A tradição já não é o que era e os cartões de visita já viveram dias mais gloriosos. Houve tempos, em que a arte de usar cartões tinha muito que lhe dissesse.

Por exemplo, deixar um cartão em casa de alguém equivalia a uma visita e obrigava a retribuir tanto a visita como o cartão. Daí a expressão “ele não me passou cartão”…

Quando no início do século passado se mandavam os cartões por um portador, escrevia-se sempre a tinta. Mas quando se ia pessoalmente «deixar cartões», ou se dobrava ou se escrevia a lápis a mensagem porque nessa altura se escrevia com penas – e não dava muito jeito andar pelas ruas com um tinteiro na mão…

As dobras dos cartões tinham significados diversos. Segundo alguns especialistas nesta matéria, dobrar o canto superior esquerdo significava despedida, enquanto dobrar o canto inferior direito traduzia pêsames e dobrar o lado esquerdo até ao meio queria dizer recomendação.

Nada disto hoje faz sentido nem tem utilidade – até porque a comunicação, para ser eficaz, precisa de um código que seja partilhado por emissor e recetor. É por isso que as dobras de cartões deixaram de se fazer – exceto quando se quer evitar que o cartão seja utilizado indevidamente. Por exemplo, no caso dos enterros, onde os cartões são deixados numa bandeja à entrada da igreja, estes devem ser dobrados, para que ninguém caia na tentação de fazer deles um uso indevido.

Exatamente pela mesma razão, quando se entrega um cartão em mão a outra pessoa, nunca se deve dobrá-lo para não dar a ideia de que não se confia no uso que a pessoa fará do cartão que acaba de lhe ser entregue. Finalmente, como é óbvio, nunca se dobraram cartões enviados pelo correio.

Os cartões continuam a ser muito utilizados hoje em dia para o “networking”. A troca de cartões ajuda a memorizar o nome dos seus interlocutores e permite-lhe restabelecer o contato mais tarde.

Quando tiver de participar num evento em que se vai encontrar muita gente, deve levar muitos cartões. Até para que não lhe aconteça o que sucedeu ao meu pai, num “cocktail” oferecido por uma empresa japonesa. A troca de cartões é, no Japão, um verdadeiro desporto nacional. E o meu pai, apesar de ter levado muitos cartões de visita, ao fim de vinte minutos já não tinha nenhum. No entanto, temendo que os japoneses que continuavam a ser-lhe apresentados a um ritmo infernal se ofendessem por ele não retribuir a cortesia com outro cartão (como pertence), passou a distribuir os cartões que, entretanto, recebera e guardara noutro bolso do casaco. Os japoneses, suponho que para não perderem a face, agradeciam com uma vénia sempre que ele entregava um cartão e não demonstravam nenhuma surpresa por aquele senhor louro de olhos verdes se chamar Takanabe ou Mitsukobo e ser vice-presidente da Mitsubishi ou da Mitsui…

É pouco prático ter de andar à procura de um cartão no meio de uma carteira atulhada de papéis e cartões de crédito durante um evento. Um porta-cartões de metal ou cabedal é facilmente localizável no bolso do casaco ou na carteira das senhoras. Este objeto aparentemente supérfluo protege os cartões evitando que as bordas fiquem sujas ou gastas, por isso, não hesite em utilizar aqueles que lhe foram oferecidos ou compre um para guardar os seus cartões.

Os cartões são frequentemente usados para acompanhar ramos de flores e presentes ou para agradecimentos, parabéns e pêsames. Usam-se, muitas vezes, abreviaturas: «s.p.», para sentidos pêsames, «a. c.» para apresentar cumprimentos, «a. d.» para apresentar despedidas, etc. Os termos variam em função da intimidade, da amizade, da consideração ou do respeito.

Quando quiser enviar cartões com mensagens escritas, lembre-se de que o cartão deve ser utilizado como um todo. Antes do nome e do cargo, pode escrever uma frase de abertura (“Com os melhores cumprimentos, Com respeito e admiração, Com um abraço”, etc.)  Deve riscar o cargo (e o apelido, se houver mais intimidade) e a seguir, continuar a escrever a mensagem, fazendo a concordância verbal “a agradecer” ou “agradece, felicita, envia”.

Na parte da frente só pode escrever na primeira pessoa do singular (“agradeço, felicito ou envio”) no espaço antes do nome impresso, que funciona, assim, como uma assinatura. O verso pode ser utilizado como se fosse um cartão em branco: ” Meu caro Joaquim, envio em anexo o relatório de que falámos. Com os melhores cumprimentos” seguido da assinatura.

Comentários

Sobre o autor

Isabel Amaral

Isabel Amaral é Presidente da Associação Portuguesa de Estudos de Protocolo desde 2005 e Investigadora do Instituto do Oriente (ISCSP-Universidade de Lisboa), desde 2013. É oradora internacional, empresária, coach executiva, docente em universidades portuguesas e estrangeiras, palestrante e conferencista, em... Ler Mais