo ao seu papel de líderes, não só porque traz melhores resultados como também porque é essa a verdadeira vocação dos gestores.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais