Cada um de nós tem uma “voz” de liderança. Para as pessoas que cada um de nós lidera, essa voz soa bem alto. Mas às vezes nós não ouvimos a nossa própria voz enquanto líderes porque estamos mais focados no tipo de líderes que queremos ser e não no tipo de líder que somos.

Há pessoas que tem uma profissão que os obriga a trabalhar sistematicamente para desenvolver a sua voz. São os escritores. Para os escritores, a voz não é apenas a forma como escrevem, nem as palavras que escolhem. A voz é a perspetiva individual e única que cada escritor têm sobre a sua experiência, sobre o mundo e sobre a condição humana. Pense nos seus colunistas preferidos aqui, no Link To Leaders. Porque é que gosta mais de uns e menos de outros? Não é só por causa das palavras que usam para descrever a liderança e a vida nas empresas, mas também pela perspetiva que têm sobre o mundo dos negócios.

A voz dos líderes é mais ou menos a mesma coisa. A voz dos líderes ouve-se na forma como lideram os colaboradores e nas decisões que tomam. Mas a voz dos líderes é mais do que isso. É a forma como os líderes interpretam a empresa e a condição humana dos colaboradores, dos clientes e até dos concorrentes.

Eu acho que a voz é tão importante para os líderes como é para os escritores. E pela mesma razão. O catálogo da Amazon tem mais de 30 milhões de livros. O mundo não precisa de mais romances. Mas precisa muito de romances com vozes diferentes que nos ajudem a compreender e a ultrapassar os desafios diferentes que vivemos hoje. Por isso, o valor de um escritor ou de uma escritora dependem da sua voz.

Nas empresas é a mesma coisa. Há cada vez mais concorrência em todos os sectores. O mercado não precisa, nem sustenta mais uma empresa igual às outras. Como há mais empresas, também há mais pessoas com experiência de liderança. Isso quer dizer que também há mais pessoas a concorrer para cargos de liderança. É por isso que você precisa de desenvolver a sua voz de liderança. Porque é a sua voz que torna a estratégia da sua empresa única (ou pelo menos diferente) e é a sua voz que o distingue enquanto líder. Mas mais importante do que isso tudo, é a sua voz que transforma tudo aquilo que você é e tudo o que você viveu num contributo concreto para o Mundo.

Todos temos uma voz enquanto líderes. Mas essa voz pode resultar de intuições e reações, em vez de ser baseada em decisões e intenções.

A melhor maneira de desenvolver a sua própria voz como líder é fazer o mesmo que os escritores: absorver, imitar e agir ouvindo.

O primeiro passo para desenvolver uma voz como escritor é ler muito. Na liderança é a mesma coisa. Na nossa carreira somos expostos a vários tipos de líderes. Além disso há cada vez mais biografias oficiais e não oficiais de líderes conhecidos. Ouvir a voz de outros gestores ajuda-nos a perceber melhor o que é que queremos e o que é que não queremos ser enquanto líderes.

O segundo passo é a imitação. Os escritores começam por imitar o estilo dos seus autores preferidos. Para os líderes isso significa seguir princípios de relacionamento com os colaboradores que descobriram durante as suas carreiras, ou imitar princípios de estratégia dos gestores que admiram.

O terceiro passo é agir ouvindo. À medida que cada um de nós toma decisões de liderança, vamos criando a nossa própria voz. Para a desenvolver, temos que ouvir com cuidado o que as nossas decisões comunicam aos outros e mudar de forma a termos a voz consistente que queremos.

Ao desenvolvermos a nossa voz como líderes, estamos a ajudar os outros a desenvolver a sua própria voz, não só como líderes, mas também como seres humanos. Esta é, se calhar a parte, mais importante de ser um líder com uma voz individual.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais